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terça-feira, 25 de setembro de 2012

António Lobo Antunes e José Luís Peixoto no Pris Femina 2012

    
António Lobo Antunes e José Luís Peixoto são finalistas do Pris Femina deste ano. António Lobo Antunes e José Luís Peixoto, que comemoraram recentemente 70 e 38 anos, respectivamente, integram uma lista de romancistas estrangeiros que conta com Juan Gabriel Vásquez e Yan Lianke, entre outros.

Antunes, que editará no próximo dia 8 de Outubro o seu novo romance Não É Meia-Noite Quem Quer, é finalista com o romance O Arquipélago da Insónia (2008) e Peixoto com Livro (2010).

Novo romance de António Lobo Antunes


O novo romance de António Lobo Antunes intitula-se Não É Meia-Noite Quem Quer e tem data prevista de lançamento para 8 de Outubro.

O enredo do livro desenvolve-se em três dias, sexta-feira, sábado e domingo. Uma mulher com perto de cinquenta anos vai passar um fim-de-semana na casa de férias da família, numa praia não identificada. A casa, modesta, foi vendida e ela quer despedir-se da casa, mas também relembrar tudo o que se passou ali - a sua infância com os pais e os irmãos, o suicídio do irmão mais velho, o irmão surdo-mudo, o complexo e dramático relacionamento dos pais, a menina da casa em frente, sua amiga do tempo de férias. Vem depois a sua vida actual, mal casada, sem filhos, professora numa escola como tantas outras, com uma relação frustrante e sem entusiasmo com uma colega mais velha... O falhanço que é a sua vida reflecte-se na casa há muito desabitada e nos sonhos de todos eles, ali irremediavelmente enterrados. A despedida da casa pode levá-la a imitar o irmão mais velho e, no domingo, atirar-se das arribas e encerrar ali uma vida sem futuro.

O romance será editado pela D. Quixote.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Gonçalo M. Tavares e Lobo Antunes finalistas do Prix Médicis 2012


Os portugueses António Lobo Antunes e Gonçalo M. Tavares integram a lista dos oito finalistas do Prix Médicis deste ano, na categoria de melhor romance estrangeiro. Juan Gabriel Vásquez, Margaux Fragoso, Ferdinand von Schirach, Vassili Golovanov, Avraham B. Yehoshua e Alejandro Zambra são os outros candidatos.

Lobo Antunes concorre com Arquipélago da Insónia, de 2008, e Tavares com Viagem à Índia, de 2010. O vencedor deste prémio literário será conhecido no dia 6 de Novembro.

sábado, 21 de julho de 2012

António Lobo Antunes «O Esplendor de Portugal»


«Heróis do mar, nobre povo,
Nação valente, imortal
Levantai hoje de novo
O esplendor de Portugal!
Entre as brumas da memória
Ó Pátria, sente-se a voz
Dos teus egrégios avós
Que há-de guiar-te à vitória.
Às armas, às armas,
Sobre a terra, sobre o mar!
Às armas, às armas.
Pela Pátria lutar!
Contra os canhões, marchar, marchar.»

O excerto do nosso hino nacional que antecede o este romance do António Lobo Antunes poderia facilmente sugerir uma glorificação a Portugal. Desde os tempos em que o nosso povo se embrulhou com os britânicos (onde se lê “canhões” lia-se “bretões” na versão original de A Portuguesa), das conquistas asiáticas, africanas e parte do continente americano, temos uma certa tendência a viver do passado e não é à toa que temos uma palavra única sem tradução directa no mundo: a saudade. É isso mesmo, foi pela saudade que Salazar enviou milhares de inocentes para combater pela extensão territorial da Metrópole, como se sabe, mas as coisas ainda se complicaram mais quando Portugal decidiu entregar os territórios africanos e não soube domar essa transição.

Uma família que viveu em Angola e que se viu obrigada a retornar a Portugal sugere a dificuldade a má gestão humana e geográfica dos governos portugueses que não protegeram aqueles que se encontravam a viver em Angola de forma honesta, aqueles que se sentiam angolanos, aqueles que reconheciam a igualdade a todos os níveis entre o povo português e o angolano. Mas neste esplendor altamente satírico à pobreza material e espiritual de um povo que conquistou metade do mundo, há quatro personagens que vão narrando os acontecimentos desde os primeiros tempos do domínio salazarista sobre Angola, passando pelo 25 de Abril, guerra civil angolana e total independência do país, sensivelmente até 1995, data da última narração neste romance. As personagens são três filhos e uma mãe que oriundos de uma família que enriqueceu com a exploração dos escravos negros e que construiu laços e negócios de exportação sólidos com outros grandes países europeus e norte-americanos. 

