segunda-feira, 22 de agosto de 2011

The End «Elementary»


Depois do caos do EP Transfer Trachea Reverberations from Point: False Omniscient e do álbum de estreia Within Dividia que se inserem na categoria mathcore, o melhor mesmo que estes canadianos teriam para oferecer dar-se-ia pelo nome de Elementary, em 2007. E que oferta…

Aquilo que os Dillinger Escape Plan, Converge, Nostromo, The Number Twelve Looks Like You ou até mesmo os Daughters na fase Canada Songs andavam a fazer, certamente que ajudou a criar o estilo musical mencionado no primeiro parágrafo: batida grindcore, grandes doses de noise, ritmos dissonantes e, screamocore nalguns casos, Fantômas noutras. No entanto, apenas as grandes bandas sabem se transcender em detrimento da rotina. Elementary exibe um grupo de jovens músicos que souberam guardar as qualidades técnico-musicais dos primeiros lançamentos, combinadas com um som menos frenético e exibicionista e uma franca enorme costela roqueira.

A primeira grande mudança facilmente constatável em relação ao registo prévio dá-se na forma de cantar de Aaron Wolfe; arranha as cordas vocais em vários momentos, mas os mais intensos e mais belos são quando esplendorosamente deita cá para fora uma voz limpa, suave e nasalada, ao bom estilo de um Tommy Giles Rogers (Between the Buried and Me), Jeffrey Moreira (Poison the Well) ou até mesmo um Chino Moreno (Deftones) naquele monumento intitulado White Pony. Animals ainda ameaça um regresso aos tempos em que a banda soava um pouco a Calculating Infinity, este mesmo tema desagoa nas melodias vocais e instrumentais que compõem o esqueleto do disco. Dangerous, a primeira faixa, choca com o mathcore e aproxima a banda de um tipo de rock tecnicista que muitos designam por math… rock e riffs bem mais do género metal progressivo que não abundavam em Within Dividia, soando também um bocado a Tool em determinados aspectos. A bateria de Anthony Salajko não só ficou muito bem gravada e produzida, como igualmente se aproxima daquele estilo peculiar e preciso que Danny Carey emprega em todos os álbuns.

Em Elementary tudo está longe de ser elementar. As letras são belas e todos os temas, ainda que obedecendo a uma estrutura que assenta numa toada lenta - alcança mesmo o pop/rock indie (The Moth and I) – mostram um sentimento invulgar nas vocalizações que podem induzir o ouvinte em erro no que ao instrumental diz respeito: o “problema” maior mesmo prende-se com a caixa torácica de Wolfe que ofusca os pormenores técnicos dos companheiros (In Distress, My Abyss). No meio de tanto tema de grande calibre, sugiro The Never Aftermath, Awake? e os nove minutos acústicos de And Always…

9/10

sábado, 13 de agosto de 2011

Death «The Sound of Perseverance»


Para quem não sabe quem Chuck Schuldiner foi, fiquem a saber que era o tipo com um talento fenomenal para tocar guitarra e com uma voz ímpar que dava concertos de sandálias nos pés. A juntar a isto, criou uma das bandas com mais sucesso comercial (que se pode obter no dentro do death metal) sem comprometer a integridade pessoal e musical, ao longo de vários discos na companhia de músicos dinâmicos que ia trocando um pouco ao jeito de Yngwie Malmsteen.

Spiritual Healing (1990) acaba, de certa forma, por encerrar um capítulo na ainda curta vida dos Death (deram-se a conhecer pelo nome de “Mantas”): a passagem do death metal mais primordial – sem qualquer tipo de adjectivação pejorativa, bem pelo contrário – para aquilo um estilo original, melódico, técnico e, acima de tudo, original. Um ano mais tarde, Human vê a luz do dia e torna-se num álbum clássico, a que se seguiram Individual Thought Patterns, Symbolic e este The Sound of Perseverance. A influência do rock progressivo/fusion faz-se sentir em larga escala neste período, de onde convém salientar que o pico da junção desta amálgama ocorre no último disco do (super) grupo. Apesar de Individual Thought Patterns ser um dos discos que mais adoro dentro de todos os géneros musicais e o meu favorito da banda (foi amor à primeira vista com The Philosopher), The Sound of Perseverance representa o expoente do death metal (progressivo) nos dias de hoje – e já se passou mais de uma década desde o seu lançamento. 

