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quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Eleanor Catton vence Man Booker Prize

 
A neozelandesa Eleanor Catton (n. 24 de Setembro 1985) venceu o Man Booker Prize 2013 graças ao romance The Luminaries, tornando-se assim a escritora mais jovem de sempre a arrecadar o galardão.

Robert MacFarlane, presidente do júri, classificou a obra como «brilhante» e «deslumbrante», ao que a jovem autora agradeceu e enalteceu o facto de o júri não ter dado importância à sua juventude.

Eleanor Catton arrecadou igualmente 50 mil libras de prémio.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Philip Roth «Nemesis»


 

Nemesis foi o último romance de um dos mais galardoados escritores norte-americanos dos últimos anos, Philip Roth, recentemente aposentado da Literatura. Capítulo final numa série de quatro obras – Everyman (Todo-o-Mundo, em português), The Humbling, Indignation (Indignação, idem) – onde aborda, essencialmente, a fragilidade do ser humano enquanto ser que envelhece e perde faculdades e a falácia do sonho americano.

Nesta obra, o veterano escritor prossegue a contar-nos algo sobre o seu passado enquanto jovem em Newark, Nova Jérsia, na década de 40. Esta década, onde os Estados Unidos derrotaram o nazismo e o imperialismo nipónico em duras batalhas, adquire um sentimento quase secundário para Eugene “Bucky” Cantor, um jovem de 20 e poucos anos que queria muito servir o seu país na guerra mais sangrenta do séc. XX, mas que por ver muito mal, foi-lhe recusada a sua participação; a verdadeira guerra que Bucky tem pela frente, é a poliomielite, uma doença que naqueles tempos era letal, principalmente nas crianças. 

Quando o surto de poliomielite ganha contornos assustadores no bairro judeu onde Bucky vive, o professor de educação física e também treinador tem em mãos a maior desgraça que lhe podia acontecer. Pouco a pouco, todos os rapazes saudáveis e cheios de vida que Bucky conhece adoecem, acabando a grande maioria deles por morrer no hospital. Sem qualquer tipo de certezas sobre a origem da epidemia, a paranóia reina entre os moradores do bairro. Será que o problema está no calor? Será que são os miúdos italianos que trazem o vírus? Estas e outras questões são colocadas a Bucky. Ele, como é óbvio, não tem resposta.

Philip Roth passa em revista toda a sua vida, ainda que esta obra não seja necessariamente bibliográfica; a América dos anos 40, a saudade, a nostalgia parecem-me ser demasiado evidentes ao longo do romance. Outra questão principal prende-se com Deus e a sua existência: que tipo de Deus é este que tira a vida a crianças inocentes? Philip Roth e Bucky, apesar das raízes judaicas, não parecem ser religiosos. Bucky, ao longo da obra, tenta perceber como é possível que as pessoas à sua volta acreditarem em Deus – uma divindade bondosa – quando todo o mundo parece entrar em colapso.

Extremamente reflexivo e inquisitivo, Nemesis – a confirmar-se como último romance do autor - passa a ideia de que Philip Roth possa eventualmente ter saído da cena literária com alguma amargura, como ele deu a entender em entrevistas recentes. Uma boa obra, sem dúvida, mas não a sua melhor.

Nota: esta crítica foi baseada na leitura da obra no seu idioma original, o inglês.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Alice Munro vence Prémio Nobel da Literatura 2013


A escritora canadiana Alice Munro venceu o Prémio Nobel deste ano na categoria literária.

A Academia Sueca atribuiu o galardão e 1.25 milhões de dólares à contista de 82 anos (n.1931) devido à sua «mestria de conto contemporâneo». 

Apesar de a Academia Sueca não divulgar nomes candidatos ao prémio, a autora vencedora do Man Booker International Prize de 2009 deixou para trás uma lista, elaborada pela imprensa literária, que incluia, entre outros, o português António Lobo Antunes, Haruki Murakami e Jon Fosse.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Erling Jepsen «A Arte de Chorar em Coro»


Chorar tem que se lhe diga: é uma arte. Pelo menos, é-o para uma família disfuncional do Jutlândia, no sul da Dinamarca. No final dos anos 60, numa região rural, há uma família que marca presença em funerais, mesmo quando não conhece bem o morto, para chorar em coro e discursar no enterro. Por vezes, dão também uma perninha em festas de aniversário. Esta arte é, no entanto, treinada em casa com auxílio de livros e músicas tristes.

