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quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Chuck Palahniuk «Choke»



Quer se queira, quer não, a obra mais bem conseguida de Chuck Palahniuk continua a ser Clube de Combate, um caótico e violento romance sobre a sociedade consumista norte-americana. O resto da obra deste escritor oscila entre o muito bom e o desapontante, uma espécie de yin-yang de um autor de culto com alguns romances adaptados ao cinema.

Choke já foi inclusive adaptado ao grande ecrã por Clark Gregg, em 2008, e creio que este foi um dos factores da minha desilusão em relação ao romance, pois vi o filme primeiro. Evito sempre ver primeiro os filmes porque sei que o livro é sempre melhor, ou quase sempre, pois claro; nesta situação, verifiquei o inverso. Clark Gregg deu um toque diferente às linhas de Palahniuk, conseguiu criar uma certa ligação entre os ataques fingidos de asfixia de Victor Mancini, a personagem principal, e o espectador. A experiência mais traumática que vivi relativamente a pior romance adaptado ao cinema foi sem dúvida alguma Ensaio Sobre a Cegueira, um filme mau demais para ser verdade, uma conversão directa do romance para o cinema. E é uma pena, porque um bom realizador teria tornado um dos romances mais marcantes de José Saramago numa experiência agradável, na pior das hipóteses.

Voltando a Choke, temos na obra a estória de Victor Mancini, um viciado em sexo sem compromisso que cresceu em lares adoptivos e que reencontra a verdadeira mãe quando esta está numa clínica às portas da morte. Victor teve uma infância triste marcada pela ausência da mãe, que passava a maior parte do tempo em instituições psiquiátricas e a fugir da autoridade, raptando-o várias vezes para fazê-lo sentir a vida no limite, sem regras, sem ordem. Uma vida onde o amor não existe e só a dor e a sobrevivência prevalecem. Ora… isto é tão típico em Palahniuk que já aborrece. É embaraçoso quando um autor que sabemos ser criador de estórias e personagens cativantes decide cozinhar sempre arroz. Todos nós gostamos de arroz, mas os legumes também nos são essenciais.

Devido à influência da mãe, Victor dedica-se a fingir ataques de asfixia em restaurantes para que alguém o vá salvar, para que a nossa personagem possa agradecer ao novo herói. Este é um dos mecanismos de defesa da solidão que Victor desenvolveu para sentir o calor humano – isto e o sexo desenfreado. Todos os dias, Victor recebe cartas e postais de dezenas de pessoas que o salvaram de uma morte dolorosa, a asfixia, dirigindo-lhe palavras de conforto e de agradecimento, pois Victor deu-lhes novo alento para continuarem a vida, acreditando que salvaram de verdade alguém – um exemplo de puro altruísmo ternurento palahniukiano. Por outro lado, e como já mencionado, Victor enfrenta problemas relacionados com o sexo compulsivo, maleita que o leva a frequentar um grupo de pessoas que, tal como ele, não têm controlo sobre si mesmas. Pessoas que fazem sexo em qualquer local imaginário, sem qualquer tipo de afectividade, sexo puro e duro. Nem neste grupo Victor encontra a paz, visto que acaba invariavelmente na casa de banho com as mulheres do grupo.

Choke (em português Choke – Asfixia, Casa das Letras) é um projecto sem grande chama, sobre um tema interessante e mal explorado. É tempo de Palahniuk se reinventar, porém, algo me diz que não será através da sequela de Damned.
  
Nota: esta crítica foi baseada na leitura da obra no seu idioma original, o inglês.

terça-feira, 5 de junho de 2012

«Invisible Monsters» revisitado


Depois de ter publicado Invisible Monsters em 1999, o escritor norte-americano Chuck Palahniuk prepara-se para publicar o romance com algumas novidades em relação à primeira edição.  

Invisible Monsters - Monstros Invisíveis, Casa das Letras - fora a única obra do vasto catálogo de Palahniuk que não teve edição em formato de capa dura, situação que se inverte agora esta situação e ainda lhe acrescenta um design diferente mais apelativo. Este "remix" resulta da vontade de o autor ver publicado o livro da forma como inicialmente o concebeu, com mais parágrafos e com mais pormenores interessantes. 

