quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

J. G. Ballard «Cocaine Nights»


O sul de Espanha alberga inúmeros ingleses que vivem em condomínios privados fechados aos próprios espanhóis. Nestas regiões forma-se uma Inglaterra de reformados e milionários que vivem um estilo de vida demasiado relaxado e repetitivo, isolando-se do mundo nas suas casas luxuosas e nas suas televisões por cabo. Estrella de Mar é um condomínio onde crime, violação, álcool, ténis, pornografia, drogas fazem parte do entretenimento, da quota mínima necessária para o bom funcionamento dum paraíso quasi-psicótico.  

Charles Prentice é o principal protagonista dum dos últimos romances do britânico J. G. Ballard, escritor famoso pelas obras Crash e Império do Sol e a profunda reflexão sobre a actual sociedade e criação de uma futurista transgressiva, profundamente utópica e violenta, onde o Homem se torna vítima da sua própria monstruosidade egoísta. O “resort” Estrella de Mar é mais um destes mundos alternativos onde o ritmo criminoso é usado para impor um certo sentido de sociedade organizada e perfeita, onde as infracções à lei são condição sine quai non para o dia-a-dia. Frank Prentice é encarcerado e acusado pela morte da família Hollinger, uma das mais poderosas e ricas da região e, embora todos acreditem na sua inocência, Frank prefere declarar-se culpado para o bom funcionamento da Estrella de Mar e dos outros condomínios que o rodeiam. Charles, arrastado até Espanha para compreender o porquê da estranha decisão do irmão acaba por conhecer Bobby Crawford, o principal responsável pela loucura e agitação do “resort”. As tais infracções referidas que têm de acontecer para que tudo funcione paradisiacamente. 

Antes de Bobby aparecer em cena, os habitantes de Estrella de Mar viviam dependentes de anti-depressivos, psiquiatras e privados de excitação, prisioneiros do aborrecimento e da televisão. Agora, compreendem todos que os crimes que Crawford comete são o seu messias, o único que lhes pode devolver uma vida e um mundo agitado, um mundo o qual só resulta da transgressão e perversão dos parâmetros estabelecidos como padrões do bom funcionamento social. Charles começa também ele a entrar nesta hipnose que o suga para o oposto daquilo que ele defende e, tal como o seu irmão Frank, ele apercebe-se pouco a pouco da utilidade do contrabando de drogas e de alguns incidentes trágicos – entende que todos têm que se sacrificar pelo bem-estar da comunidade. Ballard serve-se deste romance para pôr em questão a utilidade da auto-gestão social e de um mundo onde o colapso de uns é a prosperidade de muitos. 

O conceito é interessante, assim como certas personagens que, bem caracterizadas, entram bem na narrativa. No entanto, o romance revela-se demasiado extenso e pouco dinâmico na maior parte das suas páginas, tornando-se repetitivo e aborrecido ao fim de poucas horas. Ballard, como que também ele arrastado para o mundo de Estrella de Mar, afasta-se em demasia do leitor.

Nota: esta crítica foi baseada na leitura da obra no seu idioma original, o inglês. 

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

(<Ö>) «Okul»


À excepção de que é oriunda de França e um projecto de um músico apenas, pouco ou nada mais é conhecido sobre esta banda que tem um invulgarmente estranho nome. A edição do disco é limitada a 50 cópias feitas à mão que, a esta hora, devem ter sido vendidas a bom ritmo, dado o conteúdo das mesmas. Eu sou/fui um dos cinquenta sortudos.

O estilo musical de (<Ö>) insere-se algures entre a música ambiente e o drone minimalista executado através de uma guitarra e sons de fundo de grandes obras cinematográficas, alternando o belo e o assustador, gerando um ambiente de pura melancolia meditativa. Não parecendo pretender ser um álbum depressivo ou de qualquer conotação suicida, os sete temas giram à volta de uma viagem de sonho e fantasia negativa da sétima arte, de Okul até Under the Light of the Black Temple, como uma espécie de filme tipicamente Lars von Trier; a estrutura dos temas do álbum assenta em acordes distorcidos de guitarra que ganham progressão e feedback numa atmosfera sinistra, polvilhada com ecos psicadélicos e sufocantes que geram imagens de desespero e gritos mudos. Sem querer fazer comparações com bandas que aparecem associadas a este projecto, (<Ö>) não se enquadra facilmente no som de uns Earth, pois este artista francês é original no que faz – na medida do que a música ambiente/drone permite explorar, é claro.

Não é também um som noise (rock), mas facilmente se pára para pensar agora no que Thurston Moore e Steve Austin têm vindo a fazer e reparar no rico legado que estão a construir e naqueles grupos que, de forma directa ou indirecta, influenciam. Okul é como a banda sonora de um filme que cada ouvinte cria na sua mente, visto de preferência no silêncio da noite e com um copo de água na mesinha de cabeceira.

7.5/10

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Decapitated «Carnival Is Forever»


Passados cinco anos após a morte do baterista Witold "Vitek" Kiełtyka e das saídas do baixista Marcin Rygiel e vocalista Adrian “Covan”, Wacław Kiełtyka recuperou a banda e contratou Kerim "Krimh" Lechner, Rafał "Rasta" Piotrowski e Filip "Heinrich" Hałucha para a bateria, voz e baixo, respectivamente. A incógnita em relação ao que este quarteto poderia fazer em relação ao sucessor de Organic Hallucinosis era mais que muita.

Felizmente, o disco não defrauda ninguém e segue precisamente o caminho do death metal técnico, extremamente pouco ortodoxo, matemático e original que o grupo criou a partir de Nihility e tem vindo a aperfeiçoar. Aqueles que desistiram do grupo após Winds of Creation, ou que ainda alimentam esperanças de encontrar aqui. ou no futuro, um disco parecido com o debut, estão redondamente enganados: estes Decapitated continuam a derrubar cada vez mais as barreiras e as palas do metal, influenciados por algumas técnicas de Meshuggah e estruturas de outros grupos técnicos vanguardistas. Analisando o contributo dos novos elementos, salta à vista a capacidade de reproduzir a batida e o jogo de pés do falecido Vitek por parte de Krimh, um músico jovem (actualmente com 22 anos) e desconhecido das lides do metal extremo, mas com um talento e um grande sentido de dinâmica elevados. Ainda a tentar encontrar o melhor timbre para estas oito faixas está Rafał, o “rasta” que não tem ainda a caixa torácica de Covan, mas que apresenta-se aqui e em palco com um profissionalismo e determinação de meter respeito. O baixo, esse, continua bem entregue, até porque aquando do acidente do final de 2007, Marcin já tinha abandonado a banda.

Canival Is Forever não está ao nível do anterior registo Organic Hallucinosis, um dos trabalhos mais exemplares e excepcionais das últimas duas décadas no que ao death metal diz respeito, mas enche de sobremaneira as medidas do apreciador de longa data destes polacos. A rodela começa a girar ao som frenético de riffs técnicos, complexos e rápidos que a guitarra de Vogg emana em The Knife, claramente um dos temas mais directos e brutais do disco, marcado pela voz gritada e cuspida e acompanhado pela técnica e rapidez de Krimh. O solo de guitarra, o primeiro de vários presentes no disco, sobressai igualmente. Os riffs criativos prolongam-se através de United e começam a se impor e entranhar no tema homónimo, um dos mais lentos e progressivos – se se puder aplicar o termo – do disco; de facto, Carnival is Forever e A View from a Hole (esta aqui no final do disco) são na realidade um festim estimulante enquanto exemplo de coordenação entre as cordas e a bateria- bateria esta que Krimh explora ao máximo em termos de contributo nos seis minutos intensos de A View from a Hole.

Há obviamente outros temas a ressalvar, e longe de mim ignorar aqueles acordes e blast beats de Pest e Homo Sum (dois potenciais singles), mas ao longo deste Carnival Is Forever fica claro que apesar do enorme esforço e empenho que o novo vocalista aplica, o tom mais grave e encorpado de Covan e Sauron encaixavam melhor no som da banda que estes agudos berrados. Seria um exagero grave afirmar que Rafał "Rasta" não está à altura do microfone que segura: acredito que este é o primeiro dos vários bons trabalhos que se seguirão, por isso há que deixá-lo crescer e adaptar-se a um dos melhores grupos do actual panorama do death metal. 