Já sem Gene Hoglan, Bobby Koelble, Kelly Conlon e com uma participação adicional de Steve DiGiorgio, Schuldiner recrutou músicos com quem viria também a trabalhar no seu projecto de power/progressive metal Control Denied: Shannon Hamm, Scott Clendenin e Richard Christy.  O disco abre com um curto solo de bateria, uns riffs de bateria descontraídos e um baixo a fazer lembrar aquelas notas graves de Human; a voz é cortante, forte e determinada, os dedos vão debitando nota, atrás de nota, escala após escala, até que as palavras se façam ouvir («Big words, small mind / Behind the pain you will find / A scavenger of human sorrow») e o ritmo acelere bastante num brilhantíssimo jogo de contra-tempos e puro exibicionismo instrumental, daqueles que fazem com que ao comprarem um instrumento, o devolvam no dia seguinte. Scavanger of Human Sorrow é das faixas de metal progressivo que mais prazer dão escutar e igualmente um grande cartão-de-visita para esta pérola dos anos 90. 

Um dos factores que ajudam a distinguir o som deste disco é o destaque dado à bateria. Embora os músicos mudassem praticamente de disco para disco, Chuck Schuldiner sempre gostou que os seus bateristas ocupassem as artérias principais do coração musculado de cada disco pós-Spiritual Healing. Sean Reinert (um dos responsáveis pelo supra-sumo Focus, dos Cynic), Gene Hoglan (agora nos Fear Factory) e Richard Christy são músicos extraordinariamente versáteis e criativos que ajudaram à criação e divulgação do nome e peso que os Death ainda hoje ostentam; contrariam, já agora, aquela falsa teoria de que o metal não existiu nos anos 90.  Referi atrás a palavra “progressivo” e retorno a ela: enquadrar este disco na mera categoria de “death metal” é errado. The Sound of Perseverance pega nas bases de temas como Lack of Comprehension, Mentally Blind, Flattening of Emotions e afixa-lhes os elementos já bastante progressivos de Symbolic, Crystal Mountain ou Perennial Quest. Jethro Tull, Fates Warning, Queensrÿche, Toxik ou Atheist merecem ser metidos ao barulho – não só neste disco. No entanto, e apesar de as referências atrás mencionadas serem total merecedoras de crédito, Schuldiner criou um som demasiado original e fascinante. Pormenores como os riffs “arabescos” e a lucidez de Flesh and the Power it Beholds (que harpejos de cortar a respiração…), a variação rítmica de Spirit Crusher, a beleza do instrumental Voice of the Soul e os solos esbeltos de A Moment of Clarity e A Story to Tell não se encontram facilmente num disco.

13/05/1967 – 13/12/2001.

9.5/10

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Dying Fetus «History Repeats...»


Uma banda com uma carreira invejável no espectro do death metal, como é o caso dos Dying Fetus, decidiu editar um EP com seis covers e um tema original. Este tipo de lançamentos acaba por vezes por ser arriscado, desnecessário na maioria dos casos, ridículo noutros. Até hoje creio que ninguém conseguiu perceber o porquê de os Six Feet Under insistirem nos Graveyard Classics; uma vez tem piada, porém repetir a façanha três vezes, sendo que na segunda há a reinterpretação na íntegra de um álbum de AC/DC, é piada de mau gosto.