Dois desses filhos são bastardos fruto de relações extra-conjugais entre um pai, que aparece a falar ao longo de alguns capítulos, e uma mãe de uma zona pobre, que decide entregar-lhe a criança a troco de dinheiro. Numa casa de várias traições amorosas onde o luxo não suprime a falta de carinho que algumas personagens desabafam, quase todos se dão mal, especialmente a mãe e Carlos, um mulato desprezado pela própria avó. Os três filhos são enviados para Portugal sensivelmente quando a guerra civil rebenta e as milícias angolanas andam a pilhar e destruir o império português, de onde, como sabemos, os portugueses eram perseguidos. Muito sangue, muita tragédia e muito saudosismo de personagens que experienciam o auge e o declínio do salazarismo em Angola.

O Esplendor de Portugal é obviamente um retrato satírico não só do declínio geográfico e económico, mas também de um povo que vive ainda no passado e que se lamenta por isso. Apesar de ser um bom livro, as cerca de 412 páginas do livro revelam-se pesadas a determinada altura, caindo facilmente na repetição de ideias – ainda que esta técnica de “tortura” seja habitual em António Lobo Antunes.

sábado, 16 de junho de 2012

António Lobo Antunes «D'este Viver Aqui Neste Papel Descripto – Cartas de Guerra»


Esta é uma das raras oportunidades que o leitor tem de ficar a saber a vida privada de António Lobo Antunes. Esta compilação de cartas que o autor escreveu à sua esposa enquanto esteve na Guerra Colonial, é uma porta para conhecermos o lado mais apaixonado e carinhoso de um dos grandes escritores da actualidade.

As cartas espelham a miséria e horrores de um jovem que não assistiu ao nascimento da sua primeira filha e que pouco tempo teve para estar a sua esposa após o casamento. Sonhador e irreverente, Lobo Antunes nunca quis ir para a guerra, jamais pediu para viajar para Angola e estar só, rodeado de morte e fome. As cartas revelam um ser humano de uma capacidade única para ultrapassar o sofrimento de um pai e marido ausente, um homem que escreveu um romance num regime de incerteza em relação ao amanhã. 

Um dos aspectos mais interessantes nesta obra é o António Lobo Antunes que redigiu o seu primeiro romance por volta de 1972, intitulado Voo – Crónica da Morte Portuguesa, um livro que incidia sobre Portugal e a sua sociedade, temática amplamente explorada na sua vasta obra. Depressivo, mas com uma grande capacidade de sofrimento, este autor viveu quase exclusivamente da força que a sua primeira esposa lhe deu, constantemente apaixonado e grato pelo casamento. Não raras vezes encontramos o autor a ler e a criticar romances e escritores, ficamos também a saber que os escritores latino-americanos, como é o caso de Gabriel García Márquez, eram naquela época os maiores, sem descurar a importância de Louis-Ferdinand Céline, entre outros pertencentes a um lote restrito. 

O leitor sentir-se-á quase sempre intrometido na vida privada do autor, um sentimento de intromissão; certamente que partilhará a angústia e tristeza de quem se viu privado do nascimento da sua primeira filha e que resistiu ao desgaste de uma guerra. A progressão emocionante da narrativa confere a estas cartas de guerra uma costela de romance.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Precisamente


«A cultura assusta muito. É uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo de escravos.»

― António Lobo Antunes

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

António Lobo Antunes «Quarto Livro de Crónicas»


Ao quarto livro, mais setenta e nove crónicas. António Lobo Antunes escreve com regularidade para a revista Visão desde há uns anos para cá, onde são publicados textos que se destacam pela sua melancolia contrastante com o humor do autor, e a D. Quixote encarrega-se depois de fazer a sua compilação, como acontece neste agradável Quarto Livro de Crónicas – o primeiro data de 1998.

