sábado, 28 de abril de 2012

Gabriel García Márquez «A Hora Má: O Veneno da Madrugada»


Alguém anda a colocar pasquins no centro da vila e ninguém sabe quem são os autores, um don juán recebe tiros de caçadeira enquanto anda a cortejar mulheres, um padre anda preocupado com os ratos que povoam a igreja, um alcaide fora da lei - à conta com um abcesso num dos dentes – decreta estado de sítio e recruta um barbeiro e uns homens duros para encontrar a fonte dos pasquins difamatórios.

É assim o universo do terceiro livro da extensa obra do colombiano Gabriel García Márquez, vencedor do Prémio Nobel de 1982, responsável por incontáveis estórias mágicas em redor da aldeia de Macondo e outros locais fictícios do seu país natal. Tido em conta como um dos precursores do realismo mágico, este autor é mestre a contar narrativas ao ritmo de boleros quentes onde personagens vivem a vida num estilo relaxado, apaixonado, mas com fortes doses de violência e justiça pelas próprias mãos, envolvidas num sentido de humor invulgar, com bastante recorrência à superstição e divindades para justificar – em muitos destes casos, para ocultar – um quotidiano adverso, duro e corrupto.

A hora má e seu veneno chegam após Cesar Montero se levantar da cama, sair à rua e constar que havia um pasquim na porta da sua casa a informar que a sua mulher lhe estava a ser infiel: o clarinete do amor de Pastor nunca mais se ouviu na vila graças aos disparos que Montero lhe espetou no bucho. Este é o incidente que despoleta o autoritarismo de um alcaide corrupto, o superior de uma equipa de oficiais também eles corruptos - quase todos eles com cadastro -, que aplica uma lei que obriga o recolher obrigatório de toda a população das 20 às 5 horas para descobrir quem anda a colocar pasquins clandestinos sobre a vida dos habitantes. A restante população vive com o medo que uma nova guerra civil comece, contudo a guerra que mais os preocupa é o dia-a-dia da vila cujo nome não nos é revelado. 

Assassinatos, infidelidades, velhas disputas familiares e muita sabedoria popular e humor fazem parte deste grande romance que só me desapontou um pouco nas últimas páginas. Algumas personagens de Cem Anos de Solidão, o romance mais aclamado de Garbiel García Márquez, também aparecem por cá.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Agustina Bessa-Luís «A Sibila»


Esperava um pouco mais de uma escritora tão bem referenciada como Agustina Bessa-Luís o é. Ou pelo menos, contava com algo diferente, algo mais trabalhado, algo mais complexo e rebuscado, mais ao estilo de Carlos de Oliveira.

Esta autora, nascida a 15 de Outubro de 1922 na região do Douro, conquistou com este mesmo romance os prémios Delfim Guimarães e Eça de Queiroz, dois dos mais importantes galardões a nível lusófono. É-nos contado neste registo a estória da geração da família Teixeira, ao longo de um século de existência, e a sua vida na casa da Vessada, situada no Douro e Minho. A personagem principal é Maria Joaquina, tratada por Quina, que é apelidada de sibila – mulheres proféticas da mitologia grega e também romana – pela sua força, carácter e determinação com que governa o seu espaço e os que a rodeiam, estando sempre disponível para dar a mão a quem precisa de ajuda.

Cronologicamente, a narrativa alberga o final do séc. XIX até meados do séc. XX – o livro foi escrito em 1953 e publicado um anos mais tarde – e relata os tempos de Maria e Francisco Teixeira numa primeira parte, e Quina, os irmãos e os sobrinhos noutra; o romance inicia-se precisamente no final do século passado com Germa, sobrinha de Quina, à conversa com Bernardo e recordar o passado da família. A partir daí, Agustina Bessa-Luís entra numa viagem pelo Portugal rural que estava a sofrer os efeitos da urbanização e mudança social - ainda que de forma muito lenta -, representada por Bernardo e pacialmente por Germa. Quina, sempre descrita como uma mulher do povo, forte e governada, terá algumas semelhanças com a própria autora, creio eu. 

Uma geração que assistiu à instauração da República de 1910 e que passou pelo Estado Novo, ainda que as referências ao fascismo não abundem tanto como seria de esperar, num romance com bastantes referências a grandes pensadores e romancistas britânicos e franceses, escrito com termos que caíram em desuso – muitos próprios do Douro/Minho – num estilo simples e alegre, mas que ficou longe de me empolgar.

domingo, 22 de abril de 2012

Guillermo Arriaga «O Esquadrão Guilhotina»


Para além de ser o argumentista da trilogia de pérolas Amor Cão, Babel e 21 Gramas, o mexicano Guillermo Arriaga é também um romancista.  Profundamente interessado na história do seu país e de toda a América Latina, este autor acompanha também de perto a vida política a sul dos Estados Unidos e apresenta-nos aqui a história do lendário general Pancho Villa.

Guillermo usa Feliciano Velasco y Borbolla de la Fuente, um advogado burguês preocupado apenas no lucