sábado, 16 de junho de 2012

António Lobo Antunes «D'este Viver Aqui Neste Papel Descripto – Cartas de Guerra»


Esta é uma das raras oportunidades que o leitor tem de ficar a saber a vida privada de António Lobo Antunes. Esta compilação de cartas que o autor escreveu à sua esposa enquanto esteve na Guerra Colonial, é uma porta para conhecermos o lado mais apaixonado e carinhoso de um dos grandes escritores da actualidade.

As cartas espelham a miséria e horrores de um jovem que não assistiu ao nascimento da sua primeira filha e que pouco tempo teve para estar a sua esposa após o casamento. Sonhador e irreverente, Lobo Antunes nunca quis ir para a guerra, jamais pediu para viajar para Angola e estar só, rodeado de morte e fome. As cartas revelam um ser humano de uma capacidade única para ultrapassar o sofrimento de um pai e marido ausente, um homem que escreveu um romance num regime de incerteza em relação ao amanhã. 

Um dos aspectos mais interessantes nesta obra é o António Lobo Antunes que redigiu o seu primeiro romance por volta de 1972, intitulado Voo – Crónica da Morte Portuguesa, um livro que incidia sobre Portugal e a sua sociedade, temática amplamente explorada na sua vasta obra. Depressivo, mas com uma grande capacidade de sofrimento, este autor viveu quase exclusivamente da força que a sua primeira esposa lhe deu, constantemente apaixonado e grato pelo casamento. Não raras vezes encontramos o autor a ler e a criticar romances e escritores, ficamos também a saber que os escritores latino-americanos, como é o caso de Gabriel García Márquez, eram naquela época os maiores, sem descurar a importância de Louis-Ferdinand Céline, entre outros pertencentes a um lote restrito. 

O leitor sentir-se-á quase sempre intrometido na vida privada do autor, um sentimento de intromissão; certamente que partilhará a angústia e tristeza de quem se viu privado do nascimento da sua primeira filha e que resistiu ao desgaste de uma guerra. A progressão emocionante da narrativa confere a estas cartas de guerra uma costela de romance.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Miguel Gonçalves Mendes «José e Pilar – Conversas Inéditas»


Durante quatro anos, o realizador de cinema Miguel Gonçalves Mendes conviveu com José Saramago e Pilar del Río na residência de ambos em Lanzarote, Espanha. Em 2010 estreou em Portugal o filme documentário José e Pilar, no final do ano passado a Quetzal publicou estas conversas que funcionam como um complemento à película.

Centenas de horas de conversas com um dos casais mais simpáticos e populares da literatura, dispostas por cerca de duzentas páginas e que incidem sobre os tópicos das letras, da obra de Saramago e das suas viagens à volta do mundo, das posições firmes na área da política e também da vida pessoal do casal. Os mais familiarizados com a obra do Nobel 1998 não estranharão certamente a maioria das suas intervenções, pois neste livro o autor de Memorial do Convento inclina-se sempre para a direcção que o seu vento soprou. Saramago aproveita também para esclarecer a questão do despedimento de jornalistas no Diário de Notícias.

Curiosamente, as entrevistas com Pilar são o ponto mais atractivo desta obra. Sempre em castelhano – e aqui a Quetzal arriscou um pouco nesta aposta – e sem tradução, a espanhola natural de Granada impõe-se de forma clara e extremamente frontal, aproveitando mais que uma vez para explicar que o descanso é importante e que será eterno após a morte, daí que há que viver o momento como se não houvesse amanhã. O processo de tradução dos livros de Saramago para a língua espanhola é aqui explicado, e Pilar assegura que não interfere de forma alguma com o decorrer da escrita e das ideias do marido. 

O ponto mais frágil destas duzentas páginas reside no próprio Miguel Gonçalves Mendes, que mostra algum receio nas questões que coloca; de facto, creio que o entrevistador poderia por vezes impor um pouco mais as suas ideias e tomar a rédea da entrevista; fica a sensação de que por vezes os entrevistados passam a conduzir o ritmo da conversa, encurtando o espaço e tempo das questões do locutor.

José e Pilar – Conversas Inéditas apresenta o lado de Pilar del Río que era relativamente desconhecido do grande público, confirmando que a mesmo foi mesmo muito mais que a mera “esposa de Saramago”.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Ricardo João Pedro «O Teu Rosto Será o Último»


Tendo como referência o período da Revolução dos Cravos, este romance desvia-se irremediavelmente na triste vida da família Mendes e do calvário que a ditadura e o golpe militar lhe infligiu. Duarte, a personagem principal, é uma das muitas crianças que nasceram durante a guerra colonial do ultramar.

A obra é-nos contada em sete partes divididas por vários capítulos curtos, aparentemente concisos e interligados, mas autónomos entre si. A narrativa orienta-se em volta dos passos de Duarte Mendes, ainda que por vezes haja capítulos dedicados ao pai e avó, por quem a personagem principal sente especial carinho. Todas estas personagens estão intimamente ligadas ao 25 de Abril: o antes e o após; um depois que se verifica não ter mudado muito na mentalidade e organização da vida portuguesa. Até aqui, tudo parece estar em conformidade para tornar este romance num bom livro.