John Gallagher, Sean Beasley e Trey Williams prestam tributo a algumas das maiores referências do death metal (e grindcore), ainda que algumas não façam parte dessa mesma elite: Cannibal Corpse, Pestilence, Dehumanized, Broken Hope, Napalm Death e Bolt Thrower.  Esperava encontrar aqui, por exemplo, algo de Suffocation, Cryptopsy ou Skinless – bandas cujos aspectos musicais se assemelham em parte ao trio de Maryland -, no entanto, todas as bandas escolhidas sofreram uma agradável mudança de roupa, com destaque para o blast beating insano de Unchallenged Hate (Napalm Death) do clássico de 1988, From Enslavement To Obliteration, a coerência e respeito pelo padrão mid-paced e solos de Unleashed (Upon Mankind) (Bolt Thrower), o baixo de Twisted Truth (Pestilence) – a audácia teria sido maior se a escolha tivesse recaído numa faixa de Spheres – e por último, claro, os guturais num dos clássicos dos clássicos dos Cannibal Corpse: Born in a Casket.

Rohypnol, o único original do disco, não é bem aquilo que se esperaria após Descend into Depravity; soa, na realidade, como uma tema para não ser levado a sério: são apenas trinta segundos de riffs simplistas, polvilhados com groove, “pig squeals” (sem cair no desastroso “bree, bree”) e um “finale” de doze segundos de algo que pode ser definido como “grindcore”. Posto isto, History Repeats… é um EP digno de registo para os seguidores da banda, ainda que não acrescente nada de significativo aos habituais álbuns de covers.

7/10

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Ricardo Adolfo «Depois de Morrer Aconteceram-me Muitas Coisas»


As expectativas em torno do sucessor de Mizé - Antes Galdéria que Normal e Remediada eram mais que muitas. Como explicado na crítica ao mesmo livro, o prazer de lê-lo foi tal que tinha mesmo que adquirir – neste caso ofereceram-mo – mais pérolas de Ricardo Adolfo para continuar a rir-me nos momentos mais desoladores, inclusive. A temática aqui abordada não lida com os filmes ou a fama de Mizé, optando por explorar um dos temas actuais da sociedade moderna: a emigração.

Ricardo Adolfo nasceu em Angola no ano da Revolução portuguesa, viveu em Macau, Lisboa, Londres e presentemente vive em Amesterdão. Temos portanto um autor que ao abordar esta temática da emigração certamente que escreve sobre caminhos que conhece perfeitamente, em especial numa altura em que cada vez há mais casos de emigração no em Portugal e por essa Europa fora. O livro retrata a emigração de uma família da “terra” para a “ilha” e todas as peripécias e dificuldades que passam nesta mesma “ilha”; o autor desvenda que “terra” é Portugal mas escusa-se a identificar a suposta “ilha” de forma directa. Fica perceptível que essa ilha é o Reino Unido quando Adolfo refere que lá se conduz pela esquerda e outros aspectos culturais/sociais típicos do Reino Unido (o peixe frito, as grandes comunidades chinesas e indianas, chá, etc).

Brito, o personagem principal, e Carla, mudaram-se há poucos meses para aquele país em busca de condições mais favoráveis de vida, deixando para trás um Portugal decadente também ele habitado por imigrantes. Na companhia do filho, Brito e Carla vivem num quarto minúsculo, com meia dúzia de talheres, dois beliches, um mini-frigorífico e pouco mais. A casa de banho é pública e utilizada por todos os habitantes do andar – todos eles emigrantes. A miséria em que vivem era já desde si uma boa imagem para ilustrar o que sucede com muitos emigrantes portugueses que acreditam em casas confortáveis e grandes regalias, sendo que quando despertam para a realidade, tudo se transforma num pesadelo. Nenhum dos personagens fala a linguagem da ilha e isso adensa de forma gritante os percalços que se lhes sucedem, em particular numa tarde em que vão passear e Carla compra uma mala de viagem e se perdem. Como não falam o idioma local, não conseguem obter indicações correctas e quando as recebem, acabam por se afastar ainda mais, são assaltados e visitam uma esquadra de polícia. Quando o casal e o rebento pensam que o pior já passou, o instante anterior era o Céu e o presente o Inferno.

