sábado, 2 de julho de 2011

Irvine Welsh «Lixo»


Ler faz bem e estimula os sentidos. Ver um filme é interessante, mas nada nos tira aquela sensação de sermos o próprio realizador daquilo que estamos a ler, e se todos comparássemos os frames que desenhamos no nosso cérebro, teríamos muitas películas com os mesmos personagens, sim, mas diferentes em muitos aspectos. Lixo, publicado em 1998, já depois do sucesso e fama de Trainspotting, está neste momento em pré-produção e estima-se que veja a luz do dia no próximo ano pelas mãos de Jon S. Baird.

Irvine Welsh, diga-se o que se quiser, é o mais brilhante romancista a emergir na Escócia das últimas décadas. Esta obra foi a primeira que li dele, uma leitura efectuada num dia que me causou um grande sentimento de estupefacção e tristeza – não porque o final me tenha feito chorar, longe disso, mas porque queria mais; queria que o livro não acabasse, que no mínimo tivesse o dobro das páginas. Caso fosse o tradutor, não teria optado pela escolha de Lixo para título. Não, teria escolhido uma tradução mais literal, e Filth chamar-se-ia Nojo: poucos são os livros cujos títulos sugerem uma relação directa entre os mesmos e as imagens que obtemos da sua leitura. Este é um deles.

Na pele do sargento detective Bruce Robertson, Welsh explora não só a corrupção do sistema policial da Escócia e os abusos que os agentes fardados cometem, mas também toda a subcultura hooligan do futebol de Leith, Edimburgo, e as diferenças entre os estratos sociais (tema recorrente em muitos dos seus romances). Robertson é viciado em droga, sexo “hardcore”, pornografia, prostituição, extorsão, chantagem, “fast food”, adultério, e racismo; é este mesmo sargento detective que tem que resolver o brutal assassinato de um jornalista negro. Em vez disso, a personagem diverte-se a abusar de raparigas menores, a fornicar as colegas de trabalho e as esposas dos colegas de trabalho e a apreender droga para consumo próprio, claro. Este crime vem pôr em risco as férias em Amesterdão que o sargento detective já comprou, porém, um bom polícia arranja sempre forma de contornar a lei e de ir visitar o Red Light District na companhia de um amigo que Robertson faz questão de vigarizar.

Nas primeiras páginas do romance é-nos apresentada uma lombriga que habita e consome os interiores de Robertson. Ela mesma se apresenta a si própria em diálogos que mantém com o leitor e com o anfitrião, interrompendo-o sempre que pode sem lhe dar notícia de que está dentro dele. Infelizmente para Robertson, os seus hábitos alimentares não são os melhores e muitos menos os cuidados higiénicos, daí que já tenha contraído uma boa urticária genital; não obstante a doença, a personagem gosta de comer fritos com uma boa dose de gordura e logo de seguida coçar os genitais, entre outras coisas que desafiam a lei da higiene mínima.

A forte carga brutal e chocante que marca o romance coloca para segundo plano a investigação do jornalista, dando antes espaço à exploração das ruas sujas e perigosas de Leith e à falta de escrúpulos de Robertson - um homem que durante a infância e adolescência passou por um mau bocado, sendo esse aspecto bem explorado durante uma parte do romance. Lixo, que se cruza com personagens de Trainspotting, mais que um livro, é um vício para os olhos.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Monica Drake «Clown Girl»


Monica Drake é mais uma autora que conheci graças a Chuck Palahniuk, o qual elegeu Clown Girl o melhor romance de 2007 e apadrinhou este livro com uma introdução e rasgados elogios. A autora natural do estado de Michigan vive em Portland, Oregon, e escreve regularmente para o The Oregonian, The Stranger, e o Portland Mercury. É vista por Palahniuk como uma “arqui-inimiga” da literatura, no bom sentido, claro.

O romance de estreia desta autora foca-se na integridade e na descoberta dos valores intrínsecos que todos nós possuímos, valores esses que por vezes estão escondidos e nunca descobertos devida a pressões de ordem social. Na fictícia cidade de Baloneytown (“baloney” aqui não é um tipo de carne. “Idiotice” ou “falsidade” perfilam-se como os termo mais correctos) habita uma Nita, uma rapariga que vive a sua vida como um palhaço profissional com o nome artístico de “Sniffles”. Nita vive de pequenos espectáculos – biscates, na maioria – que mal servem para lhe pagar a renda da casa que partilha com Herman, um vendedor de droga. Além disso, e porque ama o seu namorado, Rex Galore, Nita junta todos os dólares para lhe financiar os estudos numa escola de palhaços em São Francisco.

