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quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Haruki Murakami «Em Busca do Carneiro Selvagem»


Publicado em 1982, Em Busca do Carneiro Selvagem é a terceira obra no extenso cardápio do japonês Haruki Murakami em termos cronológicos, ainda que eu tenha o mau hábito de saltar de romance em romance e ignorar as datas. Este metafórico romance encerra a trilogia do Rato, composta por Pinball, 1973 (1979) e Hear the Wind Sing (1980), que infelizmente para os leitores portugueses, não se encontram traduzidos na nossa língua.

Dança, Dança, Dança (1988), editado por cá pela Casa das Letras, não faz parte desta trilogia mas dá continuidade à estória deste romance – está em lista de espera nas minhas leituras. Comparando em retrospectiva todos os romances que já li deste senhor, notei um franco aumento qualitativo em relação à escrita e criação de personagens marcantes, a par do prazer que dá ler Murakami; aqui neste romance nota-se alguma inexperiência, se assim lhe pudermos chamar, em relação aos seus romances mais recentes. Dissipo toda e qualquer dúvida: Em Busca do Carneiro Selvagem é um bom livro carregado de excelentes ideias… que o escritor aprimorou nos romances posteriores. Sim, a base da narrativa murakamesca encontra-se aqui: referências a Franz Kafka, personagens fortes e sóbrias, a literatura, o jazz, blues e soul norte-americanos, melancolia, adjectivação melódica, e uma capacidade exemplar de captar a atenção do leitor.

Em termos de estória, Em Busca do Carneiro Selvagem segue uma narrativa linear e limitada, até; isto é, há muita simplicidade na sinopse do romance: um jovem que trabalha na indústria da publicidade, e cujo nome nunca nos é revelado, é interpelado por um senhor que lhe propõe encontrar um estranho carneiro com uma singular estrela no seu pêlo. Paralelamente, a personagem principal arranja uma namorada que é modelo de orelhas e que o ajudará a encontrar o tal carneiro especial. Há quem diga que todos os livros são auto-biográficos, na medida em que enquanto escritores transpomos sempre parte de nós para o papel, e talvez seja mesmo verdade: o nascimento e a idade, assim como o ano em que decorre a acção sugerem que Murakami seja a personagem principal.

Com uma foto de vários carneiros numa paisagem verde, o nosso personagem tem assim que descobrir o paradeiro do invulgar animal. Mas por onde começar? A sua viagem começa em Tóquio e leva-o até à ilha de Hokkaido, onde descobre o Hotel Golfinho, cujo nome é inspirado em Moby-Dick, de Herman Melville – aliás, o dono do hotel é o primeiro a explicar esta curiosidade. Esta referência ao mundo de Melville reforça-se mais quando a personagem principal revela que o pénis de uma baleia lhe vem várias vezes à memória. Se o capitão Ahab persegue uma baleia invulgar, não é menos verdade que a personagem que Murakami criou neste romance persegue um carneiro também ele único. 

Em Busca do Carneiro Selvagem está carregado daquele tipo de significados subtis que obrigam a ler nas entrelinhas, revelando-se uma óptima experiência de leitura e imersão no mundo místico de Murakami. No entanto, a obra não cativa tanto como Norwegian Wood ou Crónica do Pássaro de Corda, isso é certo.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Haruki Murakami «Auto-Retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo»


Apontado todos os anos como provável vencedor do Nobel da Literatura, juntando-se assim aos seus conterrâneos Yasunari Kawabata e Kenzaburo Oe na lista de escritores japoneses que venceram o almejado prémio, Haruki Murakami goza de uma enorme popularidade em todo o mundo – bem mais apreciado nos Estados Unidos da América e na Europa do que propriamente no seu país Natal – e apresenta-nos um livro de memórias.

A edição portuguesa, sob o selo da Casa das Letras, é traduzida mais uma vez da tradução inglesa do japonês e é precisamente aqui que o livro começa com um ponto negativo, ao qual eu explico: no inglês a obra intitula-se What I Talk About When I Talk About Running, título em homenagem ao amigo Raymond Carver e à sua obra What We Talk About When We Talk About Love. Ora, em português ficaria bem apropriado um título que tivesse algo a ver com Carver, em vez de algo que remete directamente para o conteúdo do livro. De facto, este auto-retrato do nipónico baseia-se na sua vida de escritor e maratonista e na relação intrínseca que as duas actividades geram no seu dia-a-dia.