Ao largo destas quase oitenta crónicas, António Lobo Antunes viaja pelo seu passado, recuperando as memórias da infância em Nelas e Benfica, dos avós e dos pais, da mercearia do Sr. Casimiro, da caça às lagartixas, das travessuras, dos professores da escola, dos amigos, da escrita precoce ou da aptidão para jogar hóquei. A guerra colonial em Angola é também assunto em destaque, fazendo Lobo Antunes questão de mostrar ao leitor o carinho, os maus momentos e a saudade que nutre pelos seus camaradas – alguns já mortos - sempre que pensa neles ou quando há jantares de reunião e convívio entre velhos amigos que são, no fundo, irmãos de guerra (AcácioAntónioAcácioAntónioAcácioAntónioAcácioAntónio). António Lobo Antunes estabelece diálogos íntimos consigo mesmo e com quem o lê, retratando muitas vezes o seu processo de criação dos seus livros (Onde o Pobre Escritor Começa), o que o motiva a escrever, a força que ele busca, por vezes, para conseguir dactilografar uma boa crónicas e quando deita fora alguns capítulos de um livro que nunca chega a ser livro, conduzindo-o à estaca zero – e lá começa de novo o processo, culminando com o êxito que é reconhecido pela imprensa e pelo leitor fiel - Crónica com Buganvílias: «(…) Fazer livros é uma tarefa que não associo ao prazer. E, no entanto, que outra coisa verdadeiramente me interessa? Além do mais tornou-me humilde, isto é, deu-me um orgulho humilde.».

António Lobo Antunes escreve também sobre alguns escritores que o marcaram (O Capitão da Areia), alguns seus amigos, outros que nunca conheceu; porém, há crónicas cujo título remete de imediato para o sujeito em questão: (Miguel Torga, Juan Marsé). Convém ressalvar que nestas crónicas há um sentimento de saudade predominante – infância, adolescência, pai e avó, principalmente -, um sentimento de tristeza relativo à guerra colonial e um enorme sarcasmo hilariante que o autor descobre para amenizar e tornar divertida toda a melancolia aqui descrita – há também o regresso à já conhecida crónica sobre os dentistas, A Cadeira do Dentista, a mais cómica deste Quatro Livro de Crónicas.  

sábado, 22 de outubro de 2011

António Lobo Antunes «Comissão das Lágrimas»


António Lobo Antunes, enquanto escritor, não para de me surpreender, e como leitor, fico surpreendido a cada obra que tenho o prazer de ler e de, por vezes, escrever o que sinto, o que ouço e o que vejo em cada linha das páginas constituintes de belos romances, baseados geralmente em acontecimentos da vida de Lobo Antunes. Cada livro que compro é garantia de satisfação, interrompida por breves dores de cabeça saudáveis que me deixam na dúvida e obrigam a raciocinar a um ritmo de decifração acelerado.

Comissão das Lágrimas remete de imediato para Angola e para a carnificina do movimento de independência que ocorreu naquele país africano. Em 1977, Agostinho Neto entra em rota de colisão com a tentativa do golpe de Estado levado a cabo por Nito Alves, procedendo à eliminação de todos os que participaram no golpe e todos os que poderiam eventualmente ter afinidade com o mesmo; daqui resultaram milhares de mortos. Para este julgamento dos opositores ao regime, foi criado um tribunal inquisidor intitulado precisamente de Comissão das Lágrimas, liderado pelos braços direitos de Neto. O massacre deu-se na Cadeia de São Paulo, nas casas das vítimas e nas ruas, baseado em listas de alvos a abater definidos pelo governo. Entre essas vítimas estava Elvira, uma guerrilheira do MPLA que supostamente cantou e cantou enquanto foi mutilada pelas forças angolanas do novo governo, auxiliado pelos comunistas cubanos.

Embora a obra seja baseada nestes factos históricos, ela é-nos contada por Cristina, filha de uma imigrante portuguesa branca e de um pai negro, ex-padre, agora ao serviço do governo, que também eles se intrometem na narração da história. Cristina esteve apenas cinco anos em Angola antes de regressar a Lisboa e, no entanto, recorda-se – aparentemente – da vida dos pais em Luanda: a mãe uma dançarina que se prostituía numa casa de alterne, que nos é descrita como uma «fábrica/modista/escritório»; o pai abandonou em jovem os caminhos de Deus para interrogar e torturar agora os desertores e opositores do regime, vendo-se ele próprio mais tarde perseguido e obrigado a fugir com a família para Lisboa. Linearmente, pode ser esta a sinopse do último da extensa lista de romances do autor. Mas, e como é habitual na escrita e temática de Lobo Antunes, as personagens vivem num mundo caótico de realidade vs fantasia, afirmando algo que parece verdade aqui, ora algo que já contradiz essa mesma verdade acolá. Cristina está internada numa clínica, ouve vozes e comunica com os objectos que a rodeiam, num estado de verdadeira esquizofrenia, contribuindo para uma narração alucinada dos acontecimentos que ela, a mãe e o pai (com avós e tios à mistura) vão descrevendo.