Ao constatar que os espectáculos que lhe oferecem não chegam para pagar as despesas, a nossa personagem principal entra em espiral descendente, vende-se ao corporativismo e é-lhe feita uma oferta para servir de palhaço prostituta. Monica Drake baseou-se na sua experiência pessoal enquanto palhaço profissional que se vendia ao corporativismo até ao dia em que decidiu pôr um travão na perda de integridade profissional e abandonou as inaugurações de restaurantes “fast food”. Tal como Monica, Nita acredita na integridade artística da vida dos palhaços, no entanto, a sua vida piora a cada momento e é Jerrod, um polícia, que a livra de sarilhos maiores e que ao mesmo tempo serve de equilíbrio na sua vida. 

Nita tem uma capacidade única para utilizar aquela linguagem tipicamente optimista dos palhaços para descrever as amarguras que lhe vão sucedendo, uma atrás da outra, nomeadamente a perda dos pais e do bebé, o ataque cardíaco e os acidentes do ofício, recorrendo frequentemente também ao humor de Charlie Chaplin e W.C. Fields. Na derradeira tentativa de recuperar a dignidade artística, “Sniffles” desenvolve um número artístico baseado em Leonardo da Vinci e na Metamorfose de Franz Kafka; Nita quer representar a transformação de Gregor Samsa em insecto, a sua própria metáfora para o que acontece na sua vida enquanto ser humano.

Clown Girl é uma obra de elevado nível que ganha gera emoções fortes através do sorriso e humor que Nita usa para contornar as catástrofes pessoais que deixariam qualquer um de nós de rastos. O romance é, nas entrelinhas, a esperança da fuga e sobrevivência à pressão social e queda do ser humano sobre o qual Kafka brilhante e traumaticamente se debruçou.

Nota: esta crítica foi baseada na leitura da obra no seu idioma original, o inglês.

domingo, 26 de junho de 2011

«Adventureland»


O título é bem capaz de nos levar a pensar num filme de animação da Disney ou algo assim do género, a capa pode iludir-nos com mais uma comédia de indivíduos de 30 anos que se fazem passar por adolescentes de 16 que tentam desesperadamente perder a virgindade. Mas não, este filme não tem nada a ver com as duas suposições atrás referidas.

Adventureland passa-se no Verão do saudoso ano de 1987 (aquele em que os Whitesnake editaram aquela pérola com o nome homónimo) num parque de diversão onde vários jovens trabalham e desenvolvem grandes relações de amizade. Greg Mottola, que também realizou Super Baldas, arranjou um elenco de jovens actores com grande potencial e com eles conseguiu criar personagens capazes de estabelecer uma grande empatia com o espectador, não obstante termos aqui uma estrela do cinema hiper mainstream. Kristen Stewart, famosa pela sua participação na saga infantil/juvenil Twilight, dá-nos provas de que nem todo o actor de Hollywood se limita a fazer filmes em vez de Cinema – aliás, ela já tinha mostrado que era boa actriz em O Lado Selvagem.

James Brennan (Jesse Eisenberg) terminou o liceu e ambiciona passar férias na Europa para depois entrar numa prestigiada universidade de Nova Iorque. No entanto, e para grande desilusão, os seus pais não têm como financiar a viagem ou os estudos, obrigando a que o filho encontre um emprego para ajudar com as despesas que uma universidade acarreta. O desejado emprego revela-se uma segunda casa para James: Parque Adventureland; nesta zona recreativa encontram-se a trabalhar, entre outros, Em Lewin (Kristen Stewart) e Joel (Martin Starr). Ninguém gosta propriamente de trabalhar no parque, mas Adventureland tem algo que os aproxima a todos, algo que os torna numa segunda família capaz de discutir e superar as amarguras da vida. Esta segunda casa alberga grandes momentos e representações dramáticas alternadas com alguns momentos de bom humor.

