Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Nick Hornby «High Fidelity»



Se tivesse de ir para uma ilha deserta e só pudesse levar consigo cinco discos e cinco livros, quais escolheria? O trintão Rob Flemming tem o hábito de estar constantemente a pensar nos cinco mais disto e daquilo. 

Este romance de Nick Hornby, um dos escritores ingleses mais em voga na literatura popular contemporânea, centra-se na vida de um jovem imaturo, com algum azar no jogo da vida amorosa, que começa por nos contar o seu top de separações amorosas mais memoráveis. Nesta lista não inclui Laura, ex-namorada com quem viveu até há bem pouco tempo, embora Rob esteja convencido de que recuperá-la não será uma pêra tão doce como quando a conquistou com o seu setlist de DJ e as compilações de grandes hits e baladas pop. O que leva Laura a pôr fim à relação e iniciar outra com um vizinho é o comportamento infantil e egoísta de Rob, um adulto com problemas de confiança demasiado focado na sua carreira como vendedor de discos e com pouco futuro pela frente.

O estilo de Nick Hornby é simples, directo e muito honesto, centrado nos verdadeiros sentimentos de personagens perfeitamente “reais” que cria, manipulando-as através de situações do dia-a-dia que nos acontecem a todos nós. Sem adensar a narrativa com grandes reviravoltas e adornos bacocos à linguagem jovem, o grande desafio de Hornby neste romance passa por fazer crescer um pouquinho como pessoa a sua personagem principal, creio. 

Por vezes demasiado enraizado na cultura britpop, High iIdelity ficou aquém das expectativas que tinha, obrigando-me a ler certas passagens com maior rapidez, sem contudo defraudar por completo. É um bom romance, apenas, em última instância.
 
Nota: esta crítica foi baseada na leitura da obra no seu idioma original, o inglês. 

sábado, 27 de julho de 2013

Ricardo Adolfo «Maria dos Canos Serrados»



Ricardo Adolfo continua a dar cartas no mundo da nova ficção nacional. O autor de Mizé – Antes Galdéria do que Normal e Remediada e Depois de Morrer Aconteceram-me Muitas Coisas apresenta-nos o romance de uma anti heroína de vinte e poucos anos residente na zona da Linha de Sintra.

Maria, uma rapariga que estudou numa faculdade de Lisboa, vê-se no desemprego, com salários em atraso, a partilhar uma casa com uma raparigas da má vida e ardentemente apaixonada por Velhinho, um gigolo profissional que anda pelo Algarve a fazer turistas. Ricardo Adolfo escreve capítulos curtíssimos e em conformidade com a rapidez e o calão que as suas personagens debitam na narração e diálogos, iniciando cada novo capítulo em forma de um diário onde Maria regista os seus pensamentos e sonhos; são sempre dirigidos ao tal Velhinho:

«Velho verme,

Estamos com um ódio canídeo à tua pessoa e ao resto do mundo. Estamos prestes a ir ao Nandos comprar uma fusca que te desfaça a carapinha e o nariz empinado em milhares de bocadinhos pequeninhos».

Perante a corrupção da empresa onde acaba de ser despedida, a inoperância dos sindicatos e a falta de resposta por parte da Segurança Social, Maria vê-se obrigada a safar-se como pode no país do “desenrascanço”. Como distracção, Maria e as amigas vão a Rio de Mouro ao Bar e Salão de Fogo Nandos, um espaço localizado no terceiro andar de um prédio, onde os fregueses podem disparar armas de fogo contra a parede. À medida que a nossa protagonista fica expert na arte de disparar e a sua vida pessoal e mercado de trabalho caminham para o precipício, Maria deseja ardentemente adquirir uma Baikal de canos serrados para entrar no mundo dos criminosos.