O lançamento no Reino Unido está agendado para o dia 7 deste mês e a norte-americana sai uns dias mais tarde, dia 11.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Chuck Palahniuk «Damned»


«Como se Os Renegados de Shawshank tivessem um filho de Visto do Céu e fosse criado por Judy Blume.». Supostamente, seria desta forma estranha que Damned iria soar, mas na realidade, é difícil compreender como o autor falha redondamente na descrição e execução do mui aguardado romance. Tell-All, como aqui foi explicado, não era um livro encantador, sem embargo, um belo tributo ao cinema da primeira metade do século passado e o aroma noir que nele se sentia, colocando a obra num patamar elevado, ainda que, como referido, pesado a espaços.

Ora, se a ideia da referida obra era cortar um pouco o ambiente da crítica ao consumismo e ao “americanismo” de Pygmy, este Damned volta à velha crítica à sociedade demasiado informatizada e disfuncional que vive para o imediato, imersa em bens e serviços que não precisa. O que falha então? A repetição exageradíssima não só destes conceitos, mas pior que isso, uma repetição constante de uma narrativa aborrecida e um gratuito olhar crítico sobre ideias e mais ideias que já foram vistas mais que uma vez - e não só por parte de Palahniuk. Há escritores cuja temática é, razoavelmente, habitual e dos quais não nos cansamos: o colonialismo de António Lobo Antunes, a Barcelona de Zafón, o realismo fantástico da Colômbia de García Márquez, etc; e o mesmo tinha sucedido com Chuck Palahniuk. Até este livro chegar às minhas mãos. 

«Estás aí, Satanás? É a Madison » inicia todos os capítulos da obra, fazendo referência mais que directa à obra de Blume Are You There God? It's Me, Margaret. Madison Spencer é a personagem central da obra: tem 13 anos, é infantil, gorda, inteligente e foi condenada ao Inferno depois de asfixiada pelo seu irmão Goran, apesar de ela mesma inicialmente acreditar que a causa de morte tinha sido overdose de marijuana. Os pais da pequena Madison são figuras mediáticas dos Estados Unidos da actualidade e dominam o reino de Hollywood. Coleccionam casas no Dubai, Oslo, Copenhaga, Paris, Londres e noutras grandes cidades europeias e coleccionam – como está na moda por parte dos actores do cinema mediático norte-americano – filhos adoptivos. Sim, a família Spencer adquire órfãos africanos, sul/centro-americanos e Balcãs como quem vai ao supermercado comprar pão. Um desses Balcãs, o jovem Goran, ainda traumatizado pelos efeitos que a guerra lhe causou, vê-se inserido numa família disfuncional e acaba por matar Madison, como referido.

Os pais de Madison obedecem aos clichés habituais da salvação do planeta; lutam por um planeta mais ecológico e justo, como ex-punks, rastafaris e anarquistas que foram e agora estrelas do cinema, querem dar o exemplo: orgânico é o melhor – e disso não tenho dúvidas. No entanto, viajam em jactos privados que consumem litros incontáveis de combustível – não tem problema, o interior do avião é ecológico – e têm casas que nunca usam em todas as grandes cidades mundiais, com criados que as guardam e limpam em troco de salários de terceiro mundo. A “piñata” do último aniversário de Madison continha não doces, mas sim haxixe, xanax e outras drogas relaxantes que fazem bem ao espírito e fortalecem o ser. Muito resumidamente, o inferno de Madison já existe bem antes de ela ser enviada para o verdadeiro.