O que mais sobressai em Adventureland é a escolha por não se focar nos estereótipos e modas da década de 80 e fazer disso alvo de chacota, como vemos variadíssimas vezes nos cinemas. A realização soube recriar na íntegra aquela década e todo o movimento social e musical sem perder tempo com explorações fúteis de humor balofo. O essencial deste filme recai na seriedade da nostalgia e do drama, e naqueles momentos que despertam o amor entre James e Em. Mottola apostou (e bem) em não se alongar muito na relação familiar de Em, mostrando-nos apenas o dinheiro que abunda na casa dos Lewin não compra a felicidade. 

Adventureland é um drama sensível e inteligente que se afasta dos clichés habituais do pobre cinema da actualidade (“cinema” com letra muito pequenina, por favor) quando este decide invadir e ridicularizar um espaço temporal do passado (saudoso). Senhoras e senhoras, uma ovação para o trabalho do realizador e actores, por favor.

Realização: Greg Mottola
Argumento: Greg Mottola
Produção: Miramax Films, Sidney Kimmel Entertainment, This Is That Productions

quinta-feira, 23 de junho de 2011

José Cardoso Pires «Histórias de Amor»


Editado em 2008 pelo seu amigo Nelson de Matos, Histórias de Amor foi o segundo livro que José Cardoso Pires escreveu, tendo sido publicado em Julho de 1952 pela Editorial Gleba, incluído numa colecção de livros de bolso intitulada Os Livros das Três Abelhas, colecção essa dirigida por Victor Palla e Aurélio Cruz. Em Agosto do mesmo ano, a Censura apreendeu e retirou do mercado o livro, por considerar que o livro era ofensivo e subversivo, chocando com os bons valores nacionais da época.

Vendo o seu livro confiscado e censurado a azul, José Cardoso Pires entrou em contacto com os donos do famoso lápis a fim de reaver o seu livro para o poder publicar novamente. O melhor que conseguiu foi, e com sorte, reaver o manuscrito com as devidas marcas e notas que os superiores da censura tomaram a liberdade de assinalar. Apesar de os contos terem sido reescritos e editados posteriormente em Jogos de Azar, o conto Romance com Data nunca foi reeditado. Felizmente para a literatura portuguesa, a família do José Cardoso Pires entregou o livro recuperado à Biblioteca Nacional, editado há cerca de três anos pelas Edições Nelson de Matos. 

Esta luxuosa edição contém os contos Week-end, Uma Simples Flor nos Teus Cabelos Claros, Ritual dos Pequenos Vampiros, Dom Quixote, As Velhas Viúvas e a Rapariga dos Fósforos, o já citado Romance com Data, a carta que o autor escreveu aos Serviços de Censura e algumas críticas da época de Mário Dionísio, Luís de Sousa Rebelo e Óscar Lopes. Todas as frases e expressões que o Estado Novo censurou apresentam-se aqui marcadas a negro, algumas surrealmente caricatas, tais como “lábios”, “corpo”, “catano”, “filho da mãe”, “dor de corno” ou “Estava quase ajoelhada sobre o rapaz, a apontar as marcas que o baton deixaram no peito e no travesseiro”.

De todos os contos, gostaria de destacar o rigor e imaginação de Ritual dos Pequenos Vampiros, e a escrita, o domínio da simbologia e a capacidade de avançar e recuar no tempo da narrativa sem perder o rumo dos acontecimentos de Dom Quixote, As Velhas Viúvas e a Rapariga dos Fósforos - o conto mais interessante deste livro. Em suma, Histórias de Amor é um documento essencial na obra do autor.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Blake Nelson «Destroy All Cars»


À partida, o nome Blake Nelson dificilmente lhe soará familiar, mas se lhe disser que é um escritor que conta já com dois romances adaptados ao cinema, talvez até, quem sabe, já ouviu falar dele. Girl e Paranoid Park foram levados até à sétima arte pelas mãos de Jonathan Kahn e Gus van Sannt, com distintos sucessos. O primeiro passou despercebido, ao passo que Paranoid Park atingiu o patamar de culto indie, premiado pela Independent Spirit Award, Boston Society of Film Critics e Festival de Cannes, entre outros.

Blake Nelson gosta de escrever sobre adolescentes e os seus problemas, muitas das vezes escreve para adolescentes, isto apesar de os seus romances serem lidos por adultos, não estando limitados por qualquer barreira menores de 18, ou vice-versa. Destroy All Cars é um manifesto anti-consumista, capitalista e americano que o jovem James Hoff, de 17 anos, anda a escrever. James é um típico adolescente revoltado contra o sistema e contra todos os clichés e kitschs dos outros miúdos da sua idade e os seus respectivos pais. Segundo James, todos os miúdos vivem num sonho, são mimados, idiotas e vivem de acordo com aquilo que as lojas impõem. 

