domingo, 8 de maio de 2011

Terror «Keepers of the Faith»


Os Terror são uma das mais importantes e conhecidas bandas de hardcore punk da actualidade e uma daquelas bandas que vale a pena pagar um bilhete caro nem que seja para ver uma mão cheia de temas. A banda de Los Angeles conta com membros que ostentam um currículo invejável dentro da cena hardcore norte-americana, com passagens por bandas de cariz mais “underground” de elevadíssima importância para o género musical: Carry On, Buried Alive, Donnybrook, Down to Nothing ou No Warning. Frank Novinec, ex-Hatebreed, e Carl Schwartz, vocalista dos First Blood, também estiveram envolvidos no passado recente da banda.

The Damned, The Shamed (2008) revelou-se um disco inferior comparativamente aos anteriores One with the Underdogs e Always the Hard Way, mas nada que resfriasse o ânimo e a esperança em relação a outro disco bombástico e envolvente como é o caso deste Keepers of the Faith. A banda oferece-nos um disco extremamente equilibrado, com alguma variedade, letras e refrões orientados para a supremacia do ser e a honestidade e camaradagem da própria cena hardcore punk e um instrumental que, apesar de nunca chegar a ser exuberante, cumpre na íntegra os pergaminhos do género musical.

Os treze temas que compõem este registo recuperam ideias da gloriosa década de 80 norte-americana e mesclam-nas com o próprio som que a banda nos tem apresentado desde a sua fundação, com algumas influências do metal. A garra que a banda usa na composição de cada tema é de louvar e deve servir de inspiração a todas as bandas do espectro hardcore/metal, pois sem ela, este e outros discos nunca poderiam ver a luz do dia. Your Enemies Are Mine, Stick Tight, Stay Free, Only Death, The Struggle e Keepers of the Faith estão perfeitamente à altura de Overcome, One with the Underdogs, Strike you Down, You Can’t Break Me, Lost, Last of the Die Hards e Never Alone

Superior a The Damned, The Shamed, e com uma produção muito boa, este Keepers of the Faith não só se coloca facilmente no mesmo nível de qualidade dos dois anteriores registos, como também é um disco que daqui a vinte anos ainda será falado, tal como Blood, Sweat and No Tears ainda o é. Mais: na ausência da falta de criatividade e saturação de ideias denotadas nos últimos dois registos de Hatebreed, os Terror podem muito facilmente usurpar-lhes o trono.

8.5/10

quarta-feira, 4 de maio de 2011

SWR Barroselas Metalfest XIV


Em tempos de recessão económica e de grandes cortes num dos bens essenciais de qualquer país que se denomina como “desenvolvido”, a cultura, a pacata vila de Barroselas, localizada no alto-Minho, e a organização do Steel Warriors Rebellion estão mais uma vez de parabéns, pois ofereceram mais um luxuoso cardápio musical e uma excelente alternativa aos bacocos artistas da música ligeira e aos festivais de música comercial que se realizam no sul do país.
 
No fim de Abril e início de Maio chuvosos, a décima quarta edição deste festival de rock pesado tinha como maior atracção os lendários Venom, os britânicos que fundaram o género “black metal”, precisamente com o tema e álbum Black Metal. Apesar deste nome de peso, houve também aqui bandas com grande historial e presença no espectro do rock pesado, como Ratos de Porão, Malevolent Creation, Atheist, Voivod e duas grandes surpresas. Analisando primeiramente as bandas citadas, Venom acabou por ser uma grande desilusão, na medida em que o som que se fazia ouvir no recinto principal deixava bastante a desejar, oscilando entre o fraco e o inaudível (muitos se queixaram dos tímpanos) e tudo isto muito por culpa do próprio técnico de som da banda.  Para a história fica também um início de concerto marcado pelo carismático tema Black Metal e um repertório algo previsível, ou não estivéssemos perante uma banda que denota grande cansaço em palco e que em 2006 lançou um álbum intitulado Metal Black.
 