No verdadeiro e escaldante inferno, tudo é gerido por grandes demónios - temos, entre muitos outros, Hades e Baal para impor respeito – e povoado por gente conhecida: Heath Ledger, Catarina de Médici, Hitler, Erzsébet Báthory, Calígula, Ivan III, etc, etc. No Inferno também se trabalha e duro: a Madison é-lhe imposto um posto num call center cuja função é comunicar com os vivos e enchê-los de tristeza, facilitando a sua morte e uma melhor integração posterior na vida do Inferno. Basicamente, a estória de Madison é isto e o recordar dos abusos dos seus pais e amigos. Quando o livro ganha realmente algum ânimo e interesse, ou seja, as setenta páginas finais, é-nos dito que a obra continua (algo que já aconteceu em 2007 com Rant e, até hoje, a sua segunda parte não foi sequer anunciada). A criatividade de Palahniuk apresenta-se em quantidades muito reduzidas, por vezes amadoras: guerra com O Paciente Inglês, o consumismo, a riqueza das grandes famílias norte-americanas, a depressão e traumas que cada personagem exibe e a aquisição de bens materiais supérfluos.

Damned é a grande desilusão da escrita norte-americana do ano, é um livro que poderia ser contado em cem páginas em vez de duzentas e cinquenta e, aí, sim, despertar algum interesse e justificar uma continuação. Infelizmente para Palahniuk e para os seus fiéis leitores – eu e mais uns milhões –, tudo ou quase tudo falha aqui. E é uma pena, tendo em conta o passado do autor. 

Nota: esta crítica foi baseada na leitura da obra no seu idioma original, o inglês.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Chuck Palahniuk «Rant»


A ascensão que Chuck Palahniuk teve desde 1996, altura em que publica o seu primeiro romance Clube de Combate, é de louvar. Desde então, já foram publicadas cerca de onze obras, traduzidas em várias línguas, perfazendo uma média bem interessante de insanidades e revoltas contra a cultura pop, política, consumismo, materialismos vigentes.

A vida de Buster Casey, a personagem principal do livro e também conhecida por Rant, é contada sob a forma de uma biografia oral através de vários testemunhos de personagens que conviveram com ele. Logo nas primeiras páginas é-nos dada a informação de que Rant morreu e, a partir daqui, vamos ouvindo o que os seus pais, amigos e inimigos de infância, professores, colegas de “Party Crashing” e Green Taylor Simms têm a dizer sobre a infância e morte do miúdo que desafiava o medo e a dor.

De facto, Rant não teme a dor física ou psicológica, ele é-nos descrito como alguém que vai adquirindo um sistema de protecção contra aranhas, cobras, escorpiões, formigas, coiotes e outros animais perigosos. Rant não tem medo de enfiar uma mão ou um pé numa toca e ver que tipo de animal lhe vai morder e se o veneno pode pôr em risco a sua vida. Ao fim de variadíssimas acções do género, o seu corpo torna-se em algo composto por cicatrizes de todo o tipo de animais; se ele consegue aguentar estas feridas masoquistas, então conseguirá perfeitamente suportar qualquer tipo de emprego mal pago, casamento, serviço militar ou outro aspecto que poderia eventualmente tornar a sua vida num inferno. Mais: Rant tem um olfacto tão apurado que consegue, através de tampões e preservativos usados ou hálito, identificar uma pessoa e o que ela ingeriu. E nunca falha.

Os dois aspectos fulcrais do romance são o “Party Crashing” e as viagens através do tempo. O “Party Crashing” é uma actividade nocturna que se caracteriza pela decoração de carros, das mais bizarras formas e feitios, com o objectivo de colidirem uns contra os outros, fazendo crer aos demais que observem os choques de que o acidente ocorreu de facto, de que foi real e não uma encenação. Durante estes eventos nocturnos, os “party crashers” transcendem-se ao nível de deuses, esquecendo por completo as suas vidas aborrecidas e as desgraças que daqui inerem. Isto soa familiar a quem já leu Clube de Combate, pois o efeito final procurado é o mesmo: durante os combates todos se esqueciam dos seus empregos aborrecidos e dos catálogos de móveis do IKEA, durante cada combate todos eram iguais, felizes e euforicamente poderosos. Tal como os condutores destes carros.