A Eucleia e João Reis trazem-nos a primeira tradução portuguesa de um romance que, por vezes, roça o sublime. Erling Jepsen, (n. 1956, Gran, Dinamarca) apresenta-nos em A Arte de Chorar em Coro a vida vista por Allan, um menino de 11 anos que pretende seguir as pisadas do pai e tornar-se um bom orador fúnebre. Allan, como todas as crianças da sua idade, ocasionalmente leva tareias - «Dói, claro, mas não me incomoda demasiado; desde que ninguém o veja.» - e brinca com os amigos, mas é a sua família que importa realmente, mais que tudo. Depois, há ainda o Tarzan e o arcanjo Gabriel que o ajudam no dia-a-dia e durante o sono. Depois disso, vem Gazan Tarriel, a fusão natural entre o arcanjo e o homem da selva, uma espécie de super herói com poderes metafísicos, que Allan crê realizar os seus desejos, mesmo os pedidos mais mauzinhos.

O ponto forte do romance reside na forma como o menino vê o mundo - vê-o sempre com uma “inocência” que só as crianças experienciam, mesmo quando leva tareias: «E recomeça, mas não como antes; agora começa a bater depressa, depois devagar e, em seguida, outra vez depressa, sem nenhum ritmo, e uma vez até falha o golpe! (…)» (pág. 59) -, e no humor que Jepsen utiliza - «O pai tem medo que seja maricas: o que significará isso? A mãe diz que não, que as coisas são assim nas cidades grandes; comem com faca e garfo todos os dias, como nas festas.» (pág. 61). Ah, as crianças são mesmo muito “inocentes”: «Será que o Asger [irmão mais velho de Allan] não compreende que há um motivo para que o pai e a Sanne [a irmã] durmam juntos no sofá? Deveria considerar o que aconteceria se não o fizessem. Como se sentiria o pai?» (pág. 65)

Afinal de contas, amigo Shakespeare, não há nada de podre no reino da Dinamarca, como comprova este excelente romance.

«- Ele tinha uma erecção?
Não sei bem o que quer dizer com essa palavra.
- Quando estavam a tocar-se no quarto, sem roupa nenhuma, ele tinha a pilinha para cima?
- Não sei – respondo -, não vi.» (pág. 227)

Apesar da disfuncionalidade apresentada – encesto, tragédia, morte, funerais -, A Arte de Chorar em Coro é tudo menos triste. Uma ode à boa disposição em tons sérios que nos fazem reflectir sobre a «gravidade da vida».

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Kjersti Annesdatter Skomsvold «Quanto Mais Depressa Ando, Mais Pequena Sou»



Numa entrevista ao Público, a norueguesa Kjersti Annesdatter Skomsvold (KAS) explica que tinha como plano de vida ser engenheira, mas que depois adoeceu e teve de ficar acamada num quarto durante um longo período da sua vida, levando-a a escrever um livro – ela, que nunca tinha escrito nada, segundo a mesma.

Pois bem, Mathea Martinsen – a personagem central - é uma senhora muito idosa que foi atingida por dois relâmpagos (!) quando jovem, deixando-a com muitos problemas de mobilidade, pouco cabelo e escassos dentes, que vive a vida de forma anti-social – antes de sair do seu apartamento, certifica-se de que não encontrará vizinhos nas escadas – em parceria com o seu marido Epsilon. Escrito de uma forma simples, inteligente - «Então, dirijo-me ao lago Lutvan. O tapete é verde, o papel de parede é castanho e o teto é azul. Paro na última colina. Escuto as árvores e conto até três em sua honra, e depois desço a colina tão lentamente quanto posso» (pág. 141) – e cómica, com algumas doses de tragédia à mistura, Quanto Mais Depressa Ando, Mais Pequena Sou (título inspirado na Teoria da Relatividade de Einstein) explora a solidão e fobia social de uma senhora que passou um mau bocado na sua vida, e que, no entanto, agora, perto da morte, procura deixar uma marca da sua existência - «Embora fosse bom ter um obituário como prova da minha existência, e pergunto-me se se pode submeter o próprio obituário em adiantado e pedir ao jornal para o imprimir quando chegar o momento» (pág. 19).

