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quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Gabriel García Márquez «Os Funerais da Mamã Grande»



É um facto incontornável que Gabriel García Márquez já não vai escrever mais nenhum conto e muito menos um romance devido aos seus graves problemas de perda de memória, porém, ficará para sempre a extensa obra daquele que me parece ser o mais fantástico e cativante contador de estórias da América latina.

Esta obra reúne oito textos repartidos por sete contos e uma novela que dá precisamente o título ao livro, ao largo de aproximadamente 150 páginas e um preço actual que ronda os 5€ em praticamente todos os locais habituais. Se já conhece um pouco da obra de Márquez, se já leu A Hora Má: O Veneno da Madrugada e Cem Anos de Solidão – aquele que António Lobo Antunes classifica como um romance perfeito – certamente que reconhecerá o espaço e o tempo destas estórias: estamos, pois, no final do século XIX/inícios do século XX da famosa aldeia de Macondo, a terra do coronel Aureliano Buendía e outros ilustres.

O pai do realismo mágico elaborou aqui – mais um – grande cruzamento entre personagens que vão aparecendo em vários romances e contos desde, sensivelmente, os anos 60 até ao fim da sua actividade de escrita: um funeral de uma personagem emblemática rainha de Macondo, um dentista revolucionário que tira um dente a um coronel autoritarista, ladrões de bolas de bilhar, pássaros que caem mortos sobre as casas, um padre que viu o demónio três vezes, um carpinteiro que constrói uma das maiores e mais belas gaiolas do mundo, uma viúva com saudades do marido tirano, etc. Tudo isto é Gabriel García Márquez; tudo isto é política, religião, sociedade, ócio e miséria.

A obra é mais que recomendada para os fiéis leitores da obra do Nobel colombiano e um excelente ponto de partida para aqueles que se querem iniciar no universo mágico de Macondo.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Gabriel García Márquez com problemas de memória


Depois de recentemente o irmão de Gabriel García Márquez ter anunciado que o vencedor do Prémio Nobel padecia de demência, Jaime Abello, presidente da Fundação de Novo Jornalismo Ibero-Americano (FNPI), afirmou que na realidade o escritor sobre de perda de memória.

Jaime García Márquez lamentou as perdas de memória e lucidez do irmão e confessou que por vezes aquele não reconhece os amigos e os familiares e que a probabilidade de Márquez voltar a escrever é muito reduzida.

sábado, 28 de abril de 2012

Gabriel García Márquez «A Hora Má: O Veneno da Madrugada»


Alguém anda a colocar pasquins no centro da vila e ninguém sabe quem são os autores, um don juán recebe tiros de caçadeira enquanto anda a cortejar mulheres, um padre anda preocupado com os ratos que povoam a igreja, um alcaide fora da lei - à conta com um abcesso num dos dentes – decreta estado de sítio e recruta um barbeiro e uns homens duros para encontrar a fonte dos pasquins difamatórios.

É assim o universo do terceiro livro da extensa obra do colombiano Gabriel García Márquez, vencedor do Prémio Nobel de 1982, responsável por incontáveis estórias mágicas em redor da aldeia de Macondo e outros locais fictícios do seu país natal. Tido em conta como um dos precursores do realismo mágico, este autor é mestre a contar narrativas ao ritmo de boleros quentes onde personagens vivem a vida num estilo relaxado, apaixonado, mas com fortes doses de violência e justiça pelas próprias mãos, envolvidas num sentido de humor invulgar, com bastante recorrência à superstição e divindades para justificar – em muitos destes casos, para ocultar – um quotidiano adverso, duro e corrupto.

A hora má e seu veneno chegam após Cesar Montero se levantar da cama, sair à rua e constar que havia um pasquim na porta da sua casa a informar que a sua mulher lhe estava a ser infiel: o clarinete do amor de Pastor nunca mais se ouviu na vila graças aos disparos que Montero lhe espetou no bucho. Este é o incidente que despoleta o autoritarismo de um alcaide corrupto, o superior de uma equipa de oficiais também eles corruptos - quase todos eles com cadastro -, que aplica uma lei que obriga o recolher obrigatório de toda a população das 20 às 5 horas para descobrir quem anda a colocar pasquins clandestinos sobre a vida dos habitantes. A restante população vive com o medo que uma nova guerra civil comece, contudo a guerra que mais os preocupa é o dia-a-dia da vila cujo nome não nos é revelado. 

Assassinatos, infidelidades, velhas disputas familiares e muita sabedoria popular e humor fazem parte deste grande romance que só me desapontou um pouco nas últimas páginas. Algumas personagens de Cem Anos de Solidão, o romance mais aclamado de Garbiel García Márquez, também aparecem por cá.