quarta-feira, 16 de março de 2011

William Faulkner «O Som e a Fúria»


Tom Sawyer terá sempre um espaço no meu coração. Recordo-me, como se fosse hoje, de quando era criança e via religiosamente as aventuras de Tom e Huckleberry Finn na RTP. “Vês passar o barco, rumando p’ró o sul. Brincando na proa, gostavas de estar. Voa lá no alto, por cima de ti, um grande falcão, és o rei, és feliz “, era desta forma que começavam os desenhos-animados d’As Aventuras de Tom Sawyer. Tom e os amigos viviam numa cidade perto do rio Mississipi e era nesse rio que cresciam como rapazes, arranjando, sempre que possível, sarilhos.

William Faulkner também cresceu no rio Mississipi, no estado de Mississipi. Este rio, que acompanhou a carreira literária de Faulkner, é mágico e tem uma simbologia transcendente – tal como tinha para Mark Twain e o seu Tom Sawyer. Nascido em 1897, Faulkner viria a morrer em 1962, devido a ataque cardíaco. No entanto, recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1949, tinha ele apenas 52 anos, o que não deixa de ser de certa forma invulgar - este prémio costuma ser atribuído a escritores mais envelhecidos. Desde A Paga do Soldado, o seu primeiro romance publicado, até Os Ratoneiros, William Faulkner deixa-nos um legado riquíssimo. Neste legado encontra-se O Som e a Fúria, uma obra vista como um dos maiores romances do séc. XX.

Em O Som e a Fúria (tinha o autor apenas 32 anos), é-nos contada o declínio da família Compson, residente no Condado de Yoknapatawpha, Jefferson, no estado Mississippi. Através desta família aristocrata e o seu declínio social e económico, é-nos relatado a mágoa, a dor e a queda dos valores humanos; Os Compsons e o Mississipi são o espelho do falhanço do Sul na resposta à guerra civil norte-americana: em vez de levantar a cabeça e viver em harmonia, respeitando as diferenças entre os brancos ricos e os negros pobres, o Sul vive num clima de racismo, assimetrias sócio-económicas e resignação. Na hora de haver uma união que permitisse à região unir-se e reconstruir-se, para acompanhar a paz vivida no Norte do país, há apenas avareza e egoísmo demasiado patentes. É esta dor que acompanhou toda a vida de William Faulkner e praticamente toda a sua obra: a dor de um Sul miserável – especialmente ao nível dos valores humanos.

A obra está dividida em quatro partes, as quais são narradas por Benjy, Quentin, Jason e um narrador na terceira pessoa, respectivamente. A família Compson é composta por Jason e Caroline, que têm os filhos Caddy, Quentin, Jason e Benjy, e por Maury, tio destes. Caddy tem também uma filha chamada de Quentin. Paralelamente, há Dilsey e a sua família (os negros do romance) que tratam das lidas da casa. A primeira parte do livro é, sem dúvida, a mais difícil de se perceber, pois é contada por Benjy. Benjy é deficiente mental (sofre de autismo) e, em virtude disso, vai contando a estória de forma não-linear, através de analepses algo bruscas. Faulkner recorre, em especial nesta primeira parte, à técnica do fluxo de consciência nas várias quebras de pontuação e sintaxe. Para o ajudar um pouco, o autor escreve em itálico sempre que Benjy viaja no tempo. Mesmo assim, a narração de Benjy encontra-se submersa num nevoeiro de decifrar. A segunda parte, narrada por Quentin (, foca-se na obsessão deste perante a sua irmã mais nova Caddy. A promiscuidade de Caddy, a tentativa de protecção e a queda dos velhos valores sulistas levam Quentin ao suicídio. Na terceira parte, Jason (filho) assume o controlo da família, depois da morte do pai Jason. Na última parte todo o nevoeiro se evapora através da ausência de qualquer narrador na primeira pessoa. Só aqui o leitor se apercebe da verdadeira estória da família Compson e consegue separar bem os nomes dos familiares que se repetem (um e uma Quentin, dois Jasons. Convém referir que cada parte corresponde apenas a um dia na vida de cada narrador.