Ratos de Porão estiveram num patamar completamente diferente, como lhes é habitual. Os brasileiros, ícones do crust/crossover, destilaram temas cantados em português e recordaram os clássicos Crucificados pelo Sistema, Agressão/Repressão, Amazônia Nunca Mais, entre outros, onde houve também tempo para uma “cover” de Extreme Noise Terror, Work for Never, em memória do recém-falecido Phil Vane. Actuação feroz e cáustica, dirigida pelo experiente “frontman” João Gordo, que aproveitou para abordar vários temas da actualidade sócio-política. Os Voivod, que no passado contaram com os serviços de Jason Newsted no baixo, protagonizaram umas das experiências mais divertidas e calorosas do festival. Sem sombra de dúvidas que as coreografias e a interacção com o público por parte do vocalista Denis "Snake" Bélanger não deixaram ninguém indiferente e conseguiu mesmo captar a atenção daqueles que não estavam propriamente atentos ao espectáculo. Destaque ainda para a muito sentida interpretação do tema Astronomy Domine, dos Pink Floyd, em honra do falecido Denis "Piggy" D'Amour, um dos fundadores da banda. O death metal com selo de qualidade da Flórida dos Malevolent Creation merece igual destaque. O quinteto norte-americano brindou o público com uma forte descarga de death metal rápido e um profissionalismo em palco assinalável, isto apesar de algumas falhas técnicas (som, entenda-se). Divide and Conquer, Slaughterhouse, Ten Comandments, e United Hate, claro, fizeram as delícias de todos os aficionados da banda. Os Atheist, que a par de Pestilence e Cynic, marcaram uma era no início nos anos 90 pela forma como fundiram técnicas e estruturas tipicamente jazz com o death metal, deram um potente e tecnicista concerto, mostrando que Jupiter, de 2010, foi bem mais que uma mera tentativa de ganhar dinheiro à custa do glorioso passado.

No entanto, as grandes surpresas do festival pertenceram a Menace Ruine e Today Is the Day. Os primeiros, compostos por um duo, apresentaram logo no primeiro dia um som invulgar, misterioso e audaz, bebendo fortes influências do drone e do noise. Infelizmente para a banda e para o espectáculo, o público preferiu ignorar ou não compreender o que se estava a passar em palco, ou simplesmente aproveitou para regressar às barracas da cerveja e dos cachorros. Para a história fica uma interpretação intimista dos temas Collapse, The Upper Hand; Utterly Destitute, Dismantling, Bonded by Wyrd e Primal Waters Bed. Infelizmente, os Today Is the Day pardeceram do mesmo mal: indiferença e falta de público. Liderados pela mente criativa de Steve Austin - responsável por dar a conhecer ao mundo bandas como Lamb of God -, os Today Is the Day apresentam uma sonoridade que, apesar de ter fortes raízes no noise rock, dificilmente pode ser catalogada, tal é a disparidade de géneros e influências que a banda explora. Temple of the Morning Star, Possession, e Free at Last foram alguns dos temas fortes do final de tarde/noite, que face à quebra de uma corda na guitarra de Austin, ficou sem a presença de Willpower
 
Há que realçar e mencionar também as actuações de Cough, Alcest, Soilent Green e Magrudergrind, que não obstante o facto de praticarem estilos completamente diferentes, contribuíram muito para que o festival fosse bem agradável. Por último, um forte incentivo a todas as bandas portuguesas que marcaram presença neste festival, com especial destaque para We Are the Damned e Grog. Para o ano há mais.

  Cough

 Ratos de Porão

Menace Ruine

domingo, 1 de maio de 2011

«O Wrestler»


Apesar de ter tido um grande desempenho e algum destaque em Sin City - Cidade do Pecado, em 2005, creio que todos davam Mickey Rourke como morto para o cinema, condenado a desempenhar papéis pequenos e secundários para o resto da sua carreira. Eu próprio pensava isso, tendo especial atenção ao facto de que a Rourke não lhe estavam a ser atribuídos papéis principais em bons filmes, e também pelo facto de que tinha participado no pindérico Duplo Team, com Jean-Claude van Damme e Dennis Rodman.

