terça-feira, 15 de novembro de 2011

Despise You / Agoraphobic Nosebleed «And On and On»


As compilações são, regra geral, uma boa maneira de as bandas encaixarem lucro fácil à custa de uma reunião de temas que o ouvinte mais aprecia das mesmas (que o digam os Iron Maiden, com aqueles best ofs natalícios). No entanto, e de vez em quando, há compilações que fazem sentido, em especial as que reúnem vários artistas desconhecidos com alguns que já se conhecem; a Relapse conseguiu, nos últimos anos, fazer duas compilações de grande nível no espectro do crust/noise/grindcore e powerviolence nas suas This Comp Kills Fascists Volume One e Volume Two.

Do segundo volume saíram os Despise You, banda que explora os caminhos do powerviolence cru na veia dos clássicos do Japão e E.U.A., com influências da primeira vaga do hardcore punk. O conjunto californiano contribuiu com dezanove temas para a primeira parte deste split com os Agoraphobic Nosebleed e mostra que o powerviolence norte-americano está a crescer e a ganhar novamente o respeito e interesse de outrora, disparando temas curtíssimos (20, 30, 60 segundos), dos quais se destacam Bereft, Roll Call, o punk de Fear’s Song (tributo aos The Fear?), Two or Tem Faces. Shit Goes In, Shit Comes Out e You Can’t Fix Me, com pujantes riffs thrash, são, também, óptimos cartões de visita.

A segunda parte do disco – também disponível em formato vinil 12” – ficou a cargo dos Agoraphobic Nosebleed, banda estandarte do movimento noise/grindcore norte-americano que juntou Kat Katz (ex-Salome) a Jay Randall e Richard Johnson no quarto álbum de estúdio, Agorapocalypse, de 2009, e oferece a costela mais brutal deste split com sete temas que equilibram o material que antecedeu o disco de 2009 com esse mesmo, embora a produção e as linhas com que se cosem incidam muito mais naquilo que caracterizou Agorapocalypse: maior influência do thrash metal, solos como aquele que abre As Bad As it Is e o de Possession, revelando um Scott Hull na guitarra cada vez mais dinâmico e mais focado em variar as curtíssimas Los Infernos e Miscommunication com as arrastadas e decadentes Burlap Sack e Half Dead – que belos riffs Napalm Death/Obituary que aqui se fazem ouvir. 

Em suma, And On and On é um disco interessante que dá a conhecer um pouco mais dos Despise You, que já andam nisto desde 1995 e que contam apenas com um longa duração (West Side Horizons), prolongando também o já extenso rol de EPs/splits dos Agoraphobic Nosebleed.

7.5/10

domingo, 13 de novembro de 2011

Falloch «Where Distant Spirits Remain»


O início dos anos 90 marcou uma era musical que ficou a ser conhecida por “dark metal”, que resultava da mistura de estilos agressivos com um toque melancólico do doom ou até mesmo do gothic metal. My Dying Bride, Paradise Lost e Katatonia foram três destes exemplos que mais sucesso mainstream obtiveram, muito à custa de Dance of December Souls, Gothic e Turn Loose the Swans; mais tarde, os Opeth surgiram com Orchid  e a aproximação clara ao metal progressivo, os Agalloch mostraram que os Joy Division são mais que compatíveis com o metal no seu “debut” Pale Folklore e os Thanatoschizo lançaram um fenomenal lançamento nesta área vanguardista, deu seu nome InsomniousNightLift.

Formados em 2010, os Falloch são um duo da cidade de Glasgow, formado por Andy Marshall e Scott McLean e seguem as pisadas da recente fama que Agalloch e Alcest têm vindo a gozar. A fórmula consiste na mistura de rock progressivo, neo-folk, black metal atmosférico e algum shoegaze à mistura, proporcionando momentos épicos e belos, mas tem um problema: só resulta quando bem trabalhado, algo que não se observa com sucesso nestes Falloch. A colagem a Agalloch começa no logótipo da banda, no “lloch” do nome e no som, na sua grande maioria, o que é triste, pois mesmo o último Marrow of the Spirit denotou perca de fulgor e criatividade por parte do conjunto de Oregon e estes escoceses conseguem fazer um trabalho ainda com menos brilho.