Carnival Is Forever é uma bomba-relógio prestes a explodir a qualquer momento, construída com a mestria assinalável do “mestre” Vogg, um dos guitarristas mais brilhantes e originais que o heavy metal “criou” nos últimos tempos… aqueles shreds/solos loucos de 404 ainda ecoam cá dentro.

8/10

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Bracara Extreme Fest 2011


A quinta edição do Bracara Extreme Fest decorreu pela primeira vez no C.C. Braga Viva, nas antigas salas de cinema na parte superior do Braga Shopping, em pleno coração da cidade. Dividido em dois dias (sexta e sábado), o festival teve como principais destaques os Napalm Death, uma das bandas pioneiras do grindcore, os Decapitated que estavam de regresso a Portugal depois da morte do baterista Witold Kiełtyka, os belgas Aborted e os noruegueses Enslaved.

O evento decorreu em patamares distintos em termos de afluência do público, tal era o enquadramento do cartaz com um segundo dia mais interessante que o primeiro. Sexta-feira teve ainda o agravamento da desistência à última da hora por parte dos irlandeses Altar of Plagues, uma das bandas que tinha levado muitos dos presentes a adquirir o ingresso. De qualquer das formas, o festival arrancou com a curta descarga da fusão death metal moderno e grindcore dos desconhecidos Trocombix, grupo oriundo de Valência que acalorou e arrancou os primeiros aplausos tímidos da plateia, contrastando a actuação aborrecida dos, também espanhóis, Aathma. Os primeiros aplausos dignos de registo foram atribuídos aos suíços Zatokrev, pela forma psicadélica e arrastada que presentearam os presentes, destacando-se o tema ...Zato Krev

As duas bandas portuguesas da noite tiveram prestações também elas diferentes: por um lado, os Deskarga Etilika apresentaram-se, após muito tempo afastados dos palcos, com uma formação que conta agora apenas com um vocalista que, por mais que se tenha esforçado, denotou que o conjunto funcionava bem melhor com dois na voz, facto evidente nos temas de Apunkalipse Now, Xulos do Estado e Unidos pela Autogestão; os Holocausto Canibal, maior representante do panorama nacional do goregrind/death deram um concerto igual a si mesmos: fúria, humor negro e bastante movimento no palco que resultou no bailarico habitual dos que estavam colados ao palco. Aplaudiu-se não só as habituais Violada pela Motosserra, Empalamento, Amizade Fálica, mas também novos temas do terceiro álbum de originais que sairá em breve. O metal dos Daylight Dies pode não ter convencido o público que já esticava as pernas para a actuação dos Napalm Death, mas teve o efeito contrário naqueles que se deixaram seguir pela melancolia e mágoa que a banda empregou, com um registo vocal assinalável. A celebrarem quase trinta anos de existência, os veteranos de Birmingham estiveram à altura das expectativas, ainda que problemas técnicos ao nível da bateria tenham contribuído para uma menor entrega da própria banda e público. Construíram uma ponte entre 1987 e a actualidade, de Scum a Time Waits for No Slave e apresentaram ainda Quarantine, tema de Utilitarian a sair em Fevereiro. Destaques para Suffer the Children, Nazi Punks Fuck Off, Scum e Silence is Deafning.

O dia de sábado fica marcado pelas estrondosas actuações de Skepticism, Fleshgod Apocalypse, e Aborted, Enslaved e Decapitated, com destaques positivos para Process of Guilt (única banda nacional do dia) e Archspire e nota negativa para a actuação soluçada e demasiado tímida – por mais intimista que o seu som possa ser – dos chilenos Mar de Grises. Fleshgod Apocalypse, oriundos de Itália, brindaram o público com música clássica e death metal extremo e sinfónico, criando um ambiente de fantasia que ecoou pela sala alto e com bom som, interrompido pela depressão das letras do doom dos finlandeses Skepticism, que imprimiram um forte aparato visual e fúnebre ao largo de minutos que pareceram horas sem fim - “intensa” define bem a prestação.

De regresso ao nosso país estavam também os Aborted com (mais uma) formação renovada, da qual já só resta o frontman Sven de Caluwé. Meticulous Invagination, Dead Wreckoning, Sanguine Verses (...of Extirpation), The Saw and the Carnage Done, entre outros temas, confirmaram duas coisas: uma, que são verdadeiros profissionais em palco e que criativamente ainda vivem em demasia do passado. Quem vai trabalhando no presente e na linha da inovação são os Enslaved, que mesclam o prog/psicadélico com o black metal baseado na cultura viking e transformaram-nos numa descontraída e bastante competente actuação (houve tempo para uma reinterpretação de Immigrant Song dos Led Zeppelin), ainda que manchada pela dificuldade que as vozes limpas tiveram em se fazer ouvir em Ruun ou Giants. Allfadr Odinn, última faixa do setlist, foi dedicada aos amigos Decapitated.

Ultrapassada a tragédia que em 2007 tirou a vida ao irmão de Vogg e a capacidade para cantar de Kovan, o quarteto brindou os presentes com a melhor actuação do festival. Ainda a promoverem Carnival Is Forever e reinventando cada vez mais o death metal, The Knife deu início ao festim de shred e brutalidade (sonora). Ainda a recompor-se da chapada da primeira faixa, o público respondeu afirmativamente à nova formação e aos hinos da banda: Day 69, Winds of Creation, Mother War e Post (?) Organic. Os solos e os compassos da guitarra de Vogg e o trabalho de pés de Krimh ajudam a explicar o porquê de a banda obter tanto reconhecimento entre os aficionados deste género musical. Spheres of Madness, aquela que a meu ver foi o tema que mais impacto causou em todo o festival, encerrou uma actuação que incluiu quatro temas do novo álbum, mais os já referidos clássicos. 

Muito resumidamente, foi um fim-de-semana muito positivo. Há que destacar, uma vez mais, Ricardo e Tiago Veiga e toda uma equipa que organizou e ofereceu um grande final de 2011 com bastante peso e diversidade musical. Entretanto, e para os mais desatentos, divulgaram já muitas bandas que marcarão presença no maior festival do Minho, o SWR Barroselas Metalfest. 

Fotos gentilmente cedidas por Gonçalo Delgado:

Decapitated 

Napalm Death

 Aborted

 Enslaved

 Deskarga Etilika

domingo, 11 de dezembro de 2011

Josh Bazell «Beat the Reaper»


Josh Bazell tornou-se muito recentemente num valor seguro da nova literatura transgressiva, politicamente incorrecta, crua e com aroma a thriller norte-americana. O sucesso do seu debut está a ser tal que os seus direitos para adaptação ao cinema foram já adquiridos e teremos Leonardo DiCaprio no papel de Pietro Brnwa, um ex-membro da máfia italiana de Nova Iorque, agora médico num hospital em Manhattan.

Pietro chegou um dia a casa dos seus avós para os ver no chão brutalmente assassinados e jurou que teria a sua vingança. Para isso, conheceu o seu amigo Adam, filho de um membro da máfia de Nova Jérsia que o acolheu como seu filho e cedo o iniciou na vida de “hitman”; uma vez alcançada a sua vingança, Pietro continua a executar mais alvos até que chega a um ponto em que decide não ter mais condições para prosseguir com aquele estilo de vida perigoso. Ponto em que conhece o amor da sua vida. No entanto, e como já se viu em centenas de filmes sobre gangsters, nunca se pode confiar em ninguém e, uma vez dentro da máfia, é quase impossível dissociar-se da mesma. Em troco da sua liberdade, a personagem principal assiste novamente ao assassínio de alguém que ama, neste caso a sua namorada. Este foi o preço a pagar e o agora Dr. Peter Brown quer fazer novamente justiça.