Esta obra, vencedora do prestigiado prémio de literatura norueguês Tarjei Vesaa, em 2009, explora as debilidades e obstáculos que a velhice impõe de uma forma muita descontraída, quase como se se tratasse de uma criança a descobrir pela primeira vez as dificuldades da vida, ainda que sem o optimismo infantil. O humor, infelizmente, torna-se algo previsível e um pouco cansativo, retirando algo do brilho inicial que o primeiro terço da obra propõe, o que é uma pena.

Polvilhado com brutas doses de humor negro e desconcertante,  Quanto Mais Depressa Ando, Mais Pequena Sou é uma óptima estreia literária por parte de KAS; apesar de prometer mais que aquilo que inicialmente oferece, merece uma leitura cuidada por parte do leitor.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Faleceu António Ramos Rosa


O poeta e ensaísta António Ramos Rosa (n. Faro, 1924) faleceu ao início desta segunda-feira, no Hospital Egas Moniz, Lisboa, vítima de infecção respiratória.

O escritor de 88 anos premiado com o Prémio Fernando Pessoa, entre tantos outros, é autor de obras célebres de onde sobressaem O Grito Claro, Poesia, Liberdade Livre e Incisões Oblíquas

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Osamu Dazai «Não Humano»


Não Humano, publicado no período em que a poeira da II Guerra Mundial assentava e muita indefinição quanto ao futuro do Japão pairava no ar, apresenta-nos uma visão pessimista e niilista sobre o ser humano. Baseado em eventos da sua própria vida, Osamu Dazai construiu aqui um romance opressor – para o leitor – e cru que ainda hoje é considerado um ícone e best-seller em terras nipónicas.

«De facto, quanto mais cuidadosamente examinas o rosto sorridente da criança, mais sentes um horror indescritível e atroz a trepar por ti acima. Vês que, na verdade, não é, de todo, um rosto sorridente. O rapaz não tem um único indício de um sorriso.» (pág. 10): esta criança é Yozo, personagem central de todo o romance, um indivíduo que cria uma espécie de máscara de ferro para enganar todos os que o rodeiam. Incapaz de ser feliz, o jovem Yozo finge sorrisos, inventa felicidade, faz «palhaçadas» para se inserir numa sociedade que o rejeita. Este distanciamento social resulta muito provavelmente da ausência de uma figura paterna no seu crescimento infantil: «Mesmo quando o meu pai e eu vivíamos na mesma casa, ele mantinha-se tão ocupado a receber convidados ou a sair que, por vezes, decorriam três ou quatro dias sem nos vermos. Isto, todavia, não tornou a sua presença menos opressiva e intimidante.» (pág. 50).

À medida que cresce e falha na vida, à medida que o desespero e o negativismo se apoderam da mente de Yozo, coisas más acontecem não só a si mesmo, como também aos que o rodeiam. A desesperante descida aos infernos e gradual auto-destruição combinada com perda de sentimentos pela vida alheia inclui uma tentativa de suicídio com uma rapariga, ainda que só morra a amiga (curiosamente, na vida real o autor suicida-se juntamente com a sua companheira em 1948), alcoolismo extremo , morfina e perda de lucidez entre o real e a loucura. Não importa nada, simplesmente.

De página para página, a dor e a insustentabilidade face ao quotidiano aumentam. Não sendo difícil de adivinhar o desfecho do final da obra, Não Humano transmite uma carga tão negativa e pesada que obriga o leitor a sentir compaixão pelo anti-herói Yozo (e também Osamu Dazai).

domingo, 8 de setembro de 2013

Ola Nilsson «Os Cães»




No nordeste da Suécia, longe das comodidades e da vida confortável que o centro económico de Estocolmo e Gotemburgo oferece, há vilas, aldeias e pequenas cidades com pouca densidade populacional onde o dia-a-dia é deprimente, funcionando o álcool como analgésico.

Ola Nilsson (n. 1972), longe de ser muito famoso por estes lados, é um autor sueco vencedor do Prémio Literário Norrland 2010, que a Eucleia publica num catálogo que inclui outros autores nórdicos de grande interesse. Os Cães, primeiro capítulo de uma trilogia composta por Os Anjos e No Amor se Ancora a Memória), aborda a vida de cinco adolescentes presos na ruralidade de um nordeste sueco que pouco tem a ver com a imagem tradicional que o país exporta; a perigosa e misteriosa ponte onde a matilha de adolescentes, cujas idades variam entre os 14 e os 16 anos, passa os tempos livres, é o centro onde a acção deste curto romance decorre.

