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terça-feira, 27 de novembro de 2012

Valter Hugo Mãe vence Prémio Portugal Telecom


O português Valter Hugo Mãe é o grande vencedor do Prémio Portugal Telecom na categoria de Literatura Portuguesa de 2012. O autor concorreu com A Máquina de Fazer Espanhóis e recebeu ontem à noite em São Paulo, Brasil, o prémio que distingue o melhor romance escrito em português, derrotando assim Michel Laub e Julián Fuks. 

Os restantes vencedores foram o poeta Nuno Ramos, que venceu na categoria de poesia, e Dalton Trevisan, vencedor na de conto.

domingo, 2 de outubro de 2011

Valter Hugo Mãe «O Filho de Mil Homens»


Depois do caos e da crueza dos três primeiros romances que tinha lugar em lugares rurais onde a religião funcionava como dogma do bom funcionamento social, Valter Hugo Mãe decidiu dedicar-se a algo diferente, bem diferente. Em vez da desgraça sem esperança no horizonte, eis que este autor escreveu dois romances com uma forte onda de calor humano e muito boa disposição por parte dele mesmo e da maioria das personagens, numa escrita não tão modernista e complexa, mas bela e simples.  

Estas são as vidas de vários seres que povoam uma aldeia rural onde, sim, acontecem desgraças, mas o amor e o valor da vida humana prevalece e acaba por triunfar. Não são muitos os romances onde, de todas as personagens apresentadas, há uma certa dificuldade em determinar quem é a principal, portanto, se dissermos que este registo engloba personagens que desempenham um papel secundário, não estaríamos a ser demasiado arrojados, creio; por outro lado, e visto que praticamente todas estão ao mesmo nível em termos de atenção e exploração do carácter por parte do autor, são igualmente todos personagens principais. Valter Hugo Mãe pretendeu, penso, criar um romance destinado, desta vez, a um público mais vasto e menos específico que na tripla O Nosso Reino, O Remorso de Baltazar Serapião e O Apocalipse dos Trabalhadores, algo que tinha ficado por aperfeiçoar n’A Máquina de Fazer Espanhóis.

Crisóstomo é um homem solteiro de 40 anos que tem um boneco de pano com um sorriso feito de botões vermelhos. O maior desgosto de Crisóstomo é não ter um filho. Não ter filhos e haver crianças a precisarem de pais. Ele quer ser pai: que ser o pai de mil filhos; Camilo, que não conheceu os pais e perdeu o avô torna-se seu filho, fruto do amor que Crisóstomo lhe dá e ensina; Antonino é um homem, mas não um homem vulgar: é um homem maricas. E sendo um homem maricas, o dever dos seus pais seria de rachá-lo ao meio ou espetá-lo num pai e queimá-lo vivo; Matilde, mãe de Antonino não queima nem racha o filho, mas questiona-se se o deveria fazer, visto que os maricas são diferentes. Em vez de o matar, dedica-se a criar os bichos e a tentar entender as diferenças do filho; Isaura, que tem um nome bonito, cedo perde os frutos do pomar que a sua virgindade lhe oferece, levando-a a ser uma pessoa triste e conformada com a solidão. Até que conhece Antonino e Crisóstomo. 

Nesta aldeia rural à beira-mar, estas pessoas começam-se a conhecer e a compreender as suas diferenças, e é precisamente nisso – o diferente – que aprendem a criar laços de amizade e amor. Não obstante a rudeza e os preconceitos que esta aldeia comporta, cruzam-se personagens com muito amor para dar. Bem mais que aquele que pensam já não ter; à medida que interagem uns com uns outros, a mariquice de Antonino, a solidão de Matilde, a tristeza de Crisóstomo e a ingenuidade de Camilo desaparecem. Escrito e descrito com aquele toque “saramaguesco”, aquela ficção hilariante de García Márquez, e claro, o cunho pessoal que Valter Hugo Mãe, O Filho de Mil Homens é um manifesto de amor e compaixão.

Esta questão do positivismo e do calor humano que o livro transborda poderá render a este autor críticas no sentido da falta de elementos violentos e negativos que os primeiros romances continham e o lançaram para a ribalta. No entanto, e como ele explica, este romance marca um novo ciclo na sua criação literária, sendo ele é o «filho de mil homens e de mil mulheres» e quer, ao mesmo tempo, ser «pai de mil homens e mil mulheres».

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Valter Hugo Mãe «o remorso de baltazar serapião»


“Estou muito aflito. É profundamente chocante receber este prémio desta forma. Estou habituado a pensar na escrita como um exercício de solidão e hoje sinto-me muito acompanhado”, afirmou o Valter Hugo Mãe quando recebeu o Prémio Literário José Saramago de 2007. O romance o remorso de baltazar serapião não só lhe valeu este importante prémio da literatura portuguesa, mas também acabou por tirar Valter Hugo Mãe do anonimato – ou valter hugo mãe, como o autor gosta de ser tratado.

A leitura de o nosso reino (2004) já tinha deixado excelentes indicações sobre este jovem escritor e era apenas uma questão de tempo até que o mérito e o talento lhe fossem reconhecidos. E foram, felizmente para a nossa cultura.  Esta obra tem lugar num Portugal medieval marcado pelo feudalismo cheio de miséria, medo religioso, e relações sociais e afectivas disfuncionais que esse período comportou. Baltazar, a personagem principal – baltazar, com letra pequena, como todas as personagens no livro – vive numa pequena casa onde a vaca Sarga tem tanta ou mais importância que a sua mãe, trabalhando em ofícios duros típicos da classe baixa da idade medieval.

A vida de Baltazar muda quando conhece e se casa com Ermesinda, uma mulher cuja beleza era tanta que o ânimo e modo de estar na vida de Baltazar acabam por mudar drasticamente para melhor. A situação altera-se por completo quando D.Afonso, o senhor feudal, exige a Baltazar que todos os dias a sua esposa o visite na sua casa para efectuar alguns trabalhos. É nesta altura do romance que a nossa personagem principal tem ataques de ciúmes e passa a ter a relação que o pai tem com a sua mãe: violência para além do que podemos imaginar, descrita com um realismo assustadoramente chocante (“Pé torto, mão para o ar, braço colado ao peito, outra mão nenhuma, olho só buraco”), através duma linguagem rude e arcaica.

o remorso de baltazar serapião simboliza não só a forma brutal como os homens tratavam as mulheres na era medieval, mas pior que isso, a forma como as mulheres ainda hoje são tratadas. Baltazar é todos aqueles que no dia-a-dia aparentam um comportamento dito “normal” e que na sua privacidade com a esposa acabam por a tornar numa autêntica Ermesinda. Este “tsunami”, como José Saramago definiu, recupera alguma da horrível violência e escuridão presente em Memorial do Convento. Porém, e sem entrar em comparações com o falecido Prémio Nobel, a leitura desta obra é terrivelmente recomendada e essencial.