Eis então que Darren Aronofsky (realizador que já nos ofereceu A Vida não É um Sonho (Requiem for a Dream) e – recentemente - Cisne Negro) decide fazer não só o filme da sua vida, como também o da de Rourke, através de um filme onde é utilizada uma balança desnivelada e com um só peso: o drama. Mickey Rourke interpreta o papel de Randy “The Ram” Robinson, um “wrestler” cujo pico da sua carreira se deu há duas décadas atrás, em 1989, num combate épico contra The Ayatollah. Nesses dias, Randy era uma autêntica celebridade.

Como em tudo na vida, a fama é efémera e Randy leva agora uma vida precária como trabalhador num supermercado, contando as notas para poder pagar a renda e as substâncias dopantes que lhe permitem, por umas horas nos fins-de-semana, ser o que foi no passado: um “wrestler”. É notória a satisfação na cara de Randy sempre que este sobe ao ringue e enfrenta outros lutadores, enquanto lhes aplica os seus truques e habilidades especiais. No entanto, e apesar de todos os combates serem previamente encenados, todos os lutadores se magoam propositadamente de forma brutal em nome do espectáculo. Randy não existe: a felicidade chega apenas na pele de “The Ram”.

No entanto, e para gáudio da nossa personagem principal, a sua vida pessoal sofre uma ligeira alteração quando numa visita a uma casa de “strip tease”, conhece a bela Cassidy (Marissa Tomei). À medida que ambos se conhecem, Cassidy incentiva Randy a visitar a sua filha Stephanie (Evan Rachel Wood) e retomar uma relação de pai-filha que há muito estava disfuncional e sem comunicação entre ambos. Aronofsky capta na perfeição a situação tensa que existe entre um pai que abandonou a sua filha e que agora, passados muitos anos, a tenta recuperar. Os momentos mais alegres do filme dão-se precisamente nas cenas em que ambos passam juntos, recuperando o passado e tentando emendar o presente e o futuro.

A situação de Randy agrava-se quando no final de um combate, este tem um ataque cardíaco, ficando em risco de vida e expressamente proibido combater. Mesmo assim, o amor à modalidade é tal que dias após a cirurgia, o nosso lutador regressa ao ginásio e às corridas nas pacatas florestas de New Jersey. A solidão, o desespero e a precariedade da vida de Rourke são expostas de uma forma crua e dolorosa para os olhos.

Não obstante os problemas de saúde e as boas relações com Cassidy e Stephanie, é-lhe comunicada a oportunidade de reeditar o famoso combate de 1989 com The Ayatollah. Se aceitar, pode morrer. Se rejeitar, viverá para sempre miserável, pois o "wrestling" e "The Ram" são tudo na sua vida. O Wrestler explora os aspectos da solidão e desespero humano e tudo aquilo que conseguimos eventualmente encontrar dentro de nós para dar a volta a essa fatalidade. A cena final é das mais emotivas e mais belas a que tive a oportunidade de assistir num filme que já revi mais que uma vez e que hei-de continuar a fazê-lo. Obrigado, Mickey Rourke. 

Título original: The Wrestler.
Realizado por Darren Aronofsky. Escrito por Robert D. Siegel.
Produzido por Wild Bunch, Protozoa Pictures, Saturn Films e Top Rope.

sábado, 23 de abril de 2011

George Orwell «Animal Farm»

 
Escrito durante a Segunda Guerra Mundial, no período em que Stalin rompe a aliança de paz com Hitler e passa a colaborar com o Reino Unido, Animal Farm (em português O Triunfo dos Porcos) baseia-se na experiência pessoal de George Orwell enquanto combatente na Guerra Civil de Espanha e o seu olhar sobre o regime stalinista e as suas manobras. Apesar de não ter visitado a União Soviética, Orwell conheceu em primeira mão o fascismo franquista e a tentativa da implementação do comunismo marxista em Espanha, que visava um mesmo sistema totalitário.