A escrita de Bazell é meticulosa e agressiva, explicando detalhes e curiosidades sobre medicina que passam despercebidos ao dia-a-dia de qualquer pessoa, mas, por sinal, é possível construir uma faca com um osso alojado algures entre o nosso tornozelo, tíbia e o gémeo. A linguagem alterna entre o comovente e carinhoso e o rude e explícito, dependendo da situação em que as personagens se encontram. Enquanto doutor, Pietro/Peter é um médico muito ligado aos seus pacientes, sempre preocupado com os mesmos, apesar de ele mesmo não o admitir. Por outro lado, quando despe a bata, ele é um ser humano calculista que se orienta pelo sangue frio que corre nas suas veias. Bazell consegue estabelecer uma relação de empatia entre o drama da vida da sua personagem, desde os tempos em que os seus avós foram prisioneiros de Auschwitz, a aprendizagem gangster e a caça aos responsáveis pelas mortes daqueles que encheram de felicidade o coração de Pietro. Toda a narrativa decorre num só dia: a saída de casa e um dia de trabalho no hospital. A estória é alternada com “flashbacks” que recuam à vida criminosa e amorosa, constituindo estes momentos o ponto alto da obra e, acredite, vai ter pena de muitas situações que se passaram com o jovem Brnwa e o adulto Brown.

Beat the Reaper é uma corrida furiosa contra uma morte que pode aparecer em qualquer esquina ou em qualquer quarto do hospital. Os acontecimentos chocantes acontecem em cadeia e o final de cada capítulo cria um forte impacto - sempre inesperado - que o mantém agarrado ao livro num thriller genuinamente bem escrito e transgressivo. Por outras palavras, espere um argumento com várias voltas e reviravoltas a cada página que leia.

Nota: esta crítica foi baseada na leitura da obra no seu idioma original, o inglês.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Mastodon «The Hunter»


Moby Dick, mares, czars, montanhas, o Homem Elefante, fogo e outros temas fazem parte do universo de fantasia alucinante deste quarteto georgiano, assim como suicídios e ataques cardíacos. Skye era o nome da irmã de Brann Dailor que cometeu suicídio, daí que Crack the Skye, o anterior disco, tenha sido escrito em honra dela, através de uma viagem intemporal no espaço. The Hunter é dedicado ao irmão de Brent Hinds, vítima de uma paragem cardíaca enquanto caçava. 

Depois da experiência ultra psicadélica e exageradamente progressiva do anterior disco, a banda cria aqui um disco muito mais directo de treze temas que remetem para a era Remission Blood Mountain, estabelecendo uma ponte entre toda a sua discografia. O disco arranca com Black Tongue (baseado nas línguas dos papagaios que são precisamente pretas) e a dinâmica instrumental tal qual os Mastodon nos habituaram numa década de existência: muitos riffs stoner, solos habilidosos, shred empolgante, baixo a bombear sangue para o coração musculado e uma bateria cuja batida é enfeitada com deliciosos pormenores ao bom estilo psicadélico da escola de Bill Ward, John Bonham ou Nick Mason, entre outros históricos. A juntar ao instrumental e se considerarmos que a voz não é um instrumento, não se fazem muitos discos de rock ‘n’ roll com vozes tão coesas e harmoniosas como as que se fazem ouvir das gargantas destes quatro músicos. É um dos pormenores que, enquanto banda mainstream e praticante de música alternativa, a vai distanciando da concorrência.

As vozes limpas são intercaladas alguma rispidez que a adrenalina que Blasteroid e a pujança de Dry Bone Valley (dois dos melhores temas do disco) impõe, ainda que na maioria dos temas as vozes soem polidas e orelhudas, fruto da excelente produção a cargo de Mike Elizondo. Há aqui vários temas a destacar. Há aqui treze temas a destacar e uma descrição faixa a faixa é desadequada. Scott Kelly (Neurosis) empresta a voz a Specterlight, aquela que é a faixa que mais alusões faz a Remission e Call of the Mastodon, os teclados tão, mas tão space rock intrometem-se no meio de Bedazzled Fingernails, os dedilhados das guitarras acústicas ganham um novo significado com Creature Lives, Hunter e The Sparrow – aquelas que, na minha opinião, são as canções mais épicas do disco. 

Liricamente, este registo reforça a ideia de que apesar das tragédias e horrores da vida, é possível manter sempre um grande sentido de humor e exercer o direito ao sarcasmo: «I killed a man because he killed my goat / I put my hands around his throat» (Curl of the Burl). Retomando o tema do rock mainstream e a sua qualidade, os Mastodon não têm absolutamente culpa alguma por venderem tantas cópias e serem tremendamente populares; aconteceu o mesmo com os Nirvana: não foram eles que foram ter com o mainstream, foi precisamente o contrário – note-se que entre os dois grupos não existem grandes similaridades em termos de sonoridade, exceptuando o amor pela música. 

Sério candidato a melhor disco do ano, The Hunter cresce a cada nova audição pois tem aquilo que falta a muitas bandas que tentam emular o som desta banda: originalidade e capacidade de escrever um disco homogéneo. Além do mais, serve de prova assim como a música e os músicos se podem reinventar sem comprometerem a integridade, derrubando barreiras e preconceitos rumo ao topo.

9/10

domingo, 4 de dezembro de 2011

Italo Calvino «Se Numa Noite de Inverno um Viajante»


«Estás para começar a ler o novo romance Se numa noite de Inverno um viajante de Italo Calvino. Descontrai-te. Recolhe-te. Afasta de ti todos os outros pensamentos. Deixa esfumar-te no indistinto o mundo que te rodeia. A porta é melhor fechá-la; lá dentro a televisão está sempre acesa. Diz aos outros «Não, não quero ver televisão!» levanta a voz, senão não te ouvem: «Estou a ler! Não quero que me incomodem!» não devem ter-te ouvido, com aquele barulho todo; fala mais alto, grita: «Estou a começar a ler o novo romance de Italo Calvino!» Ou se não quiseres não digas nada; esperemos que te deixem em paz.»

Assim começa o primeiro capítulo de um escritor e romance tremendamente invulgares. Nascido em 1923 em Cuba, este autor italiano foi uma das personagens que mais marcou o séc. XX na área da literatura, dedicando quase todo o seu tempo à escrita e à leitura; de facto, para Calvino, ler era tão ou mais importante que escrever e isso reflectiu-se na criação literária que exerceu desde 1947 a 1983, ano da sua morte e no qual é editado Palomar. Em 1979 escreveu este invulgar livro que se foca na paixão que usufruímos ao ler um romance e no qual o protagonista é precisamente eu, você e qualquer outra pessoa, ao largo de uma estória fictícia que engloba dez livros de autores inventados. Calvino dirige-se a nós por “tu” e cria um Leitor e uma Leitora que se conhecem e trocam impressões sobre romances que vão comprando e encontrando, embora estes nunca estejam completos: ao invés, encontram-se acabados mas interrompidos.

A narrativa deambula numa relação de extrema proximidade entre o escritor e o leitor, adquirindo o primeiro a forma do segundo por várias vezes, provocando e metendo-se connosco variadíssimas vezes. Outro pormenor importante é o facto de o título do livro se apresentar também ele incompleto, de certa forma, ou na pior das hipóteses a precisar de umas reticências; os dez romances que fazem parte da obra vão surgindo da interacção que Calvino cria entre o Leitor e a Leitora, da forma como ambos vão trocando ideias sobre romances que os seus autores não acabam ou simplesmente os leitores vêm-se interrompidos e obrigados a mudar para outro romance. Este curtos romances podiam perfeitamente ser contos; na realidade, Italo Calvino sempre se confessou ser mais um contista que um romancista. Os romances, por si mesmos, debruçam-se sobre diferentes temáticas e embora distanciados temporalmente, acabam por se interligarem.

Se Numa Noite de Inverno um Viajante foi escrito para si. É uma amabilidade que o seu autor cometeu ao prestar uma grande homenagem aos livros e à paixão que cada diferente livro desperta em quem o lê. Longe de ser um romance típico, esta arrojada obra desperta um certo sentimento de frustração em relação às expectativas que pode criar e, apesar de ser dirigida a todos, só alguns a vão apreciar.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Bret Easton Ellis «Imperial Bedrooms»


Vinte e cinco anos após o lançamento do clássico da literatura transgressiva norte-americana Less Than Zero, Bret Easton Ellis elabora uma sequela menos bem conseguida em termos de impacto e criatividade, não obstante a marca característica niilista, crua e directa que marca este romance daquele que já nos ofereceu As Regras da Atracção, American Psycho e Lunar Park.