Esta ponte - que na minha opinião faz precisamente a ponte entre a adolescência e a vida adulta da aldeia – funciona como escape a um grupo de adolescentes que encontra, no álcool, sexo e mergulhos da ponte para o rio, uma espécie de local seguro, longe do resto do mundo, longe das suas famílias disfuncionais. Ola Nilsson imprime um carácter triste, sóbrio e directo às suas palavras, palavras que muitas das vezes contrastam com a imagem gráfica que o leitor absorve da narrativa; um dos aspectos mais duros e pesados da obra encontra-se nas interacções e relações familiares das personagens, pautados por uma certa distância entre pais e filhos, uma quase indirecta imposição de maturidade forçada que os progenitores impingem aos filhos.

Não obstante a vida independente na sociedade Sueca – nórdica, em geral – começar por volta dos 16 anos, em Os Cães há uma ausência de afecto e acompanhamento deste processo de independência que, a meu ver, os pais devem seguir de perto; a obra sugere várias vezes que são os mais novos que tratam dos mais velhos, invertendo assim os papéis da responsabilidade que liga os pais aos filhos.

O título do romance poderá estar ligado a esta capacidade de crescimento à força e falta de figuras paternais – ou figuras que se distanciam das crias demasiadamente cedo – que faz parte da vida dos cães, como é sabido. As pouco mais de cem páginas de Os Cães, ainda que curtas, escondem um alto impacto visual.

domingo, 1 de setembro de 2013

Maria O. «A Violação das Mulas»



Por vezes, nem sempre todos os livros com palavrões e calão são interessantes. Os impropérios e a linguagem de rua podem e devem ser utilizada, mas têm a sua hora e local, saber empregá-los convenientemente acaba por ser mais difícil do que o que parece.

Irvine Welsh fá-lo extremamente bem, assim como a geração Beat o fez no passado, mas o mesmo não se pode dizer de Maria O., escritora  que «nasceu em Vila Nova de Gaia há mais de 20 anos. Tem escrito muito. Ainda está viva» e sobre a qual nada mais se sabe. Ora, o intuito desta obra seria fazer  «um retrato do cu da Europa: Portugal no seu melhor», «um guião à la Quentin Tarantino dos velhos tempos, mas escrito por uma portuguesa», «a história de uma vila portuguesa e da polémica criada em torno de uma escultura. Políticos corruptos, falsos moralistas, promiscuidade e reviravoltas surpreendentes num livro irónico e divertido.»

A sério?

Vamos às personagens. Temos Quim Tiliano Zibeta, Isaac Zibeta, Possidónia, Zimbelina, Deivid Uva, entre outros, e aproveito para perguntar o porquê de não haver o Quim Estacionâncio, o Fernando Rocha ou o Zé Corninho. A única explicação para estes “bizarros” nomes de pessoas (?) será que a obra se passe num principado/república das bananas recente, onde os habitantes possuem estes apelidos.

Pois.

A estória desta obra anda à volta das aventuras e desventuras destas personagens que se envolvem em grandes orgias.

A obra é tão extravagante e vanguardista, que podemos ler nas primeiras páginas um exemplo de pura literatura transgressiva em modo low cost, uma espécie de Marquis de Sade castrado: «Zibelina acabara de parir e tinha leite nas mamas. Quim Tiliano Zibeta, o homem cujo esperma atingiu o supremo, e o único aceitável, propósito para a sua líquida e incómoda existência num rápido encontro com um óvulo da minha mãe (…) observava há já tempo considerável o modo como a sua robusta empregada doméstica refletia no rosto a atmosfera húmida e cansada daquela tarde de primavera. Na verdade, o que o fascinava naquele instante (…) era a maneira hábil como Zibelina se inclinava sobre o fogão, limpando-o apenas com uma mão, enquanto a outra segurava um dos seus seios, inchados sob a bata, a querer fugir.– Estás a segurar porquê? Vai cair?– Têm muito leite. Às vezes dói.»

Este é dos parágrafos mais longos e coerentes presentes nesta obra.

Perguntei-me, enquanto lia entediado esta obra, se isto é mesmo publicado pela Eucleia, a editora que nos traz romances nórdicos com qualidade. E é mesmo.