Ao longo de mais de trezentas páginas são-nos oferecidos retratos de mortes e mais mortes na cadeia, em valas, na rua, em tudo quanto é terra em Angola, acompanhado por uma musicalidade rápida que Lobo Antunes imprima na sua escrita, deixando o leitor confuso e desgastado com tanta imagem e som que lhe desperta – analepses, elipses e prolepses juntam-se para um pezinho de dança com bastante frequência. Como referido anteriormente, linearmente a obra pode ser interpretada como mais um retorno a Angola e às angústias de Lobo Antunes, convém, no entanto, ressalvar, que a questão dos retornados portugueses é outra das ideias de fundo que é explorada no livro. Cabe ao leitor interpretar e digerir da melhor forma o prato que lhe é servido, distinguindo os delírios e a realidade da escrita de uma das maiores figuras da Literatura mundial.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

António Lobo Antunes «Tratado das Paixões da Alma»


Tratado das Paixões da Alma é o primeiro romance da trilogia apelidada de “ciclo de Lisboa”, composta por A Ordem Natural das Coisas e A Morte de Carlos Gardel. Este ciclo comporta a infância e adolescência de António Lobo Antunes e a sua vida em Benfica, Lisboa, recheada de lembranças dos seus amigos e da relação que tinha com os seus familiares, acontecimentos que marcaram o autor e que o mesmo nunca mais esqueceu.

Homem, inicialmente assim apresentado, é um indivíduo que pertence a uma organização terrorista e que se encontra preso a prestar declarações perante o “cavalheiro” e pelo Juiz de Instrução, de seu nome Zé. Ao largo da estória, o Homem revela chamar-se Antunes, e mais tarde António Antunes, sendo que o Juiz de Instrução tem o nome de Zé. A primeira conclusão que se pode retirar, é obviamente que Tratado das Paixões da Alma tem como personagem principal o próprio autor, intercalando os parágrafos com Zé e com outras personagens (algumas da rede terrorista: Sacerdote, Artista, Estudante, etc), ainda que durante a grande parte das páginas haja um parágrafo para o Juiz e outro para o Homem, respectivamente.

Se António (Lobo) Antunes é o Homem, Zé, o juiz, poderá ser o seu grande amigo já falecido José Cardoso Pires. Apesar de durante o livro todo não surja qualquer tipo de referência a “Cardoso” ou a “Pires”, não devemos excluir a possibilidade de que José Cardos Pires seja mesmo a personagem Zé, o Juiz: José Cardoso Pires aparece muitas vezes nas crónicas de Lobo Antunes como “Zé” e sempre tratado com um enorme carinho. A existência de uma rede terrorista e de Zé e António Antunes passarem o tempo na esquadra, serve apenas de pano de fundo para as lembranças de infância e adolescência que ambos partilharam em Benfica, sendo este sim, o verdadeiro tema do romance. 

Zé e os seus pais são os caseiros duma quinta que pertence ao avô de Antunes, onde também vive António e os seus pais, e durante o período em que Zé e António conviveram, apercebemo-nos de que havia uma grande amizade entre os dois – melhores amigos do mundo -, onde não faltaram travessuras e situações verdadeiramente cómicas, escritas numa linguagem muito própria a que o autor já nos habituou: “- Repara no que o teu Avô me fez à boca, nota só o inchaço da gengiva, lamentou-se o meritíssimo a exibir o beiço ao Homem, dobrando-o, com os polegares, no sentido do queixo. Não me partiu um dente em bocadinhos por acaso, não me convides mais para fumar que o velho deixa-me em picado num segundo”

Tratado das Paixões da Alma, publicado em 1990, é um romance importante na vasta obra de António Lobo Antunes. A guerra colonial abordada de forma exaustiva nos seus prévios registos aparece aqui com pouca relevância, dando-nos espaço para conhecermos melhor o crescimento do jovem Lobo Antunes em Benfica e isso acaba por se tornar essencial na compreensão de um autor tão auto-biográfico como este.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

António Lobo Antunes «Conhecimento do Inferno»

 
Conhecimento do Inferno é a terceira obra do extenso catálogo de António Lobo Antunes a ser publicada e é também o livro que encerra uma trilogia iniciada com Memória de Elefante, seguida de Os Cus de Judas, terminada com este romance no curto espaço de um ano: 1979-1980.