Clay está de volta a Los Angeles depois de viver em Nova Iorque ganhando a vida como argumentista de séries e filmes, reencontrando os seus velhos amigos Julian, Rip, Daniel, Trent e Blair (estes dois últimos agora casados) ligados também à indústria cinematográfica, e Rain Turner, uma jovem misteriosa e ambiciosa que faz de tudo para entrar num filme que Clay está a gravar. Todos continuam muito bem de finanças e todos vivem em apartamentos e condomínios fechados luxuosos, fruto dos lucros do cinema e da sujidade e maldade que a envolve. Em termos de maturidade, continuam como se o tempo não tivesse passado por eles: exceptuando algumas mudanças físicas perfeitamente naturais, o comportamento de todos continua a ser irresponsável, traiçoeiro, festivo e converge sempre nas drogas. Apesar de serem amigos, a relação entre todos é tudo menos normal. Há sempre alguém que pode ser pisado e todo o cuidado é pouco.

Desde o primeiro dia em Los Angeles que Clay se vê perseguido e filmado por um estranho carro e por sms de números bloqueados que o vão ameaçando. Os alertas aumentam a partir do momento em que Clay, personagem principal, se envolve com uma actriz desconhecida, Rain Turner, numa relação amorosa perigosa, desconhecendo o guionista de que Rain é namorada de Julian e uma prostitua do perigoso narcotraficante/proxeneta Rip Millar. Mesmo após descobrir isto tudo, há uma vontade enorme de prosseguir um namoro impossível. Os riscos desta relação materializam-se pouco a pouco, à medida que certos amigos de longa data começam a aparecer mortos vítimas de tortura bárbara. Imperial Bedrooms (título de um tema de Elvis Costello de 1982) revela um lado que já tinha sido explorado anteriormente em Clay, que é a forma como este se posiciona sempre em primeiro e acima de todos, só que desta vez o seu narcisismo pode causar a morte dos que o rodeiam a si e a Turner. Por outro lado, há ainda algo que o une a Blair e o grande amor que outrora ambos nutriram; uma das falhas do romance reside no papel quase secundário que esta tem, participando muito pouco nos diálogos e nas narrações de Clay.

Vinte e cinco anos depois, o ódio de Bret Easton Ellis já não está tão focado na MTV, mas sim na actual tecnologia que sufoca o ser humano: iPhone, internet, exposição da vida privada das pessoas no You Tube e redes sociais. A obra está escrita num estilo noir e modernista capaz de captar a atenção dos novos leitores, no entanto e apesar disto, os que mais vão desfrutar dela serão com toda a certeza aqueles que esperaram mais de duas décadas por algo que não tem o mesmo impacto que o seu “debut”.

Nota: esta crítica foi baseada na leitura da obra no seu idioma original, o inglês.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

«Wrecked»


Filmes que narram histórias de pessoas que sobrevivem a desastres de viação existem em doses industriais, assim como a sobrevivência das mesmas pessoas no meio da natureza onde não existe nada senão florestas e zero sinais de civilização. Wrecked é mais um desses filmes chatos e balofos que se gravam e não se sabe bem o porquê.

Adrien Brody, depois de ter experienciado um grande momento na sua carreira enquanto actor, entrando em grandes sucessos como O Pianista, Colete de Forças ou King Kong e A Vila, está a passar por um oásis cinematográfico, que por vezes acontece aos melhores; Predadores (uma extensão da franchise de 1987), The Experiment e Wrecked vão figurar no seu currículo como verdadeiras manchas-primas. Brody interpreta neste filme o papel de alguém que teve um grave acidente de automóvel e acorda com amnésia aguda, bastante ferido. Sem reconhecer os corpos dos outros passageiros, a personagem de Brody – cujo nome não é revelado – tem que arranjar modo de sair da viatura e sobreviver aos animais selvagens que começam a circundá-lo, na esperança de ir ter a alguma estrada ou povoação que lhe dê auxílio. 

Uma vez fora do veículo e com uma perna lacerada e imóvel, Brody sobe e desce a montanha à procura de alimentos crus (minhocas, formigas, e outras iguarias), bebendo água de riachos na companhia de um cão que o segue para todo o lado, inclusive quando Brody cai no rio que o arrasta durante largas centenas de metros até à foz. Nem Rex conseguiria ter o faro deste animal que acompanha Brody. No meio disto tudo, há um homem que aparece e tenta roubar o que se encontra na mala do carro e uma mulher que, não passando de uma alucinação, vai falando com o sobrevivente, levando-o a ataques de insanidade verdadeiramente mal encenados – tanto ele, como ela. A prestação dos actores faz lembrar aqueles filmes realizados por António-Pedro Vasconcelos, se bem que, bem, nem as mamas de Soraia Chaves iriam tornar esta experiência mais agradável.

Resumindo: um filme muito mau, sem argumento, drama ou algo que o valha. Fica a ideia de que o realizador gastou quase 99% do orçamento em Brody e se esqueceu de que 1% não chega para gravar uma película.

Argumento: Christopher Dodd
Realização: Michael Greenspan

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

«A Árvore da Vida»


Ao fim de mais que uma visualização ainda continuo sem saber exactamente sobre o que Malick quis fazer com este filme e ainda me questiono se é um filme ímpar ou apenas mais um filme cheio de pretensiosismo onírico/pseudo-intelectual. Em quarenta anos de cinema, Terrence Malick realizou uma mão cheia de filmes, tendo-se estreado com o raríssimo Lanton Mills, de 1969, ao que se seguiram duas obras na década de 70 que são encaradas como fulcrais no cinema norte-americano, Noivos Sangrentos e Dias do Paraíso, e uma ausência de vinte anos, regressando em 1998 com A Barreira Invisível e 2005 através de O Novo Mundo.

Em todos os filmes deste realizador, fica a ideia de que cabe a cada espectador tirar as suas próprias conclusões sobre o real valor da película e do seu significado; poderia talvez afirmar que David Cronenberg e David Lynch têm a mesma escola surrealista de cinema. Ou talvez não: a partir do momento em que o próprio Lynch não consegue explicar exactamente o que acontece em Mulholland Drive, acredito que tudo é possível, por assim dizer. Esta árvore da vida começa no tempo que o próprio universo começa a ganhar forma, na época jurássica, no Texas dos anos 50, na contemporaneidade… e num futuro qualquer de sonho e fantasia onde todos quebram as barreiras temporais e físicas e convivem com enorme alegria e muita paz. Brad Pitt, e Jessica Chastain interpretam o papel do casal O’Brien que tem um filho muito especial: Jack. Jack, interpretado por Hunter McCracken e Sean Penn simultaneamente, é um menino que enfrenta o pai severo que ao mesmo tempo o ama, ainda que a relação dos dois seja conflituosa e desesperante em vários momentos: sempre que a narrativa decorre com o pequeno Jack, há sempre um ambiente presente de iminente violência e excesso de autoritarismo, ainda que o pai o faça para bem do rapaz. Por vezes, a realização avança no tempo para os nossos dias e vemos um Jack adulto (Sean Penn) a lutar com problemas do passado que nunca se resolveram. O miúdo Jack pede muito a Deus que este acabe com a vida do pai.

A religiosidade/cristianismo presente em A Árvore da Vida está presente ao longo do filme e “Deus” é proferido com bastante frequência. Na minha opinião, este factor cristão torna o filme demasiado espiritual e pretensioso, como se a história da humanidade estivesse dependente de um deus dito presente e sempre ausente; o deus de Malick existe já na era dos dinossauros. Este deus faz com que um dinossauro não mate outro que se encontra no chão, sem forças, à mercê de ser devorado. Mas não o é. O futuro onde o Homem comunga em paz é um futuro puramente onírico, bíblico e positivista, onde confluem o pequeno Jack, o Jack adulto e o pai O’Brien de mãos dadas. O destaque da obra vai inteiramente para a fotografia e o som; é simplesmente brilhante a forma como as cascatas, rios, florestas, vulcões, mar e toda a Mãe Natureza é filmada em grande esplendor. Há uma constante exultação à serenidade, sempre que os seres e paisagens onde estamos inseridos aparecem no grande ecrã. Por outro lado, os close-ups das personagens são de realçar, ainda que se repitam em demasia, forçando o espectador a se “desligar” do filme. Perdão, não são apenas estes planos próximos de câmara que distraem o espectador, a ausência de um fio condutor lógico na narrativa e os sucessivos recuos/avanços e avanços/recuos contribuem de sobremaneira para que se concentre na imagem/som e ignore os diálogos, mesmo quando estes não estão a louvar Deus.