Where Distant Spirits Remain é um disco com bons temas e, no global, soa bastante homogéneo, e isso tem que ser ressalvado. O primeiro tema do disco, We Are the Gathering Dust, é dos mais fortes e apresenta boas ideias, nomeadamente no escasso recurso à batida black metal, nas quebras de rimo e os samples de água a descer nas nascentes e nos rios da paisagem escocesa ajudam realmente a criar uma sentimento de envolvência entre a música e o ouvinte… até ao momento em que os dedilhados acústicos repetitivos nos preparam para recta final e anunciam fugazes, algo desconexos, blast beats com que a canção termina. Os instrumentos de sopro – ou a sua emulação – estão presentes em boa parte do disco, como se verifica em Beyond Embers and the Earth ou na instrumental Horizons (esta com um grande toque celta), mas tentam muitas vezes ser uma via de escape à previsibilidade que predomina no disco.

A voz de Marshall é boa e denota talento, ainda que atinja um patamar demasiado limpo e polido, forçado e aborrecido nalguns momentos. Isto juntado ao instrumental simples e previsível que marca este álbum e o peso-pesado que dá pelo nome de Agalloch, tiram todo o brilho e potencial que Where Distant Spirits Remain poderia ter para oferecer. Enquanto o “hype” à volta do género durar, acredito que os Falloch consigam atingir sucesso; sem embargo, The Mantle ou Souvenirs d'un Autre Monde são alternativas muito, mas muito mais sólidas e satisfatórias.

5.5/10

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Steven Blush «American Hardcore: A Tribal History»


A música, como todas as vertentes estético-artísticas, tem movimentos e períodos específicos que marcam uma era e perduram no tempo. Hardcore punk pode ser definido como a segunda vaga do punk rock, caracterizando-se principalmente pelo ritmo acelerado da bateria, distorção acentuada nas guitarras, letras consideravelmente berradas, músicas curtas (dois a três minutos) e uma ênfase lírica que vai para além do anarquismo que marcou grande parte do punk rock britânico (The Crass, Sex Pistols, The Exploited, etc), abrangendo tópicos como a própria cena hardcore, o vegetarianismo/veganismo, a postura straight edge, gravações independentes de discos ou revolta contra o governo de Ronald Reagan (no contexto norte-americano). 

Steven Blush é alguém que acompanhou de perto e conviveu com as maiores bandas norte-americanas, utilizando aqui nesta enciclopédia vários testemunhos de situações que ocorreram e de amigos que ele fez e com os quais ainda mantém contacto, dando um precioso contributo para uma melhor compreensão do movimento e de muitas bandas em particular. Com efeito, Blush fez uma pesquisa minuciosa sobre o período de 1980 a 86, altura em que, para ele e alguns dos entrevistados, o hardcore punk morre, cobrindo praticamente estado a estado, desde o sul/norte da Califórnia (Black Flag, Circle Jerks, Dead Kennedys, Agent Orange, The Adolescents, Suicidal Tendencies, Descendents, Minutemen), o Texas (Dirty Rotten Imbeciles, Verbal Abuse), Nevada (7 Seconds), Washington DC [Minor Threat, Bad Brains, The Teen Idles, Iron Cross, Scream (banda de Dave Grohl, que mais tarde viria a integrar os Nirvana e a formar os Foo Fighters)], Nova Iorque (Reagan Youth, Agnostic Front, Murphy’s Law, Beastie Boys), Minesota (Hüsker Dü), Carolina do Norte (Corrosion of Conformity), Massachusetts (Social System Decontrol, Negative FX, Siege)  e outros estados de menor importância para o movimento, havendo um grande destaque para a Califórnia, Nova Iorque e Washington DC.

Blush diz o que pensa e não pensa duas vezes antes de ridicularizar alguma banda ou ramificação do hardcore punk, embora por vezes teça alguns elogios a determinados sub-géneros e discos que não são propriamente hardcore, mas que tiveram uma grande influência na cena – os discos dos Fear e Flipper merecem destaque por parte do autor. Enquanto Blush analisa o que aconteceu depois de 86 e o aparecimento do thrashcore, crossover, sludgecore, youth crew, post-hardcore, emocore, screamocore, powerviolence, grindcore, crustcore, etc, ele revela curiosidades sobre várias bandas e mutações de certos artistas: Moby, que teve uma banda de hardcore punk, os já referidos Corrosion of Conformity e sua passagem do hardcore cru para o sludge/stoner, o rap dos Beastie Boys, a conversão post-punk/goth dos The Sounds of Liberty e mais outros pormenores que valem a pena ser lidos.