O Som e a Fúria é um romance que vale a pena ser lido várias vezes para sua total compreensão. William Faulkner foi um escritor que inovou bastante no campo da literatura e as suas obras reflectem-se um pouco em alguns dos nossos escritores, como é o caso de António Lobo Antunes (para Lobo Antunes, Benfica é o Mississipi de Faulkner). Este registo está para Faulkner como Ulisses está para James Joyce: a maior obra de cada um deles. Leitura obrigatória.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Chuck Palahniuk «Clube de Combate»


Pode parecer que não, mas esta obra foi várias vezes censurada pela crítica e pela própria editora. Pode também parecer que não, mas aquilo que viu nos cinemas e agora pode ver no conforto do seu lar é uma mera adaptação de um romance de Chuck Palahniuk, uma das mais brilhantes e inovadores mentes da literatura norte-americana contemporânea. Clube de Combate foi publicado pela primeira vez em 1996 e, apenas três anos volvidos, foi adaptado ao cinema pelo realizador David Fincher (7 Pecados Mortais, A Rede Social, O Estranho Caso de Benjamin Button).

Um homem na casa dos 30, responsável pela segurança da linha de produtos numa empresa de automóveis, devorador dos catálogos e produtos da IKEA parece levar uma vida de sonho. Este homem, cujo nome nunca é referido, sofre de depressão e insónias crónicas. O seu médico diz-lhe que a insónia nunca matou ninguém e o melhor para ele é mesmo ir ao ginásio fazer desporto para ficar cansado e, consequentemente, ficar com sono. Este homem decide ir a grupos de terapia para pacientes com doenças graves, onde conhece Marla: uma pessoa que tal como o narrador/personagem, passa as noites nestes grupos. Numa viagem de avião, o narrador/personagem finalmente conhece Tyler Durden, um tipo cuja filosofia se baseia na autodestruição como meio para tornar a vida merecedora de ser vivida, ao contrário da realização pessoal, que é para os fracos. Depois do apartamento da personagem principal (vamos chamar-lhe “?”) ter explodido, ? decide ligar a Tyler para irem beber um copo. No final, começam a lutar um com o outro e formam o Clube de Combate.

A primeira regra do Clube de Combate é: não falar do Clube de Combate. A segunda regra do Clube de Combate é: NÃO falar do Clube de Combate. A terceira regra do Clube de Combate é: se alguém disser “pára” ou ficar coxo, a luta termina. A quarta regra do Clube de Combate é: dois homens por combate. A quinta regra do Clube de Combate é: um combate de cada vez. A sexta regra do Clube de Combate é: nada de sapatos nem de camisas. A sétima regra do Clube de Combate é: os combates levam o tempo que tiverem que levar. A oitava regra do Clube de Combate é: se hoje for a vossa primeira noite no Clube de Combate, vão ter que lutar.

Tyler é o oposto de ?: ele é perito em fazer bombas artesanais, é contra o consumismo e capitalismo e adora destruir para criar. O Clube de Combate rapidamente se espalha por todos os Estados Unidos, ganhando cada vez mais adesão de homens que levam vidas miseráveis e que encontram nos combates um escape à rotina. Todos eles estão dispostos a dar a vida por Tyler Durden. À primeira vista, a obra poderia parecer uma tentativa fácil e gratuita de promover a violência como forma de vida. Não é esse o caso. Na realidade, Chuck Palahniuk é o primeiro a condenar a violência, chegando mesmo a gozar com ela. Não existe Tyler Durden… ou melhor, existe quando ? adormece. Passo a explicar: o nosso personagem principal é um indivíduo esquizofrénico que se transfigura sempre que adormece. Se ele adormecer, Tyler entra em cena e causa caos. Portanto, ? assim que descobre que tem personalidade dupla, procura junto de Marla uma forma de se manter sempre acordado para evitar que males piores aconteçam. 

Durante um ataque de um dos grupos de Tyler, Bob morre. Bob é um ex-culturista que ? conhece num grupo de terapia e com quem trava amizade. Bob sofre de cancro nos testículos e tem mamas de mulher devido aos esteróides que tomou. O sentimento de revolta de ? perante a morte de Bob, é um sentimento de acabar de forma racional com a existência de Tyler Durden. Clube de Combate nunca poderia ser um livro escrito para causar sensacionalismo gratuito. McDonald’s, IKEAs, Coca-cola e todos os produtos que nos impingem no dia-a-dia (capitalismo/consumismo, no geral), o medo de enfrentar os problemas (recorrendo a comportamentos violentos) e o viver a vida no extremo da sanidade, são alguns dos temas abordados nesta grande obra.