Ao contrário dos seus amigos, ele gosta de usar roupas velhas e desgastadas (chega a cortar os cotovelos das camisolas), não ostentando o visual Vans/Nike que o rodeia e tanto o enerva. Todos vamos morrer pelo que andamos a fazer ao meio ambiente e a vida não tem muito sentido. O que mais revolta a nossa personagem principal são, essencialmente, os carros que tanto combustível consomem em excesso, que emitem gases nocivos e, acima de tudo, porque são conduzidos por “AMERICANOS CONSUMISTAS” que precisam de SUVs para ir aos shoppings fazer compras de artigos que nunca vão usar. No lado oposto temos Sadie, a ex-namorada optimista e dedicada às causas da mãe natureza e dos mais desfavorecidos que tanto irrita o jovem Hoff. 

Durante o livro, e intercalando com as observações críticas e jocosas, James vai fazendo trabalhos de casa para um professor sobre o que o apoquenta e que tanto niilismo lhe causa. É nestes ensaios e manifestos que o nosso jovem escreve de forma descuidada e tipicamente adolescente revoltado sobre factos que realmente dão que pensar que mais interesse despertou em mim. A forma como as ideias são expostas e a ausência de justificações para as mesmas, a juntar à relação com o professor, são talvez o ponto mais forte e divertido da obra.

Destroy All Cars ganha muito pela forma descontraída e humorística que Blake Nelson encontra para expor problemas que deviam preocupar não só aos adolescentes, todavia também aos adultos. A todos nós. A ironia e o sarcasmo presentes no romance são inteligentes e provocam boas gargalhadas e boa disposição, aquilo que muitas vezes falta a livros ditos “grandes” e “imperdíveis”.

Nota: esta crítica foi baseada na leitura da obra no seu idioma original, o inglês.

sábado, 18 de junho de 2011

José Saramago «As Pequenas Memórias»


Faz hoje, dia 18 de Junho, um ano que um dos homens do povo e um dos que mais contribuiu para o reconhecimento da literatura portuguesa além fronteiras faleceu. Foi com imensa tristeza envolta em choque que recebi a notícia de que José de Sousa tinha falecido, vítima de leucemia crónica, na ilha de Lanzarote na nossa vizinha Espanha. Foi difícil aceitar a morte de um escritor e contador de estórias que tão bons momentos me proporcionou, um indivíduo cujas ideias políticas sempre geraram mais inimigos e ataques que propriamente consenso.

Neste manuscrito pequenino autobiográfico, José explica aspectos caricatos da sua vida, a começar pelo seu nascimento e nome. De facto, José de Sousa passou a chamar-se José de Sousa Saramago porque no Registo Civil decidiram acrescentar o nome pelo qual a família era conhecida, neste caso “Saramago”. Não foi, no entanto, apenas com o seu nome que Saramago teve peripécias: a sua data de nascimento também foi alterada. Oficialmente, referimo-nos a José Saramago como uma pessoa que nasceu no dia 18 de Junho de 1922, porém, nasceu mesmo dois dias antes, no dia 16 na pequena aldeia da Azinhaga, no Ribatejo; mas, e para evitar sofrer uma penalização pela não declaração do nascimento do bebé dentro do seu devido prazo, os pais José de Sousa Maria da Piedade recorreram à alteração da data.

Oriundo de uma família de camponeses pobres, Saramago cedo se mudou para Lisboa para estudar e trabalhar numa época difícil, marcada pelas grandes guerras. É precisamente a narração da infância, a forma como sentia enorme aproximação à Azinhaga e o muito carinho pelos seus avós e seus progenitores que marcam especialmente esta autobiografia. Como seria de esperar, o livro afasta-se totalmente da carga política e crítica social dos seus romances; as cento e quarenta e nove páginas d’As Pequenas Memórias são um documento para melhor conhecermos aquele que foi, até hoje, o único vencedor do Prémio Nobel da Literatura. O romancista que Sousa Lara impediu de concorrer ao Prémio Literário Europeu por não representar os valores morais e religiosos dos portugueses; aquele por quem hoje se come bolo-rei com fartura para os lados de Belém.