Vencedor do Prémio LeYa 2011, concurso prestigiadíssimo de Literatura, o jovem autor Ricardo João Pedro promete ao leitor uma obra fascinante com uma estrutura exemplar. A escrita é marcada pelo excesso de palavrões, pelas vírgulas abusivas e por uma frieza e quasi-objectividade que acaba por tornar a leitura aborrecida, previsível, pré-fabricada. Os palavrões funcionam bem tanto num livro como no quotidiano quando bem empregues, tudo na vida tem hora e lugar; no entanto, se a verborreia é feita a torto e a direito e sem pedir licença, certamente que cairá no ridículo. Veja-se o caso exemplar de Irvine Welsh: as personagens de Leith até que violam os bons costumes britânicos com frequência, mas o autor escocês faz questão de lhes emprestar a sujidade linguística nos momentos acertados. Aqui, numa «aldeia com nome de mamífero», não só as personagens mas também o narrador se perdem em discursos desconexos e listagens de impropérios.

As vírgulas e os pontos matam por completo a acção. Ao tentar tornar a sua escrita sóbria e aproximando-se em demasia no choque e tragédia, o autor pausa em excesso o nível da aparente calma, assassinando assim a narrativa. Outro dos aspectos negativos e mal trabalhados é a repetição dos termos: «Embrulhado (…) numa camisola de lã, num casaco de lã, num sobretudo de lã, num cachecol de lã, num par de luvas de lã, num gorro de lã (…).».

A estória, essa, inicialmente prometida a algo grande em torno do 25 de Abril, rapidamente se perde numa novela televisiva portuguesa, enfadonha, repetitiva e tristemente previsível. Duarte entra num consultório e o médico faz-lhe as habituais perguntas sobre os seus hábitos alimentares, se fuma, se bebe e… acaba por também lhe perguntar pela preferência futebolística. A referência ao futebol é tanta que Ricardo João Pedro tenta mesmo igualar a estética do mítico comentador Gabriel Alves: «Até que o Van Basten, do bico da pequena área, a cruzamento de Mühren, remata de primeira, e a bola, numa trajectória improvável – que, como o filho, perspicazmente, observou, não era compatível com a velocidade do remate e das duas uma: ou, por breves momentos, a força gravítica exercida pela Terra aumentara, ou então o fenómeno não podia ser descrito pelas três leis fundamentais de Newton e tinha de ser entendido à luz da mecânica quântica -, passa por cima de Sasayev e entra na baliza.».

«Duarte não se mexeu, nem quando o Índio soltou um breve gemido e dois esguichos de esperma se ergueram no ar. O primeiro caiu sobre a alcatifa. O segundo, sobre o sofá. Algumas gotas caíram, ainda, sobre as folhas que haveriam de ficar para sempre em branco.». Isto acontece numa das vezes que Duarte leva a casa um amigo para lhe tocar Beethoven no piano. A acção tem tragicamente mais peripécias desconexas e estéreis como esta. O autor, licenciado em Engenharia Electrotécnica e um homem da Matemática, dá explicações pertinentes e em tudo indispensáveis. «Por isso, durante os onze dias, fumou, no máximo, oito cigarros. Ou talvez até nem tenha fumado nenhum, depende. No maço, sobraram doze cigarros. Vinte menos doze: oito. O que quer dizer que, naqueles onze dias, houve, pelo menos, três em que não fumou um único cigarro. E tinha-os ali à mão de semear, o que não deixa de ser relevante. Vinte menos doze: oito. As contas eram fáceis de fazer. E foram feitas.». Certo.

Aquando da recente apresentação de Caligrafia dos Sonhos do espanhol Juan Marsé, António Lobo Antunes desabafou que estava nas mãos dos grandes grupos editoriais para quem só o dinheiro e as vendas contam - «Olhem à vossa volta, se houver cinco livros bons na livraria já não é mau. Esta é a verdade». O Teu Rosto Será o Último não é um livro mediano, muito longe disso. É francamente péssimo em todos os aspectos.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Philip Roth vence Prémio Príncipe das Astúrias


O escritor norte-americano Philip Roth é o vencedor do prestigiado Prémio Príncipe das Astúrias das Letras 2012. Roth, nascido em 1933 em Newark, e autor dos prestigiados romances Pastoral Americana e O Complexo de Portnoy, venceu devido a uma «qualidade literária que se manifesta numa escrita fluida e incisiva», entre outros factores.


terça-feira, 5 de junho de 2012

«Moneyball - Jogada de Risco»


Um grande orçamento nem sempre é significado de vitória, ou muito menos de vitória fácil. Na maioria das vezes, as equipas com um maior nível de dinheiro para gastar conseguem contratar os melhores jogadores e técnicos, rentabilizando o investimento feito pois o retorno é sempre substancial. Aconteceu assim no mundo desportivo com os Minnesota Twins de 1987, com a Dinamarca 1992, com a Grécia de 2004, com os Chicago Bulls de 1991, com os Detroid Pistons de 2004, entre outros.

