Moby Dick, mares, czars, montanhas, o Homem Elefante, fogo e outros temas fazem parte do universo de fantasia alucinante deste quarteto georgiano, assim como suicídios e ataques cardíacos. Skye era o nome da irmã de Brann Dailor que cometeu suicídio, daí que Crack the Skye, o anterior disco, tenha sido escrito em honra dela, através de uma viagem intemporal no espaço. The Hunter é dedicado ao irmão de Brent Hinds, vítima de uma paragem cardíaca enquanto caçava.
Depois da experiência ultra psicadélica e exageradamente progressiva do anterior disco, a banda cria aqui um disco muito mais directo de treze temas que remetem para a era Remission – Blood Mountain, estabelecendo uma ponte entre toda a sua discografia. O disco arranca com Black Tongue (baseado nas línguas dos papagaios que são precisamente pretas) e a dinâmica instrumental tal qual os Mastodon nos habituaram numa década de existência: muitos riffs stoner, solos habilidosos, shred empolgante, baixo a bombear sangue para o coração musculado e uma bateria cuja batida é enfeitada com deliciosos pormenores ao bom estilo psicadélico da escola de Bill Ward, John Bonham ou Nick Mason, entre outros históricos. A juntar ao instrumental e se considerarmos que a voz não é um instrumento, não se fazem muitos discos de rock ‘n’ roll com vozes tão coesas e harmoniosas como as que se fazem ouvir das gargantas destes quatro músicos. É um dos pormenores que, enquanto banda mainstream e praticante de música alternativa, a vai distanciando da concorrência.
As vozes limpas são intercaladas alguma rispidez que a adrenalina que Blasteroid e a pujança de Dry Bone Valley (dois dos melhores temas do disco) impõe, ainda que na maioria dos temas as vozes soem polidas e orelhudas, fruto da excelente produção a cargo de Mike Elizondo. Há aqui vários temas a destacar. Há aqui treze temas a destacar e uma descrição faixa a faixa é desadequada. Scott Kelly (Neurosis) empresta a voz a Specterlight, aquela que é a faixa que mais alusões faz a Remission e Call of the Mastodon, os teclados tão, mas tão space rock intrometem-se no meio de Bedazzled Fingernails, os dedilhados das guitarras acústicas ganham um novo significado com Creature Lives, Hunter e The Sparrow – aquelas que, na minha opinião, são as canções mais épicas do disco.
Liricamente, este registo reforça a ideia de que apesar das tragédias e horrores da vida, é possível manter sempre um grande sentido de humor e exercer o direito ao sarcasmo: «I killed a man because he killed my goat / I put my hands around his throat» (Curl of the Burl). Retomando o tema do rock mainstream e a sua qualidade, os Mastodon não têm absolutamente culpa alguma por venderem tantas cópias e serem tremendamente populares; aconteceu o mesmo com os Nirvana: não foram eles que foram ter com o mainstream, foi precisamente o contrário – note-se que entre os dois grupos não existem grandes similaridades em termos de sonoridade, exceptuando o amor pela música.
Sério candidato a melhor disco do ano, The Hunter cresce a cada nova audição pois tem aquilo que falta a muitas bandas que tentam emular o som desta banda: originalidade e capacidade de escrever um disco homogéneo. Além do mais, serve de prova assim como a música e os músicos se podem reinventar sem comprometerem a integridade, derrubando barreiras e preconceitos rumo ao topo.
9/10