A Árvore da Vida é um filme audaz e uma grande produção cinematográfica com boas prestações dos actores a nível geral, ofuscada em demasia pelo simbolismo que Malick introduz. Talvez à décima contemplação eu consiga compreender inteiramente todas as mensagens da obra… até lá, fico-me pelo híbrido pretensiosismo/boa qualidade.

Título original: The Tree of Life
Argumento: Terrence Malick
Realização: Terrence Malick

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Lev Tolstoy «A Morte de Ivan Iliitch»


Sempre que se fala em Literatura, é impossível fugir à figura de Lev Tolstoy e àqueles que são considerados expoentes máximos da literatura russa e que viriam a abalar os alicerces da época em que são publicados: Anna Karenine e Guerra e Paz. É óbvio que seria pretensioso e arrogante da minha parte excluir Os Irmãos Karamazov e Crime e Castigo de Fyodor Dostoyevsky, a obra ligada ao teatro de Chekhov ou Doutor Jivago de Boris Pasternak; pior seria não mencionar A Morte de Ivan Iliitch, infinitamente elogiado por António Lobo Antunes e Vladimir Nabokov. 

Tolstoy, nascido a 28 de Setembro de 1828, foi uma das figuras que mais marcaram a sociedade russa: nascido num berço nobre, Tolstoy acabou a sua vida longe dos luxos junto dos camponeses, adoptou ideias anarquistas, converteu-se ao cristianismo e defendeu uma ideia de proximidade entre o ser humano e a natureza. Morreu a 20 de Novembro de 1910 e deixou um legado tanto literário e humanista de grande valor para o Homem. Neste livro, como o título sugere, aborda-se a morte de um juiz da classe burguesa e sua luta contra uma doença fatal que o faz rever toda a sua existência e fragilidade. Ivan Iliitch, tal como Tolstoy antes de se juntar aos camponeses, é um homem que comete excessos, casa-se por conveniência em vez de amor e acaba por falecer devido a uma queda que afectou um rio ou o ceco.

O primeiro capítulo começa precisamente com o anúncio da sua morte contada pelos seus amigos mais próximos que trabalham consigo no tribunal e com o velório que decorre na casa de Iliitch. A esposa, apesar de triste, preocupa-se com quanto dinheiro ganhará com a morte do marido, os seus amigos fazem contas à vida profissional: com a morte do malogrado, haveria certamente quem subisse qualitativa e economicamente no emprego. A única pessoa que se mostra triste, mas resignado com a partida de Iliitch, é o seu criado Guerassim – pessoa que mais zelou e ajudou o patrão durante a sua enfermidade até à sua morte. Após estes capítulos iniciais, Tolstoy imprime uma mudança no texto e passa de imediato para a vida de Ivan Iliitch. Assim que adoece, Iliitch apercebe-se da sua fragilidade ao ver o seu corpo mirrar e do quão frágil a vida é, perguntando-se a si mesmo o porquê de ele estar a morrer, ele que viveu sempre de forma justa. A não aceitação do seu estado e a proximidade com a morte deprimem e pioram o seu estado, acabando por afastar os que o rodeiam. Apercebe-se de que os outros têm pena de si, mas esse sentimento condescendente enerva ainda mais a condição de Iliitch, até que entra em diálogo consigo mesmo e com Deus.

Na realidade, Tolstoy usa Ivan Iliitch para espelhar-se. Tanto um, como outro, são oriundos de famílias abastadas, têm bons empregos, esposas artificiais e não pensam muito na morte, até que a doença entra nas suas vidas. Tolstoy, e em especial quando a doença que haveria de o matar lhe bate à porta, aproxima-se mais de Deus e da natureza, repudiando no entanto o cristianismo enquanto religião organizada e institucionalizada, transmitindo a mensagem de que a morte é algo que não podemos evitar enquanto seres vivos, mas que a morte pode não ser o fim do Homem: aquele que se entrega à natureza e que sente Deus e a sua humildade dentro de si mesmo, em oposição aos que materialistas, viverá uma morte em paz. Por outras palavras, Iliitch apercebe-se de que a sua vida de aparências e exageros, ligada a um emprego que lhe dá o direito de julgar, ilibar ou condenar outros homens, foi uma vida má e, assim que aceita a morte física, a sua vida espiritual iniciar-se-á após a morte. A sua vida começará neste ponto.

O único que se orienta sob este estilo de vida espiritual e que aceita a morte como parte natural da vida é o já referido criado Guerassim, a única personagem do povo em todo o livro e a que mais contribui para a calma interior que Iliitch adquire na fase final da sua mortalidade. Uma obra ímpar, aparentemente simples, mas profundamente enraizada na filosofia de vida de Tolstoy.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Roberto Bolaño «O Terceiro Reich»


Ler este autor implica ter a seu lado uma boa chávena de café quente, sentar-se de preferência numa esplanada ao sol e algo para matar a sede. Apontado por muitos como um dos grandes génios das últimas décadas da literatura latino-americana e autor dos best sellers 2666 e Os Detectives Selvagens, Roberto Bolaño não me tinha impressionado neste último Verão, altura em que li e opinei sobre Os Dissabores do Verdadeiro Polícia (obra póstuma, tal como esta), sem no entanto conseguir escapar ao elogio da sua escrita.

Posto isto, a obra é-nos apresentada em forma de diário de Udo Berger, um alemão de Estugarda que é viciado e campeão de jogos de estratégia conhecidos por “wargames” viaja até à Costa Brava na Catalunha e fica instalado no hotel Del Mar, na companhia da sua namorada Ingeborg. O hotel Del Mar é o local onde Udo passava férias com regularidade na companhia da sua família, gerido pela bela Frau Else e o seu marido que o protagonista tinha conhecido há já dez anos e dos quais ainda se lembra perfeitamente, muito em particular de Frau Else. A Catalunha é especialmente quente e descontraída na época balnear e muitos são os turistas alemães que decidem passar lá as suas férias e apanhar um tom de pele mais escuro, como é o caso de Hanna e Charlie, casal que Udo e Ingeborg conhecem na praia e nas saídas nocturas. Junta-se o Lobo e o inseparável Cordeiro, dois espanhóis locais e uma personagem intrigante, o Queimado, alcunha resultante das enormes queimaduras e cicatrizes que a personagem possui, e temos as personagens principais de O Terceiro Reich.

Udo não vive sem o seu jogo de tabuleiro bélico, nem mesmo nesta altura em que devia estar deitado na praia e a dar mergulhos no mar; não, em vez disso, o alemão passa o tempo enfiado no seu quarto a delinear novas estratégias para simular a vitória nazi na Segunda Guerra Mundial contra um oponente de peso e que lhe causa algum mal-estar: o Queimado, jogador dos Aliados. A obra gira parcialmente em torno destes jogos de estratégia e no reviver da História - matéria na qual Bolaño apresenta um conhecimento de causa assinalável -, adicionando simultaneamente uma intriga policial à narrativa quando Charlie morre misteriosamente numa das suas habituais incursões de windsurf no mar. Outro factor que confere à obra um certo nervoso miudinho e prenúncio de que algo de mau vai acontecer, ocorre nos jogos contra o Queimado, do qual pouco ou nada se sabe, mas há sempre indícios de que há mistérios por resolver e de situações adversas.

O Terceiro Reich está interligado com A Literatura Nazi nas Américas e Estrela Distante (romances que já se encontram no mercado português), recupera personagens de outros romances, chama por grandes nomes da literatura mundial e tem como ponto forte a forma descontraída, mordaz e realista que Bolaño utiliza para narrar os acontecimentos, adensada pelo já referido mistério e características das obras de carácter policial. A estadia de Udo Berger e a relação que este estabelece com Frau Else, o Queimado os outros habitantes e locais que rodeiam o hotel proporcionam agradáveis horas de leitura ao ritmo sul-americano.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Irons / Pulling Teeth «Grey Savior»


Bons músicos não se limitam a fazer apenas uma coisa: os que são verdadeiramente excepcionais gostam de descobrir novos territórios e ao mesmo tempo transcender-se através de diferentes sonoridades. Posto isto, estes Irons resultam da queda de preconceitos e ousadia por parte de Jacob Bannon (o mentor dos Converge), Dwid Hellion (Integrity) e Stephen Kasner (reconhecido artista gráfico e músico multi-instrumentalista), que juntos, formaram um dos conceitos musicais mais interessantes e misteriosos dos últimos anos.