Repleto de vernáculo e linguagem popular, esta Maria dos Canos Serrados retrata fielmente a realidade de muitos jovens portugueses que frequentaram o ensino superior sem porém terem argumentos e oportunidades no mercado de trabalho que lhes estava destinado; a corrupção no mundo empresarial português é igualmente visado sob um olhar extremamente irónico, como aliás o autor nos tem habituado.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Eucleia com campanha promocional «Leituras de Férias»


A editora Eucleia encontra-se de momento com uma mega campanha promocional que abrange alguns dos melhores títulos do seu catálogo. Por 35 euros - valor que inclui os portes de envio -, poderá adquirir 13 livros:

Quanto mais depressa ando, mais pequena sou, de Kjersti Annesdatter Skomsvold (144 páginas)
A Arte de Chorar em Coro, de Erling Jepsen (248 páginas)
Não Humano, de Osamu Dazai (128 páginas)
Livro Ruído, de Davi Araújo (220 páginas)
A Casa Ancestral de L., de José Gonçalves Gomes (372 páginas)
Um lugar chamado Oreja de Perro, de Iván Thays (232 páginas)
Memórias de um Morto, de Hjalmar Bergman (326 páginas)
O Supermacho, de Alfred Jarry (102 páginas)
Búfalo, de Botika (144 páginas)
Garman & Worse, de Alexander Kielland (174 páginas)
Os Contos Completos de Ambrose Bierce, de Ambrose Bierce (606 páginas)
A Violação das Mulas, de Maria O. (80 páginas)
O Cortiço, de Aluísio Azevedo (204 páginas)

Em média, dá 2.6 euros por cada título... é de aproveitar.

domingo, 14 de julho de 2013

Boris Pasternak «Doutor Jivago»




Empolgado pela mini-série televisiva, com Keira Knightley no elenco, enveredei pelo romance que deu origem a tudo. Doutor Jivago foi um livro proibido durante muitos anos na Rússia, devido a motivos políticos; de facto, Boris Pasternak foi mesmo impedido de se deslocar a Estocolmo para receber o galardão do Prémio Nobel, mas no resto da Europa poucos ficaram indiferentes a um livro que começou a ser escrito por volta de 1910 e acabado em 1956.

Esta obra de carácter histórico retrata não só o período sangrento das revoluções e convulsões políticas na Rússia do início do século passado, mas também uma história de amor. Iuri Jivago, a personagem central do romance, é um médico/poeta que se opõe às guerras civis e ao ascendente do comunismo no seu país natal, pois ele acredita que esta forma de governo só pode destruir o seu país. Ao longo de sensivelmente 600 páginas, Iuri Jivago – mais conhecido pelas terras por onde passa por Dr. Jivago – e a sua família vão-se desencontrar com frequência, vários dos seus amigos e familiares morrerão às mãos da máquina soviética e o nosso médico apaixonar-se-á umas quantas outras.

Nas primeiras páginas do livro são-nos apresentados e descritos vários personagens, várias famílias, no entanto como são tantos, tornar-se-á muito difícil mais para a frente do romance saber quem é quem, visto que muitos dos intervenientes participarem na narrativa com escassez. Convém reter, no entanto, este triângulo amoroso: Iuri Jivago, Tonia – a sua esposa - e Larissa, o grande amor de Jivago. Entre um ambiente de decepção e morte que as grandes revoluções russas causaram, Jivago tem forças para se dedicar ao amor e aos prazeres da vida.

Doutor Jivago cativou-me nas primeiras páginas do livro, mas cedo caiu no aborrecimento e previsibilidade que muitos dos romances clássicos russos sofrem. Apesar de ser um épico e considerado um dos pilares da literatura do séc. XX, faltaram-lhe argumentos para me convencerem.

domingo, 7 de julho de 2013

James Joyce «Retrato do Artista Quando Jovem»



James Joyce, autor de uma das obras mais difíceis de traduzir de que há memória – Ulisses -, estreou-se nos romances com este seu retrato semi-autobiográfico, na pele do jovem Stephen Dedalus, em 1916, marcando um período de ouro no panorama literário mundial. Embora nem sempre compreendido e reconhecido enquanto vivo, o James Joyce “post-mortem” é hoje considerado um dos maiores génios que a cultura viu nascer.

Esta obra retrata a vida da personagem Stephen Dedalus – da mitologia grega Daedalus, visto por muitos como o alter-ego de Joyce -, a questão da Irlanda em relação ao domínio britânico, a liberdade intelectual individual, a arte, a estética e o papel da religião/cristianismo. Igualmente, Joyce assinala nesta obra a consistência do uso do fluxo de consciência - técnica utilizada por outros ícones do modernismo, como José Saramago e William Faulkner, entre outros -, que remete o leitor ainda mais para o interior da personagem e os seus pensamentos e atitudes; estes diálogos carregados de ideias, que tantas questões levantam no ser de Stephen Dedalus, abrilhantaram ainda mais a sua obra e o carácter semi-autobiográfico instrospectivo de Dedalus – embora muitos acreditem que Dedalus é James Joyce a cem por cento.