Largou um bar de música jazz em prol de uma carreira literária na mesma altura em que se dedicou a correr mais que uma, duas, três vezes como acontece com a maioria dos corredores ocasionais: passou a correr todos os dias. Em vez de mero “jogging”, Murakami organiza metodicamente os dias da semana em função das maratonas e da boa forma física, forma esta que lhe permite ter lucidez e concentração na escrita. A obra apanha um pouco de surpresa o leitor quando o autor começa a abrir-se em relação aos sapatos de corrida que usa, os alongamentos antes e depois de cada corrida, as idas à piscina e a contratação de um treinador para o ajudar na arte de bem nadar – além de maratonista, Murakami gosta de participar em provas de triatlo que, como se sabe, exigem corrida, natação e ciclismo – as férias no Havai onde aproveita o bom tempo para praticar para as maratonas norte-americanas de Boston e Nova Iorque, a comida baseada em verduras e peixe e outros aspectos que não se costumam evidenciar numa pessoa solitária como Murakami.

É, no entanto, este corredor de maratonas, que vão dos quarenta e dois kilómetros na Grécia e os cem no Japão, que impulsiona o escritor de belos romances. Não obstante a abertura de Murakami e a forma acentuada como convida o leitor para conhecer um pouco da sua vida, Auto-Retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo debruça-se demasiado no correr e pouco no escrever, que é o que mais interessa num escritor. A obra ganha um significado especial para quem já conhece outras publicações do autor, mas temo que pouco, muito pouco, para quem o desconhece. Começar por esta obra, ao invés de Norwegian Wood, entre outros, é como ler as cartas que Kafka escreveu ao pai e só depois mergulhar em O Processo.

sábado, 26 de março de 2011

Haruki Murakami «O Elefante Evapora-se»


Fortemente conhecido e aclamado por aquela que é considerada a sua obra-prima, Kafka à Beira-Mar, Haruki Murakami vai dando cada vez mais cartas na área da literatura, abrindo espaço para um hipotético galardão Nobel. Tal como A Rapariga que Inventou um Sonho, esta obra é um livro de contos. A obra compreende dezassete pequenos contos que incidem entre o real, o imaginário e o real e o imaginário ao mesmo tempo, escritos ao longo do início dos anos 80 e 1999.

Para quem já leu o romance Crónica do Pássaro de Corda, o primeiro conto O Pássaro de Corda e as Mulheres das Terças-Feiras vai causar uma enorme sensação de “dejà-vú”, pois este conto viria a ser aproveitado como primeiro capítulo do romance. Nesta crónica, um advogado recebe estranhos telefonemas de alguém que o parece conhecer e tem ao mesmo tempo que procurar o seu gato desaparecido, dando de caras com uma enigmática jovem adolescente. Noutro conto, um casal recém-casado tem vontade de ir assaltar padarias e acaba por assaltar um MacDonald’s, levando hambúrgueres em vez do dinheiro (O Segundo Assalto à Padaria). Temos também aqui contos demasiado curtos que denotam alguma falta de inspiração e que suscitam pouco interesse, como é o caso de Ao Ver a Rapariga Cem Por Cento Perfeita numa Manhã de Abril, O Pequeno Monstro Verde, A Queda do Império Romano, A Revolta dos Índios de 1981, Quando Hitler Invadiu a Polónia, E o Mundo dos Ventos Violentos.

Há aqui também contos interessantíssimos e que dariam boas obras, casos de Os Lederhosen que contam a estória duma senhora japonesa que viaja até à Alemanha e compra uns calções Lederhosen alemães que o marido lhe pede, acabando por resultar no fim do próprio casamento, ou Sono que retrata de um forma muito simbólica e abstracta a vida de uma pessoa que perde a capacidade de dormir e que passa a fazer desporto diariamente e a ler convulsivamente livros, um dos quais Anna Karenina de Lev Tolstoy. O não dormir, em contraposição ao dormir como prisão, permite-lhe libertar-se das amarras do quotidiano opressor. Destaque-se também o conto que dá título ao livro, O Elefante Evapora-se, no qual um elefante e o seu tratador desaparecem de forma misteriosa e sem rasto, despertando a curiosidade de um homem obcecado por elefantes - um dos contos mais surreais da obra.

Estes dezassete contos primam pela boa disposição e por muito surrealismo, cruzam ocasionalmente personagens de outros romances, eventos que parecem ter tido lugar na vida do escritor e narrativas que coesas e, de certa forma, frias e distantes a nível de personagens. Destaque, mais uma vez, para a constante referência aos grandes nomes da música popular, da literatura e da arte europeia e americana, como é hábito na escrita de Murakami.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Haruki Murakami «A Sul da Fronteira, A Oeste do Sol»


Confesso que a pouco e pouco cada vez mais me vou tornando apreciador dos livros de Haruki Murakami e a vontade em comprar mais um romance do japonês aumentou consideravelmente depois das leituras de Norwegian Wood e de A Sul da Fronteira, A Oeste do Sol. 

O escritor tem uma forma peculiar de (des)crever amor, amizade e relações entre pessoas que me fazem lembrar um pouco daquela melancolia estranha que Franz Kafka aplicou na sua curta existência literária. Há uma enorme sensação de que a personagem tem tudo aquilo o que precisa para viver feliz, de que a vida da mesma é algo que todos nós gostaríamos de ter, e no entanto há sempre algo que falha, algo que nos enfraquece e tira a vontade de sorrir. É nesse aspecto que este romance toca de forma trágica, sem apelo, apagando um pouco a luz do mundo.