Estamos perante uma obra que conta com milhões de seguidores no cinema e com um número significativo de leitores que seguem o culto deste escritor com grande devoção - daqui a alguns anos, esta obra será elevada ao nível de Laranja Mecânica, de Anthony Burgess. Clube de Combate é um livro fundamental para se perceber o mundo distorcido e transgressor em que Chuck Palahniuk vive e do qual se alimenta.  

John Williams «Cardiff Morta»


Cardiff Morta (no original Cardiff Dead) é um romance, da autoria de John Williams, que retrata a cidade de Cardiff no período de 1981 a 1999. Williams, também ele galês, oferece-nos aqui algo que inúmeros escritores britânicos e americanos já nos ofereceram e ainda vão oferecendo com qualidade: o crescer de uma zona e o recordar dos anos de ouro dessa mesma área. 

O problema é que John Williams explora essa temática de forma demasiado previsível e tenta colar-se em demasia a outros autores. A narrativa centra-se em Mazz – a personagem principal – e o seu regresso a Cardiff, depois de se ter ausentado em Londres, Inglaterra. Mazz regressa ao descobrir que Charlie Unger, um dos seus melhores amigos, figura do boxe do País de Gales e pai da sua ex-namorada, morreu e ficou uma semana no seu apartamento até ser encontrado. 

O autor usa a morte de Charlie como pretexto para recordar a Cardiff do início da década de 80 até ao final da década de 90. Mazz, que já não tem os seus 20 anos, fez parte dos Wurriyas, uma banda de ska de onde também faziam parte o skinhead Emyr e Tyra (filha de Charlie). Durante um curto período, os Wurriyas foram uma referência musical da cidade (chegaram mesmo a gravar um álbum) e fizeram inclusive uma turné pelos Estados Unidos. Este foi, para Mazz e todas as personagens da banda, o período mais feliz das suas vidas. 

Vinte anos volvidos, há a hipótese de reunir os Wurriyas, mas para que isso se possa realizar, há que encontrar Emyr que, curiosamente, foi umas das últimas pessoas a que esteve com Charlie, antes de este morrer. As constantes analepses remetem para a época em que Tyra e Mazz eram namorados, para a época em que as docas de Cardiff eram frequentadas por vários tipos de raças, onde a cultura ska/reggae predominava como expressão cultura. Agora, em 1999, Emyr não é mais um skinhead. Em vez disso, é um surfista que Mazz tem que encontrar para tentar resolver a morte de Charlie. Um dos pontos altos do livro é o desmistificar o preconceito habitual de que um skinhead é racista. Bem pelo contrário, os skinheads eram pacíficos, ouviam Bob Marley e havia muitos negros na cena.

Enquanto obra, Cardiff Morta roça o banal em todos os aspectos. Não há aqui nada que não se tenha visto no legado de Jack Kerouac ou Charles Bukowski; o livro é uma tentativa falhada e muito forçada de exploração das drogas e sexo. Até os palavrões aparecem descontextualizados, muitos deles parecem saídos de um filme barato de terror para adolescentes. Três pontos que passaram ao lado do País de Gales.

sábado, 12 de março de 2011

At the Gates «Purgatory Unleashed - Live at Wacken»


Os At the Gates foram, a par dos Entombed, a banda de death metal sueca mais popular da primeira metade da década de 90. A formação liderada por Tomas Lindberg, estreou-se em 1992 com The Red in the Sky is Ours (o meu álbum favorito), de onde saíram os clássicos Windows, The Red in the Sky Is Ours / The Season to Come e o single/vídeo Kingdom Gone, terminando em 1995 com aquele que é visto com um dos supra-sumo do death metal melódico, Slaughter of the Soul.

Em quatro anos de existência – a demo Gardens of Grief saiu em 1991 -, o quinteto de Gotemburgo deixou um legado só ao alcance de pouquíssimas bandas e o culto daqueles que viram e viveram a ascensão da banda vai sendo transmitido aos mais novos. Os At the Gates não só são ainda hoje uma das bandas mais influentes do death metal melódico, como também deixam marcas nas bandas de deathcore e metalcore, tais como Killswitch Engage, Darkest Hour ou The Black Dahlia Murder. Também costumam ser plagiados com frequência, o que não é nada anormal nas grandes bandas.