Este filme, baseado no livro Moneyball: The Art of Winning an Unfair Game de Michael Lewis, é sobre o mundo do beisebol (“baseball” soa melhor) e retrata a história de Billy Beane (Brad Pitt), uma jovem promessa do início dos anos 80 mas que nunca correspondeu às expectativas e que terminou a carreira nos Oakland Athletics. Os A’s, como são conhecidos, equipa criada em Filadélfia – foram primariamente os Philadelphia Athletics -, são uma equipa com poucos títulos na Major League Baseball que tem como Director Geral Beane desde 1998 e que em 2001, ano em que perderam jogadores-chave para os tubarões da Liga. Billy Beane é visto hoje como um homem revolucionário do desporto norte-americano graças ao que alcançou com esta equipa.

Beane recruta para seu braço direito Peter Brand (Jonah Hill), um assistente que se baseia em estatísticas aos Cleveland Indians, e ainda que inicialmente fosse complicado explicar à direcção que o jovem Brand, de 25 anos, iria ser influente na reestruturação da equipa, o sucesso chega a Oakland. A grande mudança passa essencialmente por recrutar jogadores com pouca influência, jogadores que praticamente têm as suas carreiras arrumadas, e também contempla o despedimento de alguns jogadores com muitos anos de serviço.

O objectivo de Brad Pitt é apenas um: vencer o campeonato. Esta tarefa é virtualmente impossível, tendo em conta o reduzido orçamento e a dimensão dos A’s no beisebol, mas nada é impossível. Pitt e Jonah atingem nesta película prestações adequadas às personagens que interpretam, representam muito bem a pressão e o clima louco que é fazer parte de uma equipa profissional de um desporto com a grande dimensão que o beisebol tem na América do Norte, mas o mesmo não se pode dizer dos actores que interpretam os jogadores. As cenas onde se desenrolam jogam raramente apresentam os jogadores a jogarem verdadeiramente e, em vez disso, são-nos apresentados ângulos alargados e distantes do relvado com ocasionais lançamentos/tacadas junto à base. É este o grande defeito deste filme.

O filme ganha outra dinâmica com a filha de Beane, que ensina ao pai, através de uma canção acompanhada por guitarra, que vencer não é importante, somos todos perdedores, por isso mais vale desfrutar do espectáculo. Moneyball - Jogada de Risco é um agradável exercício de determinação desportiva, mais entusiasmante que Jerry Maguire, por exemplo.

Título original: Moneyball
Argumento: Steven Zaillian, Aaron Sorkin, Michael Lewis
Realização: Bennett Miller

«Invisible Monsters» revisitado


Depois de ter publicado Invisible Monsters em 1999, o escritor norte-americano Chuck Palahniuk prepara-se para publicar o romance com algumas novidades em relação à primeira edição.  

Invisible Monsters - Monstros Invisíveis, Casa das Letras - fora a única obra do vasto catálogo de Palahniuk que não teve edição em formato de capa dura, situação que se inverte agora esta situação e ainda lhe acrescenta um design diferente mais apelativo. Este "remix" resulta da vontade de o autor ver publicado o livro da forma como inicialmente o concebeu, com mais parágrafos e com mais pormenores interessantes. 

O lançamento no Reino Unido está agendado para o dia 7 deste mês e a norte-americana sai uns dias mais tarde, dia 11.

domingo, 3 de junho de 2012

Charles Baudelaire «Le Spleen de Paris»


Se andássemos sempre ébrios, não seria assim tão mau, segundo o lema e um dos poemas de Charles Baudelaire: bêbados de poesia, de vinho, de virtude, mas todos bem alegres de espírito. Urge estar em contacto com o vento, com os pássaros e com as estrelas e deixar fruir a poesia com estes. 

Nascido em Paris num dos ventres da Poesia, a França de Henry Michaux, Arthur Rimbaud, Guillaume Apollinaire, etcétera, etcétera, Baudelaire dedicou uma vida de amor incondicional às letras e à inovação de uma poesia que o próprio acreditou precisar de alterações, daí que seja visto como um dos mais importantes poetas da corrente modernista e simbolista. 

Escrito em prosa poética, Le Spleen de Paris resulta de uma compilação de vários poemas publicados entre 1855 e 1867 e aborda algumas temáticas sociais, literárias e a busca pelo prazer. Charles Baudelaire, ele mesmo um espírito livre que só se satisfaz através da criação poética, faz algumas viagens interessantes e constrói poemas interessantes e empolgantes, mas a maioria dos textos não desperta emoções, deslumbres fortes, como seria de esperar.

O primeiro contacto com este autor não foi o mais empolgante, por assim dizer, daí que se esperem melhores sensações com As Flores do Mal.