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domingo, 10 de fevereiro de 2013

Exposição sobre Clarice Lispector na Fundação Gulbenkian


No ano em que passam 35 anos sobre a morte de Clarice Lispector, a Fundação Gulbenkian apresenta a exposição A hora da Estrela, integrada nas comemorações do Ano do Brasil em Portugal. Divulgar a obra de uma das mais destacadas vozes da literatura brasileira é um dos objectivos desta exposição que ocupará a Sala de Exposições Temporárias do Museu Calouste Gulbenkian, entre 5 de Abril e 23 de Junho.

No Brasil mais de 700 mil pessoas viram esta exposição que mostra textos, fac-símiles, fotografias, documentos pessoais, mas também recria ambientes e cenários que inspiravam a escritora.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Clarice Lispector «Laços de Família»


É de lamentar que os grandes autores brasileiros sejam desconhecidos em terras de Portugal e que o contrário também suceda no outro lado do oceano Atlântico. É difícil de compreender esta situação, visto que – dizem os governos – somos dois países irmãos e no entanto, encontrar um livro de João Guimarães Rosa numa livraria não é tarefa fácil, entre tantos outros fantásticos autores. Tenho a agradecer à Relógio D’Água por publicar a obra de Clarice Lispector.

Laços de Família é um conjunto de treze contos publicados em 1960, no Brasil, que incidem sobre a vida no geral e a vida pessoal de Lispector no particular, na minha opinião. Lidando sobretudo com temas da vida feminina, mas também com questões familiares (como o próprio título indica), este registo tem em Amor, Mistério em São Cristóvão, O Búfalo, Os Laços de Família e Preciosidade os seus pontos mais altos, mas claro, isso é sempre discutível. Um dos meus favoritos é o referido Os Laços de Família, que retrata o aniversário dos 89 anos de uma senhora e de toda a sua família que se junta não para apagar as velas, mas para discutir sobre interesses económicos, gerando um mal-estar geral e a revolta da aniversariante. O Búfalo, outro texto marcante da obra, trata sobretudo a decepção amorosa e o ódio contra a vida por parte duma jovem que se encontra num jardim zoológico metafórico onde vários animais se encontram enjaulados, simbolizando a solidão; contudo, os animais amam-se e a personagem (feminina – como em quase todos os contos) encontra num búfalo solitário, um animal com o qual a protagonista se identifica.

Como Clarice Lispector referiu variadíssimas vezes, escrever é viver. É através da escrita que o ser humano se relaciona e se imortaliza, como acabou por suceder com os contos e os romances desta autora lusófona. Contos de Clarice Lispector, editado também pela Relógio D’Água, reúne todos os outros contos que a escritora redigiu, funcionando como um óptimo complemento a este título.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Clarice Lispector «Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres»


Nascida na Ucrânia, esta autora rapidamente se mudou para o Brasil ainda criança devido às convulsões político-sociais que decorreram no início do século passado, nomeadamente o ódio contra os judeus, religião de Clarice Lispector e de sua família. Com apenas 19 anos, a escritora edita o seu primeiro livro Perto do Coração Selvagem, ao qual se seguiu uma carreira controversa onde redigiu obras que são pilares da literatura lusófona do séc. XX, das quais se podem destacar A Paixão segundo G.H., A Maçã no Escuro ou Um Sopro de Vida, romance póstumo.

Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres poderia perfeitamente incluir um ? no final do título, tal é a interrogação a que cada leitor é posto à prova na leitura desta rica obra verdadeiramente introspectiva. A autora tem a preocupação de criar apenas duas personagens e uma estória de amor em torno delas que está longe de ser uma tradicional paixão entre um homem e uma mulher, bem pelo contrário; a narrativa incide na vida de Lóri – diminutivo de Loreley -, uma jovem oriunda de uma família abastada que se muda recentemente de Campos para o Rio de Janeiro e que é professora primária. O amor da vida desta é Ulisses, um homem mais maduro em idade e experiência de vida que é professor universitário de Filosofia. A partir do momento em que se conhecem, a vida de Lóri muda drasticamente.

Lóri teve outros homens na sua vida, mas nenhum lhe tinha colocado o desafio que Ulisses lhe coloca: descobrir-se a si mesma, descobrir o que ela realmente deseja e desfrutar os pequenos grandes momentos da vida. Ulisses é metódico, muitas vezes distante e severo no que à forma como trata a jovem personagem principal diz respeito: ele põe-na à prova. Lóri é obrigada a mergulhar profundamente dentro no seu ser para descobrir quem realmente é e o que deseja fazer com Ulisses. Tal como a própria Clarice Lispector foi em vida, Lóri é complexa, sensível e muitas vezes se interroga sobre pequenos aspectos da vida: sofrer para atingir o bem-estar, sacrificar este bem-estar em troca com uma interiorização densa de uma relação séria com o amor da sua vida. Os diálogos presentes em Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres são curtíssimos e marcados por um tom rígido e ostensivamente sério, originando vários momentos de introspecção.

Lóri não pretende apenas encontrar um amor na sua vida, isso já ela teve antes. Ulisses é aquele com quem ela quer passar o resto da sua vida e com quem ela quer ter a sua primeira experiência sexual. Nesta matéria, Ulisses é paciente e frio: coloca pequenos desafios a Lóri, obriga-a a afastar-se dele durante algumas semanas até que ela ultrapasse a sua própria insegurança e medo. Apenas quando ela estiver pronta deve contactá-lo para consumarem o seu amor. Ulisses tem mais que uma mulher na sua vida – a sua própria casa o indica -, contudo, largará todas as outras companheiras assim que Lóri o informar de que encontrou o que busca incessantemente.

O processo de amar de Lóri transforma este livro numa mera aprendizagem do prazer de amar, numa descoberta do prazer ou até em ambos os casos. Clarice Lispector logrou compor uma obra importante na literatura brasileira a partir de duas personagens com uma densidade psicológica rica que compensam a quase ausência de diálogos ao largo da mesma. Descobrir a obra de Lispector é, no mínimo, altamente recomendado.