Em 2008 foram àquele que é visto como a Meca dos festivais de metal, o Wacken Open Air (situado na pequena vila de Wacken, no norte da Alemanha), gravar este disco ao vivo. Purgatory Unleashed - Live at Wacken (também disponível em DVD) contém dezoito faixas espalhadas por, sensivelmente, uma hora e quinze minutos. Julgando pelo vídeo e pelo áudio, os suecos deram uma dos concertos mais intensos da sua carreira, numa reunião de grande nível por músicos que integraram formações de Disfear, The Crown, Skitsystem e que se vão mantendo activos em The Haunted e Brujeria. A banda fez questão de tocar temas de todos os lançamentos, incluindo a primeira demo (All Life Ends foi mesmo tocada). Nem sempre se verifica em registos ao vivo, mas o som deste está num patamar bem elevado: a bateria não está muito alta e o baixo, as guitarras e a voz de Tomas Lindberg são claramente audíveis.

Os fás do legado de uma das bandas pioneiras do death metal melódico da Suécia (também apelidado de “Gothenborg” metal) têm aqui mais um motivo para manterem a chama à volta da banda bem acesa. Kingdom Gone, Blinded by Fear, Terminal Spirit Desease, Nausea e Raped by the Light of Christ são alguns dos motives pelos quais não só vale a pena possuir Purgatory Unleashed - Live at Wacken, como também constituem um forte incentivo para a aquisição do espectáculo em DVD, The Flames of the End. Imprescindível. 

9/10

sexta-feira, 11 de março de 2011

Slipknot «Iowa»


Oficialmente, a estreia dos Slipknot deu-se em 1996 com Mate. Feed. Kill. Repeat., no entanto, seria apenas em 1999 que a banda se “re-estreia” com Slipknot. Existem algumas explicações para o facto de a banda encostar o disco de estreia: em muitas entrevistas, e quando questionados sobre Mate. Feed. Kill. Repeat não constar nos registos da banda, os nove músicos afirmaram que era apenas uma demo. O que não deixa de ser esquisito, pois nas primeiras entrevistas a banda considerava esta demo um álbum de longa-duração. 

Objectivamente, a demo/longa-duração revelou-se um disco razoável que misturava muito groove com funk, jazz e mesmo rap. Dois temas deste registo foram aproveitados mais tarde em Slipknot e em Iowa: Tattered & Torn e Gently, respectivamente. Da formação actual, faziam parte Shawn Crahan, Joey Jordison, Mick Thomson e Craig Jones, sendo de mencionar honrosamente Paul Gray, baixista falecido em Maio de 2010. Slipknot foi, sem sombra de dúvidas, um dos discos que mais marcou a minha adolescência, numa época onde o termo nu-metal não era tão popular quanto se possa imaginar, e definitivamente não era aplicado à banda de Des Moines, estado de Iowa. Quando esse termo (de conotação negativa) surgiu, tornou-se identidade de bandas como Korn ou Limp Bizkit, que nada têm a ver com este grupo. 

Voltando à idade em que o número de borbulhas na cara era equivalente a um pacote de pipocas dos grandes nos cinemas Lusomundo, descobri primeiro o homónimo e só mais tarde (a muito custo) consegui arranjar uma cópia da actual demo. Temas como (Sic), Spit it Out, Eyeless ou a orelhuda Wait and Bleed  não só eram dos mais fortes do álbum, como também são ainda hoje temas que figuram em praticamente todos os set lists dos concertos. Apesar de ter rodado centenas de vezes no discman, o CD ainda hoje se encontra em óptimo estado e gosto de lhe tirar o pó de vez em quando. Com alguns atrasos imprevistos, Iowa vê finalmente a luz do dia no quente Agosto de 2001, também com selo da RoadRunner Records (que já havia lançado o homónimo).