Publicado pela primeira vez em Agosto de 1945, sensivelmente um mês antes do término da guerra, esta fábula sarcástica centra-se no período da História russa, desde a revolução bolchevique de 1917 até 1945. Para isso, Orwell criou uma vulgar quinta onde os homens mandam e os animais trabalham em regime de exploração, tal como o panorama actual, sem tirar nem pôr. Nesta quinta os animais falam entre si reúnem-se para discutir o sistema de classes em vigor na quinta onde trabalham arduamente. Para derrubar o Sr. Jones (Czar), o javali Old Major (Karl Marx) propõe uma coligação entre todos os animais para instaurarem um sistema de governo que tornará todos os animais iguais entre si e independentes dos humanos.

Uma vez aceite o repto do Major, os animais enchem-se de coragem e força e conseguem expulsar os humanos da quinta, instaurando a filosofia do “Animalismo” e os seus mandamentos: 1º- Tudo o que anda sobre dois pés é inimigo; 2º- Tudo o que anda sobre quatro pés, ou asas, é amigo; 3º- Nenhum animal usará roupas; 4º- Nenhum animal dormirá numa cama; 5º Nenhum animal beberá álcool; 6º- Nenhum animal matará outro animal; 7º- Todos os animais são iguais. A partir daqui, são-nos apresentadas sucessivas tentativas de cooperação entre todos os animais, contudo há animais mais espertos e com grande grau a nível de discurso retórico e verosímil que aproveitam para se tornarem líderes.

Os porcos Snowball (Trotsky), Napoleon (Stalin) e Squealer (Molotov) vão-se aproveitando da classe operária, representada pelo cavalo Boxer, para criarem hábitos que outrora pertenceram aos humanos. A juntar a isto, os porcos conseguem alterar progressivamente o Animalismo até que conseguem criar apenas um mandamento universal: Todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais do que outros. É essencialmente sobre este mandamento que Orwell explora a hipocrisia da ditadura do proletariado e a tentativa utópica de uma sociedade comunista sem classes.

Tal como no seu romance prévio Nineteen Eighty-Four, o autor explora com olho de falcão os ideais e a ascensão do regime comunista russo e compara as suas similaridades com os demais regime fascistas. Animal Farm é uma fábula de leitura obrigatória e um dos livros mais importantes do séc. XX.

Nota: esta crítica foi baseada na leitura da obra no seu idioma original, o inglês.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Douglas Coupland «Generation A»


Foi preciso esperar dezoito anos para ter nas mãos aquele que pode ser interpretado como o sucessor de Generation X, de 1991. Douglas Coupland é um dos autores canadianos mais irreverentes das duas últimas décadas e uma das vozes que mais contesta a globalização e a alienação social provocada pela tecnologia e pelos media, tal como Bret Easton Ellis ou Chuck Palahniuk.

Generation X: Tales for an Accelerated Culture, o primeiro romance da sua carreira, teceu críticas cáusticas e mordazes à geração que vivia apenas o momento e o que a tecnologia oferecia, uma geração que basicamente seguia religiosamente o “hype” consumista que os media facilmente lhes impingiam. No lado oposto a essa geração está a geração X de Coupland, dos anos 60; um grupo de pessoas que gostam de pensar por si mesmas e de se revoltar contra a cultura pop. Estranhamente, o autor decidiu que o termo “geração X” já não tinha razão de existir, poucos anos após a publicação do romance. De qualquer das formas, convém ressalvar que Coupland sempre se distanciou de ser a voz dessa geração.