Tal como os três músicos enunciados no parágrafo de cima, os Pulling Teeth têm também as suas raízes no hardcore punk caótico e nalgum crossover sujo, do qual resultou o seu álbum de estreia Vicious Skin, seguido por Martyr Immortal, um disco que conferiu à banda um burburinho merecido, especialmente pela sua última faixa intitulada Dismissed in Time. O disco é composto por quatro temas interpretados pelos Irons e dois da autoria dos Pulling Teeth, sendo que um deles (o já referido Dismissed in Time) é uma remistura levada a cabo por Jacob Bannon, que lhe acrescentou um minuto extra e um brilho extra, graças à dose de folk e “factor épico” que os violinos ficaram a ganhar – Bannon faz questão de contribuir fortemente para que não seja apenas mais uma remistura; Generals of Dark Hymns assenta num híbrido de sons que lembram um pouco o percurso da artista Jarboe, os últimos trabalhos de Sunn O))), apimentados com alguns riffs melódicos, vozes secundárias raivosas a puxar para o Nothing Positive, Only Negative dos Facedowinshit, teclados introspectivos e um clímax sensacionalmente distorcido. 

A música dos Irons é feita a partir da electronica invulgarmente étnica que se enquadra algures entre o post-rock e a poesia futurístico-apocalíptica, onde uma textura suave e onírica empurra uma brisa que sussurra frases e ecos ríspidos. Letting Go é a grande excepção desta regra, pois, graças à sua melodia, fica distante do sentimento de sufoco que ocorre em determinados momentos dos três restantes temas, muito em particular de Sky Funeral, faixa que faz uma boa transição entre o fim de Irons e o princípio de Pulling Teeth. Fica no ar a ideia de que Bannon recupera um pouquinho do seu já extinto projecto Supermachiner, refira-se.

Grey Savior é um disco agradável e com grandes momentos de experimentalismo por parte das duas bandas, ainda que seja uma pena que não haja mais que um tema original e um remisturado por parte dos Pulling Teeth. Mesmo assim, e apesar de trazer ao de cima um aroma dos Swans, este é um disco extremamente recomendado para quem quer descobrir o “outro lado” de Jacob Bannon e a criatividade de outros grandes músicos que fizeram com que este vinyl/download digital visse a luz do dia. 

8/10

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Alcest «Le Secret»


Quando penso em neve, penso em frio, humidade e o sonho de todas as crianças: bonecos de neve, pois claro. Penso também na Suécia, Noruega e Finlândia, no povo sami que habita as lindas e gélidas paisagens do norte destes referidos países, e ocasionalmente dá-me vontade de ouvir Celtic Frost e Bathory (todas as suas metamorfoses). Por vezes, divago a pensar na experiência que é estar numa sauna a 80 graus e desatar a correr nu para a neve, onde imperam os 30 graus negativos e onde se dá um choque térmico inicial que paralisa o corpo, para logo de seguida nos deixar extasiados e relaxados.

A primeira vez que escutei Alcest, fiquei absolutamente extasiado, como se tivesse passado novamente pela experiência quente/gélida que referi no parágrafo anterior, e curiosamente, o mentor desta banda do sul de França dá-se a conhecer pelo nome artístico de “Neige” (“neve”, em português). Ao contrário do que possa sugerir a neve no contexto mais obscuro do heavy metal – black metal e as conotações satanistas e nihilistas -, Neige compõe música absolutamente bela e afastada ao máximo dos clichés habituais no mundo do rock extremo: Alcest representa, segundo o próprio Neige, um conjunto de memórias da sua infância que o levavam para um mundo onírico, distante da Terra, habitado por fadas e composto por riachos, árvores e grandes florestas que emitem uma luz forte adornada por pérolas e onde a música celestial preenche o ar puro de perfume. Alcest é… tudo menos a inferno e o gelo do black metal, apesar de nas primeiras demos a banda cambalear em torno do género.

Le Secret, totalmente cantado em francês, foi o primeiro EP da banda, lançado em 2005 pela Drakkar Productions e agora, felizmente, reeditado pela Prophecy Productions. O disco não difere muito da sua primeira edição, na altura composto por dois temas Le Secret e Élévation, sendo que estes sofreram uma remasterização, perfazendo então quatro músicas. Reina aqui a música atmosférica com influências do post-rock de uns Mogwai e o shoegaze que caracteriza parte da composição musical dos Agalloch, intercalado com laivos de black metal minimalista e um certo aroma a The Gathering, na sua fase mais trip-rock. A água da nascente desce ao longo do riacho de Le Secret, mas é em Élévation que o som do disco se torna mais épico e memorável, com teclados e vozes cortantes e acordes de guitarra plenos de melodia. O calcanhar de Aquiles desta reedição reside precisamente nas vocalizações abafadas e pouco nítidas, quando em comparação com o instrumental; com efeito, nem mesmo a remasterização trouxe ao de cima a verdadeira essência das cordas vocais de Neige, que soam mais mágicas nos dois longa-duração que se seguiram a este EP (Souvenirs d'un Autre Monde e Écailles de Lune, respectivamente).

Esperava um pouquinho mais da lavagem efectuada aos dois temas de 2005, porém, este Le Secret é óptimo no sentido em que é essencial para a compreensão dos Alcest e porque a primeira edição há muito que se encontrava esgotada ou a preços exorbitantes. A ouvir e desfrutar enquanto Les Voyages De L'Âme não vê a luz do dia.

7/10

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Despise You / Agoraphobic Nosebleed «And On and On»


As compilações são, regra geral, uma boa maneira de as bandas encaixarem lucro fácil à custa de uma reunião de temas que o ouvinte mais aprecia das mesmas (que o digam os Iron Maiden, com aqueles best ofs natalícios). No entanto, e de vez em quando, há compilações que fazem sentido, em especial as que reúnem vários artistas desconhecidos com alguns que já se conhecem; a Relapse conseguiu, nos últimos anos, fazer duas compilações de grande nível no espectro do crust/noise/grindcore e powerviolence nas suas This Comp Kills Fascists Volume One e Volume Two.

Do segundo volume saíram os Despise You, banda que explora os caminhos do powerviolence cru na veia dos clássicos do Japão e E.U.A., com influências da primeira vaga do hardcore punk. O conjunto californiano contribuiu com dezanove temas para a primeira parte deste split com os Agoraphobic Nosebleed e mostra que o powerviolence norte-americano está a crescer e a ganhar novamente o respeito e interesse de outrora, disparando temas curtíssimos (20, 30, 60 segundos), dos quais se destacam Bereft, Roll Call, o punk de Fear’s Song (tributo aos The Fear?), Two or Tem Faces. Shit Goes In, Shit Comes Out e You Can’t Fix Me, com pujantes riffs thrash, são, também, óptimos cartões de visita.

A segunda parte do disco – também disponível em formato vinil 12” – ficou a cargo dos Agoraphobic Nosebleed, banda estandarte do movimento noise/grindcore norte-americano que juntou Kat Katz (ex-Salome) a Jay Randall e Richard Johnson no quarto álbum de estúdio, Agorapocalypse, de 2009, e oferece a costela mais brutal deste split com sete temas que equilibram o material que antecedeu o disco de 2009 com esse mesmo, embora a produção e as linhas com que se cosem incidam muito mais naquilo que caracterizou Agorapocalypse: maior influência do thrash metal, solos como aquele que abre As Bad As it Is e o de Possession, revelando um Scott Hull na guitarra cada vez mais dinâmico e mais focado em variar as curtíssimas Los Infernos e Miscommunication com as arrastadas e decadentes Burlap Sack e Half Dead – que belos riffs Napalm Death/Obituary que aqui se fazem ouvir. 

Em suma, And On and On é um disco interessante que dá a conhecer um pouco mais dos Despise You, que já andam nisto desde 1995 e que contam apenas com um longa duração (West Side Horizons), prolongando também o já extenso rol de EPs/splits dos Agoraphobic Nosebleed.