A história acaba por se tornar estória e vice-versa, na medida em que – como é marca habitual do escritor – a narrativa se intercala com recordações e experiências vividas em Angola e no Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa, com diálogos com a pequena Joana (a segunda filha de António Lobo Antunes, nascida em 1973, ano em que o autor regressa a Portugal) e personagens e acontecimentos fictícios. Aqui o narrador é ao mesmo tempo personagem principal e também o autor da obra: António Lobo Antunes é o nome da personagem principal, apresentando-se tanto na primeira, como na terceira pessoa.

António Lobo Antunes embarca numa viagem solitária de automóvel desde o Algarve até Lisboa, no espaço de um dia, recordando através de bastantes analepses os momentos duros que passou na Guerra Colonial de Angola como tenente médico do exército português e todas as atrocidades típicas de uma guerra sangrenta a que assistiu, desde amputações, partos e outros vários tipos de cirurgias que lhe deixaram claras marcas até hoje. A forma como a psiquiatria em Portugal e particularmente no Hospital Miguel Bombarda funcionava na época em que regressa de África, onde iniciou a carreira de psiquiatra, é o segundo ponto de foco da obra. As pobres condições de trabalho e o tratamento desumano que os pacientes internados e tratados no hospital viviam - para além de situações caricatas como a de um noivo que, para fugir ao casamento, se tenta internar – são alvo de jocosas críticas por parte do narrador/personagem/autor em cenas que, por vezes, atingem o surrealismo.

Este livro causou enorme polémica, na medida em que o autor que recebeu ameaças por parte hospital em questão e de muitos psiquiatras que se sentiram incomodados com a realidade descrita em Conhecimento do Inferno, tornando esta obra ainda mais apelativa e essencial. Quem já leu Memória de Elefante e Os Cus de Judas, vai compreendê-la melhor, embora não constituam requisito obrigatório para descer um pouco ao inferno da alma e solidão que António Lobo Antunes nos propõe.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

António Lobo Antunes «Sôbolos Rios que Vão»


Sôbolos Rios que Vão é um poema de Luís Vaz de Camões e o último romance de António Lobo Antunes. Se na anterior obra, intitulada Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar?, António Lobo Antunes tentou criar uma obra “perfeita” (nas palavras do autor) ou “O livro”, este novo romance não entra por esse caminho e oferece ao leitor uma viagem autobiográfica – ao contrário de mais um livro de crónicas  que o autor tinha prometido nos finais de 2009, se não me falha a memória. 

A temática gira à volta da grave doença que atingiu o autor entre o final de Março e o início de Abril de 2007 e de tudo aquilo que ele sentiu, chorou, sonhou e reviveu enquanto esteve hospitalizado. Sem margem para grandes dúvidas, este mergulho no rio que lá foi é a obra mais intimista, íntima e humilde escrita até à data; nos anteriores romances, o recurso a aspectos pessoais e sociais que Lobo Antunes experienciou era bem patente: o amor pelo avô, a casa em Nelas, as tias salazaristas, o pai que o obrigou a ir estudar Medicina, a adolescência vivida em Benfica, Lisboa, o horror da guerra colonial onde ele foi forçosamente enviado como médico, a riqueza da sua família, o anti-fascismo e outros temas abordados são transportados para um patamar mais intimista – como referido atrás – numa espécie de confissão do silêncio, da humilhação, da saudade e do valor dado à vida. Lobo Antunes está consigo da primeira à última página: desabafa a doença nos intestinos (os “ouriços”, como ele se refere à doença) na primeira e na terceira pessoa, insistentes diálogos directos, mistura de narrativas e personagens – a que ele já nos habituou –, sentimento de náusea e tristeza contrastados com os húmidos olhos que “Antoninho” e “Antunes” choram no seu ombro.

Os livros de António Lobo Antunes não são destinados a todos os leitores – ou pelo menos, nem todos vão gostar ou compreendê-los – e este em especial deve ser lido apenas por aqueles que já conhecem as suas obras e que sabem um pouco da sua vida. Partilho com o leitor a felicidade e a desolação do meu fortuito encontro, após a cirurgia, com um lobo solitário e da forma como vê-lo com a audição parcialmente diminuída e o cansaço evidente nos seus movimentos e olhos me deixou com um amargo sorriso. Mas isso não interessa para nada: leia este diário.