Determinados acidentes podem resultar em viagens temporais, também. Em Rant e durante o “Party Crashing”, cada embate é encarado como uma forma diferente de estar na sociedade, no quotidiano, e algumas das personagens que relatam a vida de Rant crêem que é possível voltar atrás no tempo para matarem os seus pais e se imortalizarem, ou então, tendo relações incestuosas para se tornarem em algo divino. Neste aspecto, a imaginação de Palahniuk torna-se um pouco confusa e carente de outro tipo de elementos para sustentarem estas viagens temporais. Rant, o seu pai e Green Taylor Simms são referenciados como a mesma pessoa – de acordo com os relatos de alguns –, como se Simms tivesse viajado atrás no tempo e fosse o pai do pai de Rant, o pai de Rant e… Rant. Mas como podem estes três indivíduos coexistir?

A resposta a esta questão está certamente agendada para a parte dois e três de Rant, visto que esta obra foi escrita a pensar numa trilogia. O Sr. Palahniuk surpreendeu-me mais uma vez com esta estória bizarra e mirabolante, e por isso, lhe estou mais uma vez grato. Para este ano está previsto o lançamento de Damned, sem que não haja ainda datas para a continuação desta obra.

Nota: esta crítica foi baseada na leitura da obra no seu idioma original, o inglês.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Chuck Palahniuk «Snuff»


Quem já leu os contos presentes em Haunted, sabe que pode esperar duas coisas do autor: temas com propensão a chocar e exploração sem limites de tabus sociais. Cassie Wright é uma rainha da pornografia que quer terminar a sua carreira em grande ao gravar o seu último filme com o recurso a seiscentos homens. A maior orgia do cinema pornográfico, portanto.

A narrativa é contada através do ponto de vista de quatro personagens, originando assim uma diferente forma de ver a realidade. Mr 600, também conhecido por Branch Bacardi e actor veterano, foi a pessoa que trouxe Cassie para a indústria pornográfica e também foi o primeiro a fazer sexo com ela num filme; Mr 172, Dan Banyan, é um actor da TV em queda que vê neste filme e em Cassie a oportunidade de voltar à ribalta; Mr 72 é um jovem que se apresenta com um ramo de flores e que acredita ser filho de Cassie; finalmente, temos a assistente pessoal de Cassie, Sheila.

A gravação desta longa-metragem terá a duração de apenas um dia e Cassie sabe os riscos inerentes da tentativa de, em 24 horas, fazer sexo com seiscentos homens diferentes: a morte. Ela vai tentar bater o recorde de Annabel Chong, que em 1995 fez sexo com duzentos e cinquenta e um homens (número intransponível até à data). Chuck Palahniuk é, para quem não sabe, homossexual assumido, o que não o impede de ter conhecimentos profundos sobre a pornografia heterossexual, mencionando nomes de filmes um pouco num estilo idêntico ao de Tell-All. A investigação que Palahniuk faz sempre sobre cada tema de cada romance seu é profunda e em bom estilo jornalístico, ficando sempre a sensação de que as comparações e alusões na narrativa são correctas e verídicas.

Ao contrário do que se poderia esperar num livro desta natureza, as cenas pornografia são quase inexistentes e deixadas sempre para segundo plano, preferindo o autor fazer referências da vida pessoal dos três candidatos, de Sheila e de personagens marcantes do séc. passado, como é o caso de Marylin Monroe. Cassie é descrita como uma espécie de ser inanimado, desumanizado, que quer apenas imortalizar-se e esquecer a vida de actriz. A exploração das mulheres nesta indústria, a temática da tentativa de incesto por parte do suposto filho de Cassie e o que o ser humano faz para se manter no topo num jogo de mentiras e aparências, são um dos pratos fortes do livro.

Neste livro fica a aprender coisas sobre, por exemplo, Marilyn Monroe, que usava o pseudónimo de Zelda Zonk para ter privacidade, que lia regularmente, que era culta e que para manter a beleza tomava drogas e se metia em banheiras de água gelada para manter o corpo rijo e perfeito. Chuck Palahniuk consegue criar ambientes de repulsa e transportar-nos para esses mesmos espaços, nomeadamente a sala dos bastidores que prima pela falta de higiene e abundância de gordura das batatas fritas de pacote. Apesar da pornografia ser um tópico que vende bem, Snuff é um livro com os seus momentos chocantes, sim, mas muito honesto e de bom valor.