O Retrato do Autor Quando Jovem, aborda na minha óptica as questões apontadas no parágrafo anterior, assim como a epifania do despertar na vida de uma personagem que cresce no seio de uma família católica, como a esmagadora maioria dos irlandeses, que estuda num colégio igualmente católico, até ao dia em que Dedalus põe em questão a autoridade que o cristianismo coloca sobre a sua liberdade sócio-intelectual e artística – daqui provém o “artista” do título da obra, suponho; este questionar num indivíduo que a certa altura equaciona dedicar-se ao ensino da doutrina cristã e é bafejado com a visão de uma linda mulher, marcam e de que maneira uma obra muito bem escrita e estruturada, ainda que sofra a espaços de alguns momentos entediantes, como o caso dos diálogos entre Dedalus e algumas figuras da Igreja católica.

Uma obra plena de simbolismo recomendada a todos os amantes da grande Literatura.

terça-feira, 2 de julho de 2013

José Luís Peixoto vence Prémio Salerno Livro d'Europa


José Luís Peixoto foi distinguido em Itália com o Prémio Salerno Livro d'Europa graças ao Livro, romance de 2010. O escritor de 38 anos, natural de Galveias, referiu que «foi muito bom» para si arrecadar este prémio, pois Livro «é um livro que parte de um tema que é sensível de tratar, e que para mim foi um pouco ambicioso abordar porque não o vivi, que é a emigração para França, e dessas migrações que tocaram muito as pessoas».

Cemitério de Pianos, romance de 2007,  está na primeira lista do Prémio Impact Dublin, prémio a que concorrem obras publicadas em língua inglesa, nomeadas por livreiros de todo o mundo.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Michael Cunningham «As Horas»



Baseado no romance Mrs. Dalloway de Virginia Woolf, As Horas é uma singela e sincronizada forma de contar a vida de três mulheres que, sem o saberem, vivem vidas semelhantes e interligadas. Michael Cunningham, vencedor do Prémio Pullitzer (1999) graças a esta obra, recria a existência de Virginia Woolf no momento em que esta se encontrava a escrever Mrs. Dalloway, por volta de 1923, mantendo-se maioritariamente fiel à vida de Woolf, estabelecendo uma ponte de ligação a Mrs. Brown e Mrs. Dalloway; estas três senhoras combatem a angústia interior e tentam encontrar o seu verdadeiro papel na sociedade.

Escrito por capítulos alternados entre as três mulheres, todo o livro gira à volta desta luta que as intervenientes travam: Woolf luta por escrever bons romances e controlar os impulsos suicidas; Mrs. Brown, uma típica dona de casa norte-americana, finge ser feliz num casamento pós-segunda guerra mundial, Mrs. Dalloway, aparentemente a mais feliz das três senhoras, é uma lésbica nova-iorquina que tenta organizar uma festa para o seu amigo Richard – que lhe pôs a alcunha de Mrs. Dalloway -, um poeta nos seus últimos dias de vida, vítima de Sida. 

A liberdade sexual da homossexualidade das três protagonistas é outro dos pontos-chave da obra. Para além do tédio que Woolf sente ao viver no campo, afastada do ambiente de Londres, a sua vida muda quando beija outra mulher, sentindo-se mais “viva”, por assim dizer, mais realizada interiormente, portanto; Mrs. Brown sente o mesmo quando beija uma amiga e se apercebe de que nunca será feliz a cozinhar bacon para o filho e marido às 7h da manhã; Mrs. Dalloway, de seu verdadeiro nome Clarissa, como referido é lésbica - partilha habitação com a sua companheira Sally - é extremamente culta, ligada às artes e Literatura e toma conta do ex-parceiro Richard. Creio haver aqui uma afirmação crescente entre os três períodos em que as protagonistas vivem em termos de sexualidade, cimentando-se em Mrs. Dalloway. 

As Horas retrata bem a ausência de realização pessoal e consequente desequilíbrio emocional de três gerações de mulheres distintas, porém interrelacionadas, explorando ao mesmo tempo a questão da homossexualidade É também, pois claro, um tributo a Virginia Woolf.