«Estou a documentar a cena musical do hardcore punk americano porque está a ser esquecido. A sua história está-se a evaporar e os seus participantes caem no esquecimento ou encontram a religião ou reprimem as memórias daqueles dinâmicos dias. Este livro expressa os melhores anos do hardcore american, de 1980 a 86. Muito se passou naqueles anos. Hardcore foi mais que música – tornou-se também num movimento político e social. (…) O mundo mudou dramaticamente ao largo das últimas décadas. O que ocorreu no início dos anos 80 não pode voltar a ser repetido». É desta forma crua e directa que Steven Blush inicia o seu livro; no entanto, será que o hardcore punk morreu de facto em 86? Penso que não.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

António Lobo Antunes «Quarto Livro de Crónicas»


Ao quarto livro, mais setenta e nove crónicas. António Lobo Antunes escreve com regularidade para a revista Visão desde há uns anos para cá, onde são publicados textos que se destacam pela sua melancolia contrastante com o humor do autor, e a D. Quixote encarrega-se depois de fazer a sua compilação, como acontece neste agradável Quarto Livro de Crónicas – o primeiro data de 1998.

Ao largo destas quase oitenta crónicas, António Lobo Antunes viaja pelo seu passado, recuperando as memórias da infância em Nelas e Benfica, dos avós e dos pais, da mercearia do Sr. Casimiro, da caça às lagartixas, das travessuras, dos professores da escola, dos amigos, da escrita precoce ou da aptidão para jogar hóquei. A guerra colonial em Angola é também assunto em destaque, fazendo Lobo Antunes questão de mostrar ao leitor o carinho, os maus momentos e a saudade que nutre pelos seus camaradas – alguns já mortos - sempre que pensa neles ou quando há jantares de reunião e convívio entre velhos amigos que são, no fundo, irmãos de guerra (AcácioAntónioAcácioAntónioAcácioAntónioAcácioAntónio). António Lobo Antunes estabelece diálogos íntimos consigo mesmo e com quem o lê, retratando muitas vezes o seu processo de criação dos seus livros (Onde o Pobre Escritor Começa), o que o motiva a escrever, a força que ele busca, por vezes, para conseguir dactilografar uma boa crónicas e quando deita fora alguns capítulos de um livro que nunca chega a ser livro, conduzindo-o à estaca zero – e lá começa de novo o processo, culminando com o êxito que é reconhecido pela imprensa e pelo leitor fiel - Crónica com Buganvílias: «(…) Fazer livros é uma tarefa que não associo ao prazer. E, no entanto, que outra coisa verdadeiramente me interessa? Além do mais tornou-me humilde, isto é, deu-me um orgulho humilde.».

António Lobo Antunes escreve também sobre alguns escritores que o marcaram (O Capitão da Areia), alguns seus amigos, outros que nunca conheceu; porém, há crónicas cujo título remete de imediato para o sujeito em questão: (Miguel Torga, Juan Marsé). Convém ressalvar que nestas crónicas há um sentimento de saudade predominante – infância, adolescência, pai e avó, principalmente -, um sentimento de tristeza relativo à guerra colonial e um enorme sarcasmo hilariante que o autor descobre para amenizar e tornar divertida toda a melancolia aqui descrita – há também o regresso à já conhecida crónica sobre os dentistas, A Cadeira do Dentista, a mais cómica deste Quatro Livro de Crónicas.  

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

«Død Snø»


Se já visitou anteriormente este meu blog(ue?), sabe que adoro filmes de terror e que sinto um enorme fascínio pelo género. Desde os clássicos de Romero, do boom italiano de realizadores que contribuíram para o crescimento e criação de uma certa sedução por parte dos mortos vivos - de onde gostaria de destacar, entre muitos outros, Dario Argento (Suspiria) e Lucio Fulci (Zombie 2 - A Invasão dos Mortos Vivos), visitando a rua de Elm Street, o Halloween de 1978 (e o espectacular remake que Rob Zombie fez em 2007), as experiências na reanimação dos mortos (Reanimator), ou os recentes Silent Hill, Stake Land, Os Renegados do Diabo, etc, etc, etc.