Nota: esta crítica foi baseada na leitura da obra no seu idioma original, o inglês.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Chuck Palahniuk «Tell-All»


Chuck Palahniuk é um dos autores mais criativos das últimas décadas. Digo isto, porque poucos conseguem atingir o seu nível, acabando pelo calcanhar. Vai ficar na História da literatura do final do séc. XX e do início do séc. XXI até que a morte tenha a infelicidade de o levar. Depois de enterrado, restará um legado rico em contos e estórias fantásticas, chocantes, inovadoras e profundamente humanas, acima de tudo.

Até que Damned saia lá mais para o final deste ano, pode-se entreter com a colheita do ano passado: mais um grande ano para a literatura, de onde sobressaem facilmente Verão de J.M. Coetzee, Sunset Park de Paul Auster, Livro de José Luís Peixoto, A Máquina de Fazer Espanhóis de Valter Hugo Mãe e, pois claro, Tell-All de Chuck Palahniuk. Este último é mais uma agradável forma de desmascarar aqueles que têm tudo e aqueles que nada têm. Os que têm tudo, inventam todo o tipo de esquemas para que os restantes acreditem que eles realmente têm uma vida fantástica e que vivem num conto de fadas; aqueles que nada têm, acabam mesmo por nada ter, a não ser uma mente muito distorcida (em certos casos).

Palahniuk presta aqui uma homenagem ao grande cinema de Hollywood da primeira metade do séc. XX, mencionando massivamente actores, produtores, realizadores e outros famosos da época em “bom” estilo síndrome de Tourette’s: Mickey Rooney, Joan Crawford, Walter Winchell, Lillian Hellman, J.F. Kennedy, Jean Negulesco, Samuel Beckett, Sarah Bernhardt, etc, etc. A narrativa é-nos apresentada em tom “noir”, recriando peças de teatro (cada capítulo é-nos apresentado como “Acto ‘x’, cena ‘x’) e um grande filme que mistura ficção e História. Esta grande produção é descrita por Hazie Coogan, a criada doméstica da grande estrela do cinema Katherine Kenton, uma mulher artificial e extremamente obcecada pela imagem que passa aos outros. Coogan vai-nos contado como consegue preservar a imagem da Sra. Kenton e também como afasta os interessados no amor da sua ama. Pelo meio, há o charmoso Webster Carlton Westward III que conquista o coração de Kenton e Lillian Hellman, escritora de um musical que terá Katherine Kenton como estrela principal.

Após descobrir que Webster Carlton Westward III tem planeado o assassinato e uma autobiografia” best-seller“ da sua patroa, Coogan tentará arranjar formas de manter Katherine Kenton viva e de desmascarar o vigarista. Contudo, e como é apanágio em Chuck Palahniuk, nem tudo é o que realmente parece e dão-se bizarros acontecimentos ao longo da estória. Assim do nada.

Tell-All está longe de ser um livro para entreter e de leitura fácil. É um tributo ao "glamour" do velho Hollywood, escrito numa maneira muito própria para enjoar o leitor ao longo de páginas e mais páginas de cuspidelas de nomes e mais nomes de famosos do passado. O carácter das personagens do livro impede também o leitor de sentir qualquer tipo de simpatia ou empatia por elas. Um romance inesperado de um dos escritores mais extrovertidos da actualidade.

Nota: esta crítica foi baseada na leitura da obra no seu idioma original, o inglês.

terça-feira, 29 de março de 2011

Chuck Palahniuk «Pygmy»


Chuck Palahniuk há muito que ficou conhecido por ser um autor difícil de criticar por parte dos críticos. Ou porque não gostam dele, ou porque não percebem os livros, a verdade é que o autor vai criando uns grupos de críticos que o odeiam profundamente. Ser norte-americano e criticar os valores capitalistas, consumistas, anti-laicistas e a democracia obsoleta pela qual aquele país se rege, não é tarefa fácil. O culto anti-Palahniuk vai ganhando adeptos que começaram a juntar-se na altura em que o autor editou Clube de Combate, alvo de censura e ferozes críticas conservadores e religiosas.