Este Generation A foca-se essencialmente no actual estado da tecnologia e dos media, nomeadamente nos no impacto que ambos estão a ter na sociedade, especialmente entre os mais jovens – oficialmente, não estamos perante uma sequela, nem temos personagens anteriores aqui presentes. A narrativa apresenta-se fragmentada e é contada a partir do ponto de vista de cinto personagens separadas geograficamente: Harj Vetharanayan, Sri Lanka; Zack Lammle, Iowa, E.U.A; Samantha Tolliver, Nova Zelândia; Diana Beaton, Canadá e Julien Picard, França. O mundo destas cinco personagens é dominado por uma droga chamada Solon que se caracteriza por libertar o stress, relaxamento e desinteresse em relação ao futuro. O outro aspecto importante do livro é as abelhas, que são uma espécie rara, até ao dia em que os cinco indivíduos são picados por abelhas e transportados para uma ilha no Canadá para serem observados e estudados.

Os nossos narradores são idolatrados pela população mundial e estudados pelo grupo dos cientistas pelo facto de terem sido picados pelas abelhas, pois são encarados como factores de esperança num mundo onde determinados itens de alimentação passaram a luxo, devido à falta de abelhas. Cada personagem tem o seu momento de fama, seguido e transmitido em directo pela internet, mas são as estórias que eles contam quando se encontram juntos que metaforicamente criticam a actual dependência das ferramentas online, da padronização IKEA, do Google, da Apple, da Wikipedia e de outras entidades semelhantes. Cada capítulo é narrado, salvo raras excepções, por Harj, Zack, Samantha, Julien e Diana, e cada personagem tem a sua forma cómica de criticar o mundo. Sem embargo, Julien e Zack são as personagens que aparecem inicialmente inseridas no mundo alienado, especialmente Julien que vivia os dias a jogar World of Warcraft.

Generation A tem momentos deliciosos na forma como critica o consumismo e os americanos. Harj, por exemplo, não só é a personagem mais directa e conscienciosa do romance, como também é aquela que mais critica os americanos. Ao contrário de Palahniuk e Easton Ellis, Coupland consegue inserir aqui o referido factor de esperança para o mundo, tornando-o num autor mais positivista, sem que no entanto se coíba de escrever sobre ambientes e temáticas problemáticas e desagradáveis.

Nota: esta crítica foi baseada na leitura da obra no seu idioma original, o inglês.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Comeback Kid «Wake the Dead»


Recuando no tempo aproximadamente três décadas, Milo Goes to College e I Don't Want to Grow Up foram os dois melhores e mais influentes discos de hardcore punk melódico editados na década de 80 pelos The Descendents. Tinham a garra dos Black Flag, as músicas rápidas dos Minor Threat e a melodia pop digna dos grandes Ramones. 

Com o passar do tempo, o hardcore melódico esmoreceu um pouco e a aplicação do próprio termo passou a englobar bandas tão díspares como AFI, 30 Seconds to Mars, Poison the Well ou Comeback Kid. Estes últimos (sem qualquer tipo de desprimor pelos Poison the Well) carregam o legado dos dois álbuns referidos dos The Descendents e sabem aproveitar aquela classe única dos Gorilla Biscuits na mistura de alguns "riffs" típicos de metal com “breakdowns” e “sing-alongs” de Start Today

O excelente “debut” Turn it Around colocou a banda de Winnipeg, Canadá, no mapa e roteiro obrigatório da música hardcore. Graças ao sucesso do álbum, a banda foi convidada a assinar pela editora Victory Records (Carnifex, A Day to Remember, Integrity, Emmure, Between the Buried and Me, etc) que ainda no ano passado lançou Symptom + Cures. Wake the Dead é dos melhores trabalhos editados nos últimos anos de hardcore, seja ele de que subgénero for. As melhores malhas que a banda escreveu estão, na minha opinião, incluídas neste belo registo, avassalador do primeiro ao último segundo. Há aqui temas que ficam no ouvido logo à primeira audição, sem tirar nem pôr. O processo de composição e estrutura dos temas é simples e funciona na perfeição, acrescentando-lhe um certo aroma FM, devido às letras de fácil memorização e positivismo, ao grande (des)empenho do vocalista Scott Wade e aos coros de fundo que se fazem ouvir ao longo de vinte e seis minutos. 