Depois de Morrer Aconteceram-me Muitas Coisas não é hilariante, ao contrário de Mizé - Antes Galdéria que Normal e Remediada: debruça-se sobre uma temática que a maioria dos autores portugueses ainda não estão a explorar muito, mas que começa já a ser vista como matéria de inspiração – Livro, de José Luís Peixoto, aconselha-se vivamente. Para além da inspiração, certamente que por ser imigrante, Ricardo Adolfo tem mais experiência e um maior à vontade para pintar de negro a actual emigração portuguesa dos que possuem poucas habilitações literárias (como este casal) e até mesmo dos licenciados.  

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Hernán Rivera Letelier «A Arte da Ressurreição»


Em 1942 um novo Jesus Cristo foi colocado na Terra para livrar a Humanidade do mal e garantir a sua redenção dos pecados. Ao contrário do primeiro judeu nascido em Belém, Domingo Zárate Vera, conhecido como o Cristo de Elqui, foi dado à luz nos primeiros dias do séc. XX no Chile. Esforçado trabalhador nas minas da sua povoação local, este indivíduo passa a acreditar que é a reencarnação do redentor e decide difundir a palavra do Senhor após a morte de sua mãe, que lhe fazia lembrar a sagrada Virgem.

Esta longa peregrinação teve início nos anos 30 e contou com vários discípulos e virgens auxiliares que, por medo e falta de crença, abandonaram o Cristo de Elqui. No entanto, a determinação da personagem principal é tanta que prega a palavra de Deus munido apenas com uma Bíblia, uma sotaina, umas sandálias feitas de pneus nos pés e um saco de provisões mínimo. A humildade de Domingo Zárate Vega é tal que dorme no meio de arbustos, não aceita dinheiro pelos sermões e fornica apenas quando a mente assim o obriga. Sim, este novo salvador acredita que o saciar dos prazeres carnais é importante para o bem-estar das pessoas, e não raras vezes o encontramos na mata a aliviar a libido com as suas fervorosas seguidoras, ou a benzê-las de pé enquanto elas se ajoelham. Um Cristo moderno.

Quando chega ao norte do país, o Cristo de Elqui ouve falar de uma meretriz que é idolatrada pela população local devido à sua grande capacidade para ajudar os bravos trabalhadores das fábricas de salitre de La Pioja. Ao fim de um bom dia de trabalho, e por mais dorida e cansada que possa parecer estar, o coração e a cama de Magalena Mercado são tão grandes que albergam sempre espaço para mais um cliente. Esta «santa puta» - assim apelidada pela população e pelo próprio Cristo de Elqui -, é fiel seguidora da Santa Virgem, de tal como que ao lado da cama tem o seu bem mais precioso: uma estátua Virgem, pois claro. Mas, e para que o Senhor e a própria Virgem Santíssima não a excomunguem da vida cristã, Magalena tem sempre o cuidado de tapar a cara da virgem com um pano sempre que atende a clientela. 

O grande objectivo da vida do nosso seguidor do Padre Celestial (embora me pareça que a tradução mais adequada seria “Pai Celestial”, pois “padre” em castelhano significa “pai” e “padre” ao mesmo tempo) passa a ser convencer a santa prostituta a segui-lo pelos caminhos sagrados, contando o Cristo de Elquí com a boa fama que Magalena usufrui para conquistar mais seguidores. O autor deste romance, Hernán Rivera Letelier, um chileno nascido em 1950 que venceu já vários prémios e distinções – dos quais se destacam o Prémio Alfaguara e a nomeação para Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras pelo Ministério da Cultura de França -, criou um irónico e sarcástico romance que lida com o fanatismo cristão e com aspectos da cultura, política e sociedade no seu país. As personagens são fortes, determinadas nos seus modos de estar, numa época de miséria que foram os anos 30/40 do Chile, e vêm-se envolvidas em situações surreais e hilariantes, tal é a fluidez humorística da escrita de Letelier.