Num concerto que a banda ainda nesse mesmo ano no Pavilhão Atlântico, Corey Taylor tinha prometido que a banda nunca se iria vender ou tirar o pé do acelerador… e mantiveram a promessa até 2004, altura em que escreveram Circle e Vermillion, duas músicas bem calminhas. Pormenores à parte, este disco é bem mais equilibrado e mais pesado que o anterior. Left Behind acaba por fazer o mesmo papel que Wait and Bleed fez em Slipknot: melodia, ritmo a meio gás e refrões suficientemente fáceis de memorizar, capazes de catapultar a banda para várias audiências. O melhor do disco encontra-se em People = Shit, Disasterpiece, Gently e Iowa. As duas primeiras são as mais rápidas do disco, mais pesadas e que mais bebem da influência do death metal – com um vocalista diferente e com menos efeitos nos samples, poderiam perfeitamente fazer parte de um disco desse mesmo género musical. Gently explora uma faceta mais arrastada, mais experimental e bem mais intensa que a primeira versão incluída em Mate. Feed. Kill. Repeat.; Iowa, a grande surpresa do disco está mesmo guardada para o final: são quinze minutos obscuros em forma de “crescendo”, numa toada original composta por umas linhas de baixo e uma percussão de alto nível – nos “media” sensacionalistas cheguei a ler que Corey Taylor se mutilou várias vezes com uma faca durante a gravação desta canção. Bem vistas as coisas, os Napalm Death também foram à Índia matar uma vaca em pleno palco, não foi?...

Iowa não só valeu a espera, como foi um disco diferente do que a banda tinha gravado no passado, bem mais dinâmico e com um trabalho de percussão, aqui e ali, de destacar. Dez anos após o seu lançamento, continuo com a opinião de que este foi um dos discos mais agradáveis da década passada. Apesar de não ter agradado a todos, ainda vale a pena ser ouvido.

9/10

segunda-feira, 7 de março de 2011

Milan Kundera «A Insustentável Leveza do Ser»


Bem mais conhecido pela versão filme de Philip Kaufman e do desempenho de Juliette Binoche, A Insustentável Leveza do Ser é, primeiramente, um livro publicado em 1984 por Milan Kundera, nascido em 1929 na República Checa. Este romance retrata, por um lado, uma República Checa – na altura a Boémia – invadida pelo comunismo feroz stalinista de 1968, e por outro lado, uma questão filosófica sobre a relação leveza/peso e o ser humano.

Quando o exército da União Soviética começou a invadir a Europa e a anexar países, deu-se um controlo de liberdade de expressão totalmente fascista, onde tudo e todos eram controlados por uma polícia e um governo repressores, tal como acontece em todos os regimes totalitaristas. E aqui, o comunismo é apenas a ponta esquerda do pensamento totalitário que, bem vistas as coisas, até nem é radical, pois se assim o fosse, não teria sido implementado com tanta facilidade e frequência. O comunismo que Milan Kundera observa nesta obra, é aquele típico: o fascismo de esquerda (muda-se da direita para a esquerda, sem alterações).

A invasão trouxe revoluções a nível social, obviamente, mas também a nível cultural. O aspecto cultural é plenamente explorado pelo autor, através do recurso ao “kitsch” comunista, que, por outras palavras, pode ser descrito como um ideal formatado; uma acção ou um pensamento considerado como o mais ideal. Tomáš, um médico cirurgião de renome, é a personagem principal. Apresenta-se como um homem com bastante charme que, embora ame e não se imagine a viver sem a sua esposa Tereza, recorre várias vezes ao adultério. Para Tomáš, o facto de fazer sexo com outras mulheres, não constitui traição, na medida em que este distingue sexo e amor. Sabina é uma mulher elegante e uma artista com quem Tomáš se encontra muitas vezes para sexo casual. Sabina é, tal como Tomáš, uma pessoa culturalmente muito evoluída e muito dotada na sua profissão, que gosta de sexo casual. Tereza vem de um “background” extremamente disfuncional, no qual a sua própria mãe fazia questão de lhe mostrar que o corpo é nojento, daí que ela aceite as traições de Tomáš.

A dicotomia peso/leveza constitui a parte filosófica do livro. A leveza, para Kundera, dá-se na ausência de compromisso com alguém ou com alguma coisa e está relacionada com o existencialismo. O peso é precisamente o oposto à leveza. Kundera acaba por arrastar Tomáš para este dilema filosófico (criado por Parménides), socorrendo-se de Sabina em representação da leveza, e de Tereza como materialização do peso. Tomáš solta-se das amarras do comunismo nas relações que vai mantendo com Sabina e mais tarde na sua ocupação de observador do comportamento sexual; no entanto, é Tereza, através da sua atitude de compaixão pela vida e pelo perdoar das infidelidades, que prende Tomáš ao Mundo opressivo.