O tema que dá título ao álbum é dos mais fortes e orelhudos do disco: contagiante, rápido (nota máxima para o trabalho do baterista Kyle Profeta), “breakdown” curto e discreto (excelente para o “slam dance”), e “sing-alongs” excelentes. Resumidamente, esta é a estrutura presente em todos os temas de Wake the Dead, de onde vale a pena destacar ainda os clássicos Partners in Crime, Our Distance (com participação de Russ Rankin, dos extintos Good Riddance) e Final Goodbye.

A juntar ao talento dos músicos e qualidade das canções, há que juntar e salientar a produção irrepreensível levada a cabo por Bill Stevenson (baterista dos… The Descendents). Composto por onze temas, este disco é um autêntico vício para os ouvidos.

8.5/10

domingo, 17 de abril de 2011

Walls of Jericho «The American Dream»


Cheguei a questionar-me sobre o futuro da banda após a gravação do EP Redemption e das suas cinco baladas, para além do facto de ter ser sido um registo produzido por Corey Taylor. A grande questão era se a direcção musical da banda iria apostar numa toada mais ao jeito de Evanescence com hardcore relegado para segundo plano, em tons de camuflagem.

A resposta chegou uns meses mais tarde, ainda no mesmo ano (2008), com este The American Dream. O longa-duração anterior With Devils Amongst Us All já se distanciava dos trabalhos mais hardcore da banda e aproximava-se mais de um som mais metálico, vincadamente mais thrash metal e com muito groove. A banda voltou a pegar nesse aspecto e a trabalhá-lo ainda mais, apostando mais no referido thrash metal e misturando-o com as suas raízes hardcore punk, tal como muitos grupos na actualidade vão fazendo (Bury Your Dead, Throwdown, Municipal Waste, Hatebreed) e outros no passado já fizeram – Suicidal Tendencies serão sempre a grande referência do crossover.

O disco está recheado de temas fortes e bastante intensos, com bons pormenores musicais; no entanto, é notório que a aposta vincadamente mais metal retira parte da alma da banda e do seu habitat natural. Os “riffs” que as guitarras debitam repartem-se em momentos excelentes de grande fulgor (The Prey, Famous Last Words), bem ao estilo da Bay Area, e em momentos de redundância que quebram demasiado o ritmo, caindo com alguma frequência num vazio de “breakdowns” (Feeding Frenzy, The Hunter). As letras do álbum revelam-se interventivas e abordam as habituais temáticas da perseverança, luta até ao fim e esperança. Nada de novo ou inovador neste departamento, portanto, e é isto mesmo que se espera ouvir num disco de hardcore.

O disco não tem necessariamente músicas más, bem pelo contrário, todas elas são interessantes a nível geral, porém o tema A Long Walk Home perde muito em comparação com os restantes e poderia muito bem ter ficado de fora do disco. No entanto, e isto é um dos pontos claramente negativos do registo, há uma notória ausência de coros, melodia e aquele “sing-along” contagiante de Revival Never Goes out of Style que os Walls of Jericho sempre souberam dominar com mestria e uma identidade muito própria.

The American Dream marcou uma clara aposta numa aproximação demasiado perigosa ao thrash metal, aposta essa que lhes custou uma perda algo significativa de identidade e de elo de ligação com o passado. A produção é outro dos aspectos que deixa a desejar, nomeadamente ao nível de guitarras e voz. Não houve colagem a Evanescence, mas houve demasiado peso e distorção para uma banda que vive claramente da boa música hardcore a que nos habituou.

6.5/10