A Arte da Ressurreição é um romance latino-americano muito interessante e de elevado valor que peca pela tradução deficiente de Francisco Guedes de Carvalho: é incompreensível que exijam do leitor quantias são elevadas como se praticam em Portugal, quando o tradutor não consegue distinguir “à” de “há” ou, por exemplo, quando troca “fizesse” por “fize-se”.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Terry Reid «Seed of Memory»


Tenho que agradecer a Rob Zombie por várias coisas no geral e uma no particular. Porque é um óptimo realizador de filmes, porque fez grande carreira nos White Zombie, porque a solo faz músicas divertidas e agradáveis (mesmo quando Ozzy Osbourne lhe rouba músicos). Em particular, gostava de lhe dizer «obrigado» por ter incluído um grande artista na banda sonora dum dos filmes de terror mais espectaculares dos últimos anos, Os Renegados do Diabo. Obviamente que tenho inveja da sua esposa e por isso, Rob, não te estou grato por nada.

O músico em particular é um senhor que, por estranhos motivos, não é muito divulgado, apesar de ser da mesma geração do rock ‘n’ roll e folk dos finais da década de 60 e de ter feito grande carreira na década seguinte. Terry Reid, nascido no Reino Unido em 1949, ainda hoje está no activo e dá concertos, apesar de o seu último disco de originais ter sido lançado já há já sete anos e de nos últimos vinte anos ter tido uma discografia praticamente inexistente. Inglaterra será para sempre lembrada como o país das maiores bandas de rock de todos os tempos e os Black Sabbath, os Rolling Stones e os Led Zeppelin – mesmo com aqueles plágios descarados nalguns dos seus grandes “hits” - figurarão no Panteão da música.

Terry Reid é aquele tipo de músico que tem muita paixão por aquilo que compõe e pelas guitarras com que toca belas canções dirigidas maioritariamente a mulheres igualmente belas (o habitual das letras dos Stones, Hendrix, Zeppelin, etc) que, ao som de The Way You Walk, deve ter seduzido inúmeras vezes. Este Seed of Memory, editado em 1976, prima pela devoção da fusão entre o folk e o rock de forma descontraída, suficientemente “bluesy” e harmónica em cada acorde que ecoa na guitarra de um Reid cuja voz sobressai em relação aos demais pelos roucos choros que as suas cordas vocais emitem, mesmo do fundo da garganta. Os temas que mais chamam a atenção são, curiosamente, aqueles que foram incluídos na banda sonora do referido Os Renegados do Diabo: Seed of Memory, Brave Awakening e To Be Treated Rite. A beleza da melodia e do vozeirão de Terry Reid são louváveis, honestas e cativantes, na toada de um Planet Waves de Bob Dylan ou um If You Can Believe Your Eyes and Ears dos extintos The Mamas & The Papas – só que ainda melhores, bem melhores. Ao ouvir Grace, de Jeff Buckley, por exemplo, apercebo-me da influência que Reid teve sobre este e outros grandes compositores que apareceram: aquela graça, aquele sentimento estão presentes.

Seed of Memory é um disco que dá vontade de ouvir vezes sem conta, tal como a grande voz que Terry Reid manda cá para fora. A voz – e não me canso de a repetir – é mesmo o elemento chave deste disco; algo que o distingue das centenas de discos editados na década de 70 e, convém recordar, que ao contrário dos dias de hoje onde só ao vivo (e mesmo aí, muita atenção) é possível descobrir se o artista é genuíno ou se gravou o disco com Pro Tools. Um disco virado para o amor, sem dúvida.