7.5/10

domingo, 13 de novembro de 2011

Falloch «Where Distant Spirits Remain»


O início dos anos 90 marcou uma era musical que ficou a ser conhecida por “dark metal”, que resultava da mistura de estilos agressivos com um toque melancólico do doom ou até mesmo do gothic metal. My Dying Bride, Paradise Lost e Katatonia foram três destes exemplos que mais sucesso mainstream obtiveram, muito à custa de Dance of December Souls, Gothic e Turn Loose the Swans; mais tarde, os Opeth surgiram com Orchid  e a aproximação clara ao metal progressivo, os Agalloch mostraram que os Joy Division são mais que compatíveis com o metal no seu “debut” Pale Folklore e os Thanatoschizo lançaram um fenomenal lançamento nesta área vanguardista, deu seu nome InsomniousNightLift.

Formados em 2010, os Falloch são um duo da cidade de Glasgow, formado por Andy Marshall e Scott McLean e seguem as pisadas da recente fama que Agalloch e Alcest têm vindo a gozar. A fórmula consiste na mistura de rock progressivo, neo-folk, black metal atmosférico e algum shoegaze à mistura, proporcionando momentos épicos e belos, mas tem um problema: só resulta quando bem trabalhado, algo que não se observa com sucesso nestes Falloch. A colagem a Agalloch começa no logótipo da banda, no “lloch” do nome e no som, na sua grande maioria, o que é triste, pois mesmo o último Marrow of the Spirit denotou perca de fulgor e criatividade por parte do conjunto de Oregon e estes escoceses conseguem fazer um trabalho ainda com menos brilho.

Where Distant Spirits Remain é um disco com bons temas e, no global, soa bastante homogéneo, e isso tem que ser ressalvado. O primeiro tema do disco, We Are the Gathering Dust, é dos mais fortes e apresenta boas ideias, nomeadamente no escasso recurso à batida black metal, nas quebras de rimo e os samples de água a descer nas nascentes e nos rios da paisagem escocesa ajudam realmente a criar uma sentimento de envolvência entre a música e o ouvinte… até ao momento em que os dedilhados acústicos repetitivos nos preparam para recta final e anunciam fugazes, algo desconexos, blast beats com que a canção termina. Os instrumentos de sopro – ou a sua emulação – estão presentes em boa parte do disco, como se verifica em Beyond Embers and the Earth ou na instrumental Horizons (esta com um grande toque celta), mas tentam muitas vezes ser uma via de escape à previsibilidade que predomina no disco.

A voz de Marshall é boa e denota talento, ainda que atinja um patamar demasiado limpo e polido, forçado e aborrecido nalguns momentos. Isto juntado ao instrumental simples e previsível que marca este álbum e o peso-pesado que dá pelo nome de Agalloch, tiram todo o brilho e potencial que Where Distant Spirits Remain poderia ter para oferecer. Enquanto o “hype” à volta do género durar, acredito que os Falloch consigam atingir sucesso; sem embargo, The Mantle ou Souvenirs d'un Autre Monde são alternativas muito, mas muito mais sólidas e satisfatórias.

5.5/10

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Steven Blush «American Hardcore: A Tribal History»


A música, como todas as vertentes estético-artísticas, tem movimentos e períodos específicos que marcam uma era e perduram no tempo. Hardcore punk pode ser definido como a segunda vaga do punk rock, caracterizando-se principalmente pelo ritmo acelerado da bateria, distorção acentuada nas guitarras, letras consideravelmente berradas, músicas curtas (dois a três minutos) e uma ênfase lírica que vai para além do anarquismo que marcou grande parte do punk rock britânico (The Crass, Sex Pistols, The Exploited, etc), abrangendo tópicos como a própria cena hardcore, o vegetarianismo/veganismo, a postura straight edge, gravações independentes de discos ou revolta contra o governo de Ronald Reagan (no contexto norte-americano). 

Steven Blush é alguém que acompanhou de perto e conviveu com as maiores bandas norte-americanas, utilizando aqui nesta enciclopédia vários testemunhos de situações que ocorreram e de amigos que ele fez e com os quais ainda mantém contacto, dando um precioso contributo para uma melhor compreensão do movimento e de muitas bandas em particular. Com efeito, Blush fez uma pesquisa minuciosa sobre o período de 1980 a 86, altura em que, para ele e alguns dos entrevistados, o hardcore punk morre, cobrindo praticamente estado a estado, desde o sul/norte da Califórnia (Black Flag, Circle Jerks, Dead Kennedys, Agent Orange, The Adolescents, Suicidal Tendencies, Descendents, Minutemen), o Texas (Dirty Rotten Imbeciles, Verbal Abuse), Nevada (7 Seconds), Washington DC [Minor Threat, Bad Brains, The Teen Idles, Iron Cross, Scream (banda de Dave Grohl, que mais tarde viria a integrar os Nirvana e a formar os Foo Fighters)], Nova Iorque (Reagan Youth, Agnostic Front, Murphy’s Law, Beastie Boys), Minesota (Hüsker Dü), Carolina do Norte (Corrosion of Conformity), Massachusetts (Social System Decontrol, Negative FX, Siege)  e outros estados de menor importância para o movimento, havendo um grande destaque para a Califórnia, Nova Iorque e Washington DC.

Blush diz o que pensa e não pensa duas vezes antes de ridicularizar alguma banda ou ramificação do hardcore punk, embora por vezes teça alguns elogios a determinados sub-géneros e discos que não são propriamente hardcore, mas que tiveram uma grande influência na cena – os discos dos Fear e Flipper merecem destaque por parte do autor. Enquanto Blush analisa o que aconteceu depois de 86 e o aparecimento do thrashcore, crossover, sludgecore, youth crew, post-hardcore, emocore, screamocore, powerviolence, grindcore, crustcore, etc, ele revela curiosidades sobre várias bandas e mutações de certos artistas: Moby, que teve uma banda de hardcore punk, os já referidos Corrosion of Conformity e sua passagem do hardcore cru para o sludge/stoner, o rap dos Beastie Boys, a conversão post-punk/goth dos The Sounds of Liberty e mais outros pormenores que valem a pena ser lidos.

«Estou a documentar a cena musical do hardcore punk americano porque está a ser esquecido. A sua história está-se a evaporar e os seus participantes caem no esquecimento ou encontram a religião ou reprimem as memórias daqueles dinâmicos dias. Este livro expressa os melhores anos do hardcore american, de 1980 a 86. Muito se passou naqueles anos. Hardcore foi mais que música – tornou-se também num movimento político e social. (…) O mundo mudou dramaticamente ao largo das últimas décadas. O que ocorreu no início dos anos 80 não pode voltar a ser repetido». É desta forma crua e directa que Steven Blush inicia o seu livro; no entanto, será que o hardcore punk morreu de facto em 86? Penso que não.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

António Lobo Antunes «Quarto Livro de Crónicas»


Ao quarto livro, mais setenta e nove crónicas. António Lobo Antunes escreve com regularidade para a revista Visão desde há uns anos para cá, onde são publicados textos que se destacam pela sua melancolia contrastante com o humor do autor, e a D. Quixote encarrega-se depois de fazer a sua compilação, como acontece neste agradável Quarto Livro de Crónicas – o primeiro data de 1998.

Ao largo destas quase oitenta crónicas, António Lobo Antunes viaja pelo seu passado, recuperando as memórias da infância em Nelas e Benfica, dos avós e dos pais, da mercearia do Sr. Casimiro, da caça às lagartixas, das travessuras, dos professores da escola, dos amigos, da escrita precoce ou da aptidão para jogar hóquei. A guerra colonial em Angola é também assunto em destaque, fazendo Lobo Antunes questão de mostrar ao leitor o carinho, os maus momentos e a saudade que nutre pelos seus camaradas – alguns já mortos - sempre que pensa neles ou quando há jantares de reunião e convívio entre velhos amigos que são, no fundo, irmãos de guerra (AcácioAntónioAcácioAntónioAcácioAntónioAcácioAntónio). António Lobo Antunes estabelece diálogos íntimos consigo mesmo e com quem o lê, retratando muitas vezes o seu processo de criação dos seus livros (Onde o Pobre Escritor Começa), o que o motiva a escrever, a força que ele busca, por vezes, para conseguir dactilografar uma boa crónicas e quando deita fora alguns capítulos de um livro que nunca chega a ser livro, conduzindo-o à estaca zero – e lá começa de novo o processo, culminando com o êxito que é reconhecido pela imprensa e pelo leitor fiel - Crónica com Buganvílias: «(…) Fazer livros é uma tarefa que não associo ao prazer. E, no entanto, que outra coisa verdadeiramente me interessa? Além do mais tornou-me humilde, isto é, deu-me um orgulho humilde.».