Uma das minhas mais recentes descobertas foi este Død Snø, conhecido internacionalmente pela sua anglicização Dead Snow, um filme realizado no país dos fiordes, black metal, neve, bacalhau e dos deuses mitológicos dos vikings: a Noruega, pois claro. Tommy Wirkola juntou um grupo de jovens actores e levou-os até Øksfjord para realizar um hilariante filme de zombies nazis que ficaram presos em Finnmark no final da II Guerra Mundial. Enquanto os alemães, liderados pelo Coronel Herzog, ocuparam o norte da Noruega, trataram de pilhar, incendiar e matar uns quantos civis, até que um dia a população local se revolta e trata de ajustar contas, expulsando-os do território. Oito estudantes de Medicina vão passar as suas férias da Páscoa numa cabana isolada na neve e deparam-se com uma caixa antiga que contém, nada mais, nada menos que ouro e moedas dos nazis que outrora ocuparam a área; mal sabiam eles que ao desenterrarem o tesouro estariam a libertar o mal dos soldados alemães que, afinal de contas, nunca chegaram a morrer: tornaram-se zombies. Até aqui, a originalidade não é muita e, verdade seja dita, não importa muito – é um filme sobre zombies feito precisamente para fazer rir.

A carnificina é um dos pontos fortes do filme, em detrimento daquelas cenas em “slow motion” com montes de tiros e estilhaços como temos assistido no massacre feito à saga Resident Evil, a acção decorre de forma rápida e espontânea: são oito contra um exército de mortos vivos do III Reich e não há tempo para cenas românticas, importa mesmo é disparar e correr, disparar e correr. E quando não há armas de fogo, o que estiver à mão também conta como utensílio de defesa. Há aqui cenas que fazem lembrar de imediato a The Evil Dead – A Morte Chega de Madrugada: a cabana, onde decorre grande parte da narrativa, uma motosserra que tritura tudo o que toca e uma cena – a segunda mais hilariante do filme, passo já à número um – tipicamente Sam Raimi: uma vez mordido num braço por um zombie, uma personagem passa de imediato à amputação do membro a sangue frio e com a ajuda da motosserra. A cena mais hilariante da película acontece quando duas personagens estão dentro da cabana, cercados por um batalhão nazi, e lançam um cocktail molotov… que explode e incendeia a cabana. Segue-se uma chamada telefónica para o 112, informando o operador de que estão a ser atacados por zombies da Segunda Guerra Mundial.

Død Snø não inova em praticamente nada num género povoado por um sem número de maus filmes – muito maus – que tentam, sem efeito, focar-se em relações amorosas e deixam de fora o elemento principal num filme de terror com boa disposição: espontaneidade e diversão.

Argumento: Tommy Wirkola, Stig Frode Henriksen
Realização: Tommy Wirkola

sábado, 29 de outubro de 2011

Opeth «Heritage»


O que fazer quando uma banda anuncia que vai mudar de estilo, mantendo no entanto, os alicerces de toda a sua obra discográfica? O que fazer, então, se quem responde à pergunta é um seguidor de longa data do grupo, tem as raridades, compra bootlegs e LPs? Talvez a maioria desses fãs goste do que a banda venha a compor, talvez a maioria sacuda a cabeça em desagrado.

Heritage marca a passagem do death metal progressivo para o rock progressivo genuinamente anos 70, a começar no design da capa do disco, na produção e a acabar, bem, na música. Mikael Åkerfeld, líder e mentor de uma das bandas que mais inovou e quebrou barreiras no heavy metal dos últimos quinze/vinte anos, já há muito que ia avisando que um dia iria fazer um disco puramente progressivo, baseado nas bandas que ele e o resto da banda cresceram a ouvir: Camel, Yes, Genesis, King Crimson, etc. Åkerfeld, em entrevistas, afirmou que se sentia um pouco deslocado da comunidade death metal e que quando era mais jovem não era propriamente um metaleiro; antes alguém que apreciava metal extremo, sim, mas que não era fanático pelo mesmo – em 2006, aquando da passagem da banda pelo extinto Hard Club de Vila Nova de Gaia, e promovendo Ghost Reveries, ele questionou a plateia se apreciava… Camel, Yes, King Crimson.

Esta não é, no entanto, a primeira vez que os suecos apostam num disco rock, visto que já em Damnation tinha havido uma abordagem claramente roqueira e em prol de algo que tinha semelhanças com Porcupine Tree em vários aspectos. Sem embargo, era público que a banda iria aproveitar essa experiência mais calma e voltar ao death metal que lhes era conhecido, ao passo que este Heritage cria uma verdadeira incógnita: alguma vez recuperarão o fulgor de um My Arms, Your Hearse, ou aqueles guturais e aqueles riffs brutais de uma Master's Apprentices? Só Åkesson, Svalberg, Axenrot, Méndez e Åkerfeldt saberão responder à pergunta. O álbum em si apresenta-se compacto, muito bem tocado e com um aroma demasiado anos 70, para grande pena da originalidade que marcava os anteriores registos. Os dedilhados e os riffs funcionam às mil maravilhas, a percussão de Axenrot é, no mínimo, enorme, e o baixo e órgão vincam bem a aposta progressiva – especialmente o órgão - de há quatro décadas no tempo.