8.5/10

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Roberto Bolaño «Os Dissabores do Verdadeiro Polícia»


Não muito raramente acontece que um autor fique famoso e idolatrado após deixar o reino dos vivos. Se atentarmos sobre grandes nomes que populam hoje as Artes, constatamos que Franz Kafka, Vincent van Gogh, Edgar Allan Poe, Henry Thoreau, Jeff Buckley ou Emily Dickinson, entre outros, tiveram vidas discretas – miseráveis nalguns dos casos – e o seu valor nunca lhes foi reconhecido aquando da realização das suas diferentes profissões. 

Roberto Bolaño é um dos últimos fenómenos da fama “post-mortem” da Literatura. Nascido no Chile em 1953, o sul-americano deixou um legado de obras que hoje abundam em destaque nas principais livrarias da América latina, Espanha, Estados Unidos e no nosso país; 2666, o seu mais famoso romance, foi campeão de vendas do ano passado e, desde então, outros livros do autor têm suscitado o interesse do público. Os Dissabores do Verdadeiro Polícia, escrito em diferentes entre a década de 80 e 2003, é o registo que Roberto Bolaño definiu como a sua melhor obra («é o MEU romance»). Amalfitano é um homem viúvo de 50 anos que passou parte da sua vida fora do seu país natal, trabalhando no ramo da tradução e ensino e que agora regressa ao México na companhia de Rosa, a sua filha de 17 anos. Descobriu recentemente que é homossexual e apaixonou-se por Padilla, um ex-aluno seu de uma universidade de Barcelona, com quem estabelece uma relação íntima forte de amizade e paixão onde divagam, por exemplo, sobre quem é o poeta mais “bicha” e sobre o livro que Padilla está a escrever, intitulado O Deus dos Homossexuais.

Esta é a ligação mais forte entre personagens existente neste romance fragmentado em cinco capítulos, constituídos eles por vários sub-capítulos aparentemente desconexos mas acabados – a obra não chegou a ser finalizada, no entanto. Ao longo do livro, Bolaño explora e viaja pelo mundo e pelos grandes artistas de várias nações, revelando uma grande cultura e capacidade de organização notáveis. Como já foi referido, não obstante todos os capítulos estarem completos, a obra ficou inacabada e cabe ao leitor configurar a aparentemente deficiente ligação entre espaços, personagens e histórias, resultando daí talvez o “detectives” presente no título. Bolaño tentou incorporar nesta obra os grandes poetas, romancistas e outros ligados à Arte; no fundo, o autor conduz a alta velocidade pelas estradas da fantasia e realidade, cruzando e referindo personagens e génios espaçadas geográfica e temporalmente - criando mesmo autores inexistentes como é o caso de Arcimboldi, um romancista que aparece noutras obras do chileno.

A capacidade de descrever de forma rápida mas detalhada culturas por onde Amalfitano passa é notável, assim como o tradicional humor latino-americano - numa das várias cartas trocadas entre Padilla e Amalfitano, o espanhol escreve que «O meu romance, disse ele, será como uma emissão de luz estroboscópica, com muitas personagens (mas desdenhadas ou desenhadas com traços arbitrários e ditados pelo acaso) e muita violência e muitas lutas de lobos e de cães e de muitas pilas em riste e lubrificadas, muitas pilas duras e muitos uivos» - e as mortes carregadas com algum humor negro (o último capítulo intitula-se Assassinos de Sonora) que amenizam a verdadeira tragédia que assola o México no particular, e a Vida no geral.

Os Dissabores do Verdadeiro Polícia aproxima o autor do leitor, na medida em que este tem que descodificar o elo de ligação das histórias de um romance que pode ser interpretado de forma diferente consoante quem o lê. Um livro que fica um pouco aquém das expectativas criadas em torno do mesmo, alimentando-se de demasiado marketing e muito “hype” por parte da crítica, mas que é muito bem escrito e proporciona bom prazer.