António Lobo Antunes escreve também sobre alguns escritores que o marcaram (O Capitão da Areia), alguns seus amigos, outros que nunca conheceu; porém, há crónicas cujo título remete de imediato para o sujeito em questão: (Miguel Torga, Juan Marsé). Convém ressalvar que nestas crónicas há um sentimento de saudade predominante – infância, adolescência, pai e avó, principalmente -, um sentimento de tristeza relativo à guerra colonial e um enorme sarcasmo hilariante que o autor descobre para amenizar e tornar divertida toda a melancolia aqui descrita – há também o regresso à já conhecida crónica sobre os dentistas, A Cadeira do Dentista, a mais cómica deste Quatro Livro de Crónicas.  

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

«Død Snø»


Se já visitou anteriormente este meu blog(ue?), sabe que adoro filmes de terror e que sinto um enorme fascínio pelo género. Desde os clássicos de Romero, do boom italiano de realizadores que contribuíram para o crescimento e criação de uma certa sedução por parte dos mortos vivos - de onde gostaria de destacar, entre muitos outros, Dario Argento (Suspiria) e Lucio Fulci (Zombie 2 - A Invasão dos Mortos Vivos), visitando a rua de Elm Street, o Halloween de 1978 (e o espectacular remake que Rob Zombie fez em 2007), as experiências na reanimação dos mortos (Reanimator), ou os recentes Silent Hill, Stake Land, Os Renegados do Diabo, etc, etc, etc.

Uma das minhas mais recentes descobertas foi este Død Snø, conhecido internacionalmente pela sua anglicização Dead Snow, um filme realizado no país dos fiordes, black metal, neve, bacalhau e dos deuses mitológicos dos vikings: a Noruega, pois claro. Tommy Wirkola juntou um grupo de jovens actores e levou-os até Øksfjord para realizar um hilariante filme de zombies nazis que ficaram presos em Finnmark no final da II Guerra Mundial. Enquanto os alemães, liderados pelo Coronel Herzog, ocuparam o norte da Noruega, trataram de pilhar, incendiar e matar uns quantos civis, até que um dia a população local se revolta e trata de ajustar contas, expulsando-os do território. Oito estudantes de Medicina vão passar as suas férias da Páscoa numa cabana isolada na neve e deparam-se com uma caixa antiga que contém, nada mais, nada menos que ouro e moedas dos nazis que outrora ocuparam a área; mal sabiam eles que ao desenterrarem o tesouro estariam a libertar o mal dos soldados alemães que, afinal de contas, nunca chegaram a morrer: tornaram-se zombies. Até aqui, a originalidade não é muita e, verdade seja dita, não importa muito – é um filme sobre zombies feito precisamente para fazer rir.

A carnificina é um dos pontos fortes do filme, em detrimento daquelas cenas em “slow motion” com montes de tiros e estilhaços como temos assistido no massacre feito à saga Resident Evil, a acção decorre de forma rápida e espontânea: são oito contra um exército de mortos vivos do III Reich e não há tempo para cenas românticas, importa mesmo é disparar e correr, disparar e correr. E quando não há armas de fogo, o que estiver à mão também conta como utensílio de defesa. Há aqui cenas que fazem lembrar de imediato a The Evil Dead – A Morte Chega de Madrugada: a cabana, onde decorre grande parte da narrativa, uma motosserra que tritura tudo o que toca e uma cena – a segunda mais hilariante do filme, passo já à número um – tipicamente Sam Raimi: uma vez mordido num braço por um zombie, uma personagem passa de imediato à amputação do membro a sangue frio e com a ajuda da motosserra. A cena mais hilariante da película acontece quando duas personagens estão dentro da cabana, cercados por um batalhão nazi, e lançam um cocktail molotov… que explode e incendeia a cabana. Segue-se uma chamada telefónica para o 112, informando o operador de que estão a ser atacados por zombies da Segunda Guerra Mundial.

Død Snø não inova em praticamente nada num género povoado por um sem número de maus filmes – muito maus – que tentam, sem efeito, focar-se em relações amorosas e deixam de fora o elemento principal num filme de terror com boa disposição: espontaneidade e diversão.

Argumento: Tommy Wirkola, Stig Frode Henriksen
Realização: Tommy Wirkola

sábado, 29 de outubro de 2011

Opeth «Heritage»


O que fazer quando uma banda anuncia que vai mudar de estilo, mantendo no entanto, os alicerces de toda a sua obra discográfica? O que fazer, então, se quem responde à pergunta é um seguidor de longa data do grupo, tem as raridades, compra bootlegs e LPs? Talvez a maioria desses fãs goste do que a banda venha a compor, talvez a maioria sacuda a cabeça em desagrado.

Heritage marca a passagem do death metal progressivo para o rock progressivo genuinamente anos 70, a começar no design da capa do disco, na produção e a acabar, bem, na música. Mikael Åkerfeld, líder e mentor de uma das bandas que mais inovou e quebrou barreiras no heavy metal dos últimos quinze/vinte anos, já há muito que ia avisando que um dia iria fazer um disco puramente progressivo, baseado nas bandas que ele e o resto da banda cresceram a ouvir: Camel, Yes, Genesis, King Crimson, etc. Åkerfeld, em entrevistas, afirmou que se sentia um pouco deslocado da comunidade death metal e que quando era mais jovem não era propriamente um metaleiro; antes alguém que apreciava metal extremo, sim, mas que não era fanático pelo mesmo – em 2006, aquando da passagem da banda pelo extinto Hard Club de Vila Nova de Gaia, e promovendo Ghost Reveries, ele questionou a plateia se apreciava… Camel, Yes, King Crimson.

Esta não é, no entanto, a primeira vez que os suecos apostam num disco rock, visto que já em Damnation tinha havido uma abordagem claramente roqueira e em prol de algo que tinha semelhanças com Porcupine Tree em vários aspectos. Sem embargo, era público que a banda iria aproveitar essa experiência mais calma e voltar ao death metal que lhes era conhecido, ao passo que este Heritage cria uma verdadeira incógnita: alguma vez recuperarão o fulgor de um My Arms, Your Hearse, ou aqueles guturais e aqueles riffs brutais de uma Master's Apprentices? Só Åkesson, Svalberg, Axenrot, Méndez e Åkerfeldt saberão responder à pergunta. O álbum em si apresenta-se compacto, muito bem tocado e com um aroma demasiado anos 70, para grande pena da originalidade que marcava os anteriores registos. Os dedilhados e os riffs funcionam às mil maravilhas, a percussão de Axenrot é, no mínimo, enorme, e o baixo e órgão vincam bem a aposta progressiva – especialmente o órgão - de há quatro décadas no tempo.

Heritage é também um trampolim para Åkerfeldt mostrar a graciosidade da sua voz limpa – que bela que ela é -, sem qualquer berro, num equilíbrio constante de um músico que tem agora a sua oportunidade para mostrar ao mundo que tem um timbre único e que compõe letras como poucos, a juntar à criatividade da sua guitarra. O disco falha claramente na colagem demasiado óbvia aos colossos do rock progressivo, já referida por mim e por todos aqueles que opinam sobre o álbum, e isso é algo que a banda pouco poderá argumentar para se defender, mas era isto que eles queriam gravar e, nesse aspecto, sempre foram honestos – nada de dedos em apontados, por favor. Os momentos de maior intimismo são aqueles que soam melhor e que dão realmente gosto de serem apreciados vezes e vezes sem conta; estou a falar de Nepenthe e do seu grande solo à Jethro Tull, do aroma folk tão bem conseguido de The Lines in My Hand, as variações de rimo e peso de Famine e a vénia que tem que ser feita ao sentimento épico que Folklore transmite. Menção honrosa para o tributo a Ronnie James Dio de Slither, a faixa mais hard ‘n’ heavy do décimo disco de originais do grupo do sul da Suécia.

O ouvinte mais casual vai adorar Heritage, o fã de longa data vai ficar algo decepcionado, enquanto que o tal que tem tudo e mais alguma coisa da banda, embora defraudado, vai esgrimir argumentos e “factos” que comprovam que não, que este álbum é fantástico e que a originalidade abunda. Enfim, tem os seus grandes momentos, foi composto por músicos de calibre inquestionável, mas estamos em 2011, não em 1970.

7/10