Heritage é também um trampolim para Åkerfeldt mostrar a graciosidade da sua voz limpa – que bela que ela é -, sem qualquer berro, num equilíbrio constante de um músico que tem agora a sua oportunidade para mostrar ao mundo que tem um timbre único e que compõe letras como poucos, a juntar à criatividade da sua guitarra. O disco falha claramente na colagem demasiado óbvia aos colossos do rock progressivo, já referida por mim e por todos aqueles que opinam sobre o álbum, e isso é algo que a banda pouco poderá argumentar para se defender, mas era isto que eles queriam gravar e, nesse aspecto, sempre foram honestos – nada de dedos em apontados, por favor. Os momentos de maior intimismo são aqueles que soam melhor e que dão realmente gosto de serem apreciados vezes e vezes sem conta; estou a falar de Nepenthe e do seu grande solo à Jethro Tull, do aroma folk tão bem conseguido de The Lines in My Hand, as variações de rimo e peso de Famine e a vénia que tem que ser feita ao sentimento épico que Folklore transmite. Menção honrosa para o tributo a Ronnie James Dio de Slither, a faixa mais hard ‘n’ heavy do décimo disco de originais do grupo do sul da Suécia.

O ouvinte mais casual vai adorar Heritage, o fã de longa data vai ficar algo decepcionado, enquanto que o tal que tem tudo e mais alguma coisa da banda, embora defraudado, vai esgrimir argumentos e “factos” que comprovam que não, que este álbum é fantástico e que a originalidade abunda. Enfim, tem os seus grandes momentos, foi composto por músicos de calibre inquestionável, mas estamos em 2011, não em 1970.

7/10

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Maria Gabriela Llansol «Na Casa de Julho e Agosto»


Maria Gabriela Llansol foi uma escritora incompreendida, no geral, pela imprensa nacional, autora de obras ímpares, assim como um estilo literário ao qual é difícil identificar um conto, um romance, um livro de memórias, ou ensaios. De ascendência espanhola (daí o apelido Llansol), a escritora nunca se identificou verdadeiramente com um Portugal opressor, nem mesmo após o 25 de Abril; de facto, a escritora passou grande parte da sua vida residindo na Bélgica.

Inserida na trilogia Geografia de Rebeldes, Na Casa de Julho e Agosto é o fecho da mesma, iniciada em O Livro das Comunidades e seguida em A Restante Vida. O título do livro e da trilogia são simbólicos e enigmáticos, a escrita bastante original e a leitura nem sempre é fácil: Llansol escreve da mesma forma que ela sempre se enquadrou no Mundo, através de temática(s) e estilos literários vastos, separados geograficamente (Kafka, Camões, Nietzsche), embutidos de um grande espírito de “comunidade”. Em boa verdade, é difícil entender a autora como uma cidadã portuguesa. É necessário expandir a mente e a alma para se compreender minimamente o legado llansoliano e observar que ela pertencia ao Mundo – numa entrevista a João Mendes, publicada no Público a 18 de Janeiro de 1995 (transcrita na sua totalidade nesta mesma edição da Relógio D'Água), e sobre a questão da sua relação com o país de origem, Llansol foi esclarecedora: «De Portugal conheço o português que é gente e uma língua. Conheço pouca gente, mais paisagens do que gente, e trabalho a língua. Não consigo ser patriota. E muito menos no pensar.».

Na Casa de Julho e Agosto apresenta-se disposto como um bom quebra-cabeças, incrivelmente denso e curto no número de páginas. Dando continuidade aos dois primeiros capítulos da trilogia, a estória é contada por beguinas e personagens da História (umas religiosas, outras do campo das Artes) separadas por séculos, criando um ambiente de exílios e viagens ao largo do Mundo através de rios (Tejo, Eufrates e Tigre) que interligam vários países – aqui uma vez mais a sensação de emancipação e corte da escritora com o Portugal dos anos 60/70/80 – e permitem uma partilha de culturas que o nosso Portugal não permitia na altura em que a trilogia foi escrita; além disso, a emancipação da Mulher parece-me ser um assunto que a escritora aborda.

Não tenho dúvidas ao afirmar que a obra é de uma difícil interpretação – amenizada e simplificada pelo posfácio da autoria de João Barrento. De facto, há que procurar onde não existe, onde a luz não incide, o fio condutor da fragmentação que compõe Na Casa de Julho e Agosto.