Hajime, a personagem principal, nasceu em 1951, filho único de uma família da classe média num Japão a recuperar do pós-guerra, conhece Shimamoto, uma estranha rapariga com uma deficiência numa perna que rapidamente se torna na sua melhor amiga, apesar de os laços de amizade entre ambos não parecerem fortes. O elemento mais simbólico que une estas duas pessoas é o disco que Shimamoto tem em casa, de Nat King Cole intitulado South of the Border; os dois adolescentes aparecem em várias ocasiões a ouvir e a discutir a música jazz. Suponho que este momento fosse o grande “escape” que tanto um, como outro procuram para se refugiarem do estigma de serem filhos únicos numa década onde isso era muito invulgar e que originava algum mal-estar entre famílias.

Com o passar do tempo, e ainda na adolescência, as personagens acabam por se distanciar e perder o contacto entre si. Hajime começa a namorar com Izumi no liceu, até que acaba por se casar com Yukiko, já com trinta anos e acaba por abrir um bar de jazz de grande sucesso. É nesta altura que Shimamoto regressa à vida de Hajime, prestando-lhe uma visita ao bar, e é também este o momento que desperta o amor entre ambos. O disco de Nat King Cole aparece mais uma vez nesta relação condenada ao fracasso.

Há aqui toda uma forte carga erótico/sensual bastante invulgar e uma dicotomia estranha entre felicidade/miséria – por vezes escritas numa simbologia que está verdadeiramente nas entrelinhas (atente com atenção no título e no final do livro) – já explorada em Norwegian Wood que tem enorme potencial para seduzir qualquer tipo de leitor, independentemente de as suas escolhas literárias recaírem em autores que não tenham muito em comum com Haruki Murakami.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Haruki Murakami «Norwegian Wood»

H

Dois anos mais tarde, reencontrei novamente Haruki Murakami. Sputnik, Meu Amor foi o meu primeiro contacto com o popular escritor japonês: uma obra que achei razoável, mas que não me tinha fascinado ao ponto de a colocar – nem ao autor – num patamar elevado, talvez porque na altura estava a ler obras de outros autores que aprecio mais, ou porque simplesmente o livro não era aquele que eu deveria ter escolhido para me iniciar no mundo de Murakami. Não sei ao certo a resposta, mas Norwegian Wood teve um impacto em mim que não esperava.

O romance tem lugar nos anos sessenta e retrata a vida de Toru Watanabe, um jovem que acaba de se mudar para uma Universidade privada em Tóquio. Mas as primeiras páginas do livro não se passam no Japão nem nos anos 60; passam-se na Alemanha dos anos oitenta onde a nossa personagem principal recorda com carinho e muita nostalgia os tempos que viveu na faculdade, os amigos que tinha, o modo de vida que promíscuo que adoptava e o grande amor da sua vida: Naoko. Ao longo da obra são-nos dados a conhecer o Japão que conhecemos, desde o nacionalismo, revoluções nas universidades  que não resultaram em nada e cujos resultados das mesmas foram o regresso à extremamente bem organizada vida - e uma “estranha” admiração do autor pela literatura e música do ocidente. A verdade é que as personagens lêem constantemente livros de autores europeus e norte-americanos (Thomas Mann, John Updike, Hermann Hesse, Joseph Conrad, Fitzgerald…) do mesmo modo que consomem música clássica e a pop dos Beatles, que como se sabe têm uma canção com o mesmo nome deste livro. Watanabe e os seus amigos divertem-se a beber em excesso, a tocar guitarra e cantarolar canções dos Beatles e de outras bandas do género da época – lembremo-nos que decorria a guerra do Vietname -, enquanto o resto da sociedade japonesa vive como a conhecemos: pontual, rigorosa e extremamente metódica.

De facto, esta atracção do autor pelo ocidente tem-lhe causado variadíssimas críticas por parte da crítica japonesa de há muitos anos para cá… Mas a verdade é que o Ocidente, especialmente a literatura britânica e norte-americana, sempre esteve bem servido em termos de criativos e, portanto, não me estranha nada que este mesmo escritor tenha outro livro intitulado Kafka à Beira-mar. Não obstante as referências ocidentais, esta obra está repleta de referências ao dia-a-dia japonês da década de sessenta e setenta, de pormenores deliciosos e surpreendentes diálogos por parte de personagens diferentes mas igualmente interessantes (sem esquecer a sumptuosa forma como as montanhas e as cidades são descritas, especialmente no inverno). Não perca mais tempo a ler as minhas palavras: descubra a beleza melancólica de Norwegian Wood Hpor si mesmo.