É com felicidade que também se pode constatar que o grupo de seguidores de Palahniuk é enorme, muito enorme. Desde que David Fincher decidiu adaptar o primeiro romance de Palahniuk ao cinema, o culto aumentou exponencialmente – não é à toa que o site do autor é conhecido como “the cult”. Pygmy, de todo o vasto catálogo de Palahniuk, será talvez aquele de maior dificuldade em termos de sua leitura e aquele pelo qual não se deve começar a ler primeiro. Passo a explicar: a linguagem utilizada neste livro aparenta ser infantil – é-o, em determinados momentos –, e mal construída gramaticalmente e com um número muito grande de palavras estranhas e mal empregues. Exemplo: “Para registo oficial, família americana inventar plenitude de rótulos absurdos para cristianizar filha primogénita”. Deve ser lido da seguinte forma: “Na realidade, as famílias americanas inventam muitos nomes de baptismo absurdos para as suas filhas”. Este exemplo não traduzido está presente em todos os momentos da obra.

O nosso narrador é o Agente 67, apelidado de “Pigmy” (em português “pigmeu”) devido à sua baixíssima estatura. "Pygmy" é uma criança de 13 anos oriunda de um país totalmente desconhecido e de carácter totalitário, aparentemente comunista – durante o livro há citações e referências, a Mao Tse-Tung, Pinochet, Kim Jong-Il, a… Hitler e outros ditadores - que faz parte de uma organização terrorista chamada The Havoc – similar ao Projecto Destruição de Clube de Combate. Cada agente é inserido numa família norte-americana, apresentando-se como aluno de programas de intercâmbio estudantil, com o objectivo de  tomar controlo do país, destruindo o sistema capitalista. Os agentes masculinos devem também engravidar as mulheres norte-americanas e as agentes femininas devem ficar grávidas de norte-americanos.

O nosso agente 67, de aspecto franzino, é na realidade um especialista em artes-marciais e mortal na hora de assassinar – para tal foi treinado. Ele é dotado de golpes que incluem o “Pontapé da Morte Voador Gigante da Cegonha” e a “Manobra de Morte Rápida da Cobra Atacante” e em determinadas cenas utiliza estes e outros golpes saídos de um velho filme chinês revisitado por Tarantino. “Pygmy” vive com a família Cedar, que aparenta ser perfeitamente normal, constituída por Pai Vaca, Mãe Galinha, Irmã Gata e Cão Porco Irmão (pai, mãe e filhos). Como se de um episódio de South Park se tratasse, Pygmy é uma hilariante e envolvente sátira ao chauvinismo, à homofobia, à religião e ao consumismo capitalista dos Estados Unidos da América. Ao ler Pygmy e ver South Park, é impossível não nos lembrarmos de Team America ou dos Simpsons. Ao longo de todos os capítulos, há um relatório que “Pygmy” escreve para enviar para o seu país de origem _____ na cidade de _______ na noite de __________. 

Escriba operativo eu insere recomendação alta nesta nota despachante baseado em sujeito masculino do país estrelas pálidas no mar e riscas comunistas. Observação nos cadernos Choke – Asfixia, Monstros Invisíveis e Snuff de importâncias grandes ao mesmo tempo também. 

Nota: esta crítica foi baseada na leitura da obra no seu idioma original, o inglês. 

segunda-feira, 14 de março de 2011

Chuck Palahniuk «Clube de Combate»


Pode parecer que não, mas esta obra foi várias vezes censurada pela crítica e pela própria editora. Pode também parecer que não, mas aquilo que viu nos cinemas e agora pode ver no conforto do seu lar é uma mera adaptação de um romance de Chuck Palahniuk, uma das mais brilhantes e inovadores mentes da literatura norte-americana contemporânea. Clube de Combate foi publicado pela primeira vez em 1996 e, apenas três anos volvidos, foi adaptado ao cinema pelo realizador David Fincher (7 Pecados Mortais, A Rede Social, O Estranho Caso de Benjamin Button).