Só um ser com a leveza de Kundera se poderia dar ao luxo de recorrer à merda para, de forma cómica, mas séria, relatar a morte do filho de Stalin. Também só ele poderia recorrer à merda para observar o antagonismo entre merda e Deus: “Sem a mínima preparação teológica, com toda a espontaneidade, a criança que eu era então já compreendia, portanto, a fragilidade da tese fundamental da antropologia cristã, segundo a qual o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Das duas, uma: ou o homem foi criado à imagem de Deus e Deus tem intestinos, ou Deus não tem intestinos e o homem não se parece com ele.”

É fácil de verificar que, entre outros, Friedrich Nietzsche e Robert Musil são influentes na escrita de Kundera; ao mesmo tempo, também não é difícil apercebermo-nos que esta obra influenciou muitos autores e livros, como é o caso da tetralogia O Reino, de Gonçalo M. Tavares. Com A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera acaba por escrever o seu manifesto anti-comunista e, para além disso, a procura do lugar do Eu numa sociedade estandardizada.  

sábado, 5 de março de 2011

The Datsuns «The Datsuns»


Por vezes a melhor coisa que se pode fazer para encontrar algo é, não procurar. Sei bem que é uma contradição, mas a relação minha relação com os The Datsuns surgiu dessa forma. Enquanto todos estavam à procura da “next big thing” do rock, bajulando os Coldplay, beijando com afinco as mãos dos Audioslave (saiu Zack de la Rocha e entrou Chris Cornell) e acampando à porta da mansão de Axl Rose para ver quando é que a dita democracia chinesa saía do banho-maria, eu sentei-me no sofá, liguei a TV e dei de caras com In Love.

A Nova Zelândia é famosa pela bela paisagem natural - e pelos filmes que por lá se vão gravando, nomeadamente O Senhor dos Anéis -, por Russel Crowe e pelos All Blacks. No entanto, no ano de 2002 passou a ser famosa pelo rock ‘n’ roll dos The Datsuns. Com o álbum de estreia homónimo, o quarteto neo-zelandês assinou um sério pacto com o revivalismo da vertente mais hard do rock dos anos 70: Led Zeppelin, Thin Lizzy, AC/DC, MC5, entre outras importantes entidades. Depois de inserido o vinyl no respectivo gira-discos (o formato CD acaba por retirar parte da satisfação retro), o som encorpado e melódico de Sittin’ Pretty obriga a acenar com a cabeça em movimentos ora descendentes, ora ascendentes, causados pela grande guitarrada que aqui se escuta. 

Próxima paragem – e não vamos falar delas todas – dá-se na estação de MF From Hell, sendo que “MF” significa mesmo aquela palavra obscena que dá pelo nome de “motherfucker”, e o refrão é o seguinte: “She made me feel like a motherfucker from hell / Yeah, like a motherfucker from hell”; por aqui podemos chegar rapidamente a duas premissas. Premissa a): a linguagem presente em The Datsuns é algo insurrecta, ainda que não caia no ridículo explícito das letras que Fred Durst compõe; premissa b): o disco fala de amor de princípio ao fim, ou pelo menos de uma grande admiração pelo sexo feminino. Conclusão da fórmula: premissa a) + premissa b) = típica letra rock ‘n’ roll calça boca-de-sino, cabelo comprido com risco ao lado, bigode e patilha comprida.

Harmonic Generator é aquela canção mais calminha, casual, que muitos dos discos de rock têm e que retiram um pouco da adrenalina, sem necessariamente baixar o interesse álbum. In Love, já referida anteriormente, é o single perfeito para este registo. Tem uns riffs melódicos (um teclado Deep Purple também se parece ouvir aqui) simplistas, tem um vocalista com uma voz e uma atitude (literalmente) gritantes e aquela palavra “love” sempre presente [sem recorrer à premissa a)] na letra. In Love é uma canção muito bem feita, muito orelhuda e muito viciante. Tal como todo o resto do disco.

Tive a sorte de me encontrar sentado no sofá e de esta jovem banda ter vindo ter ao meu encontro, sem que me tenha dado ao trabalho de andar a ler o Blitz e revistas ou a passar muitas horas em frente ao ecrã ou rádio à espera de que anunciassem mais um projecto sem argumentos, na veia de, por exemplo, Velvet Revolver. The Datsuns revela-se um disco enérgico e os (The) Datsuns são a prova viva de que é possível regressar ao passado sem comprometer o futuro.

8.5/10