José Saramago deixou-nos e a vida segue, isso é certo. Não devemos ignorar a sua obra, o contributo para ao desenvolvimento cultural e literário português e a criação da Frente Nacional para a Defesa da Cultura. Obrigado, amigo José de Sousa “Saramago”.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

«Exterminador Implacável - A Salvação»


Gostei e aceitei da Ascensão das Máquinas. Apesar de achar que a saga estava muito bem entregue às duas obras-primas de James Cameron, o terceiro filme ainda fez algum sentido pois Arnold Schwarzenegger estava lá, era o exterminador bonzinho e tinha sido enviado para proteger não só John Connor, como também a sua futura esposa, Katherine Brewster. Foi muito por aqui, pela exploração da relação entre John e Katherine, que o filme me agradou, não obstante alguma falta de caracterização dos mesmos ou a falta de impacto e carisma da T-X. O dia do julgamento final era inevitável e em 1997 tinha sido apenas adiado. Por outro lado, e mantendo-nos fiéis à narrativa de Exterminador Implacável 2: O Dia do Julgamento, os Connors destruíram a Cyberdine e impediram que a Skynet tomasse controlo sobre a raça humana.

Como em tudo na vida, temos que aceitar que tudo tem um fim e que não vale a pena tentar encarnar no papel de deuses. Muitos tentaram e falharam e os exemplos são mais que muitos: Hellraiser, Sexta-feira 13, Halloween, Pesadelo em Elm Street, Indiana Jones, A Guerra das Estrelas, etc, etc, etc; pior que isso, só mesmo quando pegam nas grandes sagas de vídeo jogos ou desenhos animados e adaptam ao cinema. Quem não chorou o seu dinheiro, quem não entrou em coma com o dilapidar do bom nome de Resident Evil ou de Transformers? Para denegrir ainda mais a imagem e me enfiarem num hospital em estado de coma, os zombies e Optimus Prime vão ter mais sequelas.

A questão essencial deste texto prende-se com a falta de necessidade de explorar mais a franchise das máquinas. Se gostar de grandes explosões, muitos tiros, actores que passam o dia no ginásio e actrizes que fazem a vida nas passerelles e não se preocupar com o elo de ligação ao primeiro e segundo filme, este é pode eventualmente ostentar o nome que usa: Salvação. Por outro lado, quem segue religiosamente uma das maiores sagas sci-fi de todos os tempos e espera respeito e dedicação por parte de quem lhe dá mais vida, considerará isto um verdadeiro enterro. O facto de terem entregue Salvation a um realizador que até hoje fez carreira na produção de séries para adolescentes (O.C. - Na Terra Dos Ricos, Supernatural) espelha bem a pobreza que assola a vida de John Connor e a Resistência. McG - Joseph McGinty Nichol – pega na premissa do holocausto do futuro que Cameron tinha idealizado há 27 anos e decide criar um campo de batalha para o Homem e para as Máquinas misturado com a exploração dos sentimentos de Marcus Wright, o novo Exterminador (o que está do lado dos humanos).

De facto, e por mais estranho que possa parecer, o filme gira em torno de Marcus Wright em vez de John e Katherine Connor, aqueles que iriam comandar a luta contra a Skynet. Christian Bale, o fantástico actor que interpreta John, incentiva os seus bravos soldados com uns berros aqui e ali atira um “I’ll be back”; Katherine… bem quase não se dá pela sua presença. Marcus Wright (Sam Worthington) tem os músculos de Schwarzenegger mas não cria o mínimo de empatia com o público. Porquê? Porque as suas acções são previsíveis, porque McG e a sua equipa foram incapazes de trabalhar o seu carisma e diálogos e, por último, Worthington é um mau actor.

O desenvolvimento da estória é mau, muito mau, assim como o das personagens que parecem feitas de plástico, desprovidas de talento (que tanto tentam disfarçar com os seus músculos e curvas) e que parecem representar como um jornalista a ler o teleponto. Não existe aqui uma Linda Hamilton, um Schwarzenegger, um Michael Biehn ou um Edward Furlong. Nada, apenas frases desconexas, explosões, marketing e o nome da saga. Nem mesmo aquele breve momento onde se ouve Rooster dos Alice in Chains consegue salvar esta parca película direccionada a adolescentes.

Título original: Terminator: Salvation 
Realização: McG
Argumento: John D. Brancato, Michael Ferris
Produção: Halcyon Company, Wonderland Sound and Vision