Um homem na casa dos 30, responsável pela segurança da linha de produtos numa empresa de automóveis, devorador dos catálogos e produtos da IKEA parece levar uma vida de sonho. Este homem, cujo nome nunca é referido, sofre de depressão e insónias crónicas. O seu médico diz-lhe que a insónia nunca matou ninguém e o melhor para ele é mesmo ir ao ginásio fazer desporto para ficar cansado e, consequentemente, ficar com sono. Este homem decide ir a grupos de terapia para pacientes com doenças graves, onde conhece Marla: uma pessoa que tal como o narrador/personagem, passa as noites nestes grupos. Numa viagem de avião, o narrador/personagem finalmente conhece Tyler Durden, um tipo cuja filosofia se baseia na autodestruição como meio para tornar a vida merecedora de ser vivida, ao contrário da realização pessoal, que é para os fracos. Depois do apartamento da personagem principal (vamos chamar-lhe “?”) ter explodido, ? decide ligar a Tyler para irem beber um copo. No final, começam a lutar um com o outro e formam o Clube de Combate.

A primeira regra do Clube de Combate é: não falar do Clube de Combate. A segunda regra do Clube de Combate é: NÃO falar do Clube de Combate. A terceira regra do Clube de Combate é: se alguém disser “pára” ou ficar coxo, a luta termina. A quarta regra do Clube de Combate é: dois homens por combate. A quinta regra do Clube de Combate é: um combate de cada vez. A sexta regra do Clube de Combate é: nada de sapatos nem de camisas. A sétima regra do Clube de Combate é: os combates levam o tempo que tiverem que levar. A oitava regra do Clube de Combate é: se hoje for a vossa primeira noite no Clube de Combate, vão ter que lutar.

Tyler é o oposto de ?: ele é perito em fazer bombas artesanais, é contra o consumismo e capitalismo e adora destruir para criar. O Clube de Combate rapidamente se espalha por todos os Estados Unidos, ganhando cada vez mais adesão de homens que levam vidas miseráveis e que encontram nos combates um escape à rotina. Todos eles estão dispostos a dar a vida por Tyler Durden. À primeira vista, a obra poderia parecer uma tentativa fácil e gratuita de promover a violência como forma de vida. Não é esse o caso. Na realidade, Chuck Palahniuk é o primeiro a condenar a violência, chegando mesmo a gozar com ela. Não existe Tyler Durden… ou melhor, existe quando ? adormece. Passo a explicar: o nosso personagem principal é um indivíduo esquizofrénico que se transfigura sempre que adormece. Se ele adormecer, Tyler entra em cena e causa caos. Portanto, ? assim que descobre que tem personalidade dupla, procura junto de Marla uma forma de se manter sempre acordado para evitar que males piores aconteçam. 

Durante um ataque de um dos grupos de Tyler, Bob morre. Bob é um ex-culturista que ? conhece num grupo de terapia e com quem trava amizade. Bob sofre de cancro nos testículos e tem mamas de mulher devido aos esteróides que tomou. O sentimento de revolta de ? perante a morte de Bob, é um sentimento de acabar de forma racional com a existência de Tyler Durden. Clube de Combate nunca poderia ser um livro escrito para causar sensacionalismo gratuito. McDonald’s, IKEAs, Coca-cola e todos os produtos que nos impingem no dia-a-dia (capitalismo/consumismo, no geral), o medo de enfrentar os problemas (recorrendo a comportamentos violentos) e o viver a vida no extremo da sanidade, são alguns dos temas abordados nesta grande obra.

Estamos perante uma obra que conta já com milhões de seguidores no cinema e com um número significativo de leitores que seguem o culto deste escritor com grande devoção - daqui a alguns anos, esta obra será elevada ao nível de Laranja Mecânica, de Anthony Burgess. Clube de Combate é um livro fundamental para se perceber o mundo distorcido e transgressor em que Chuck Palahniuk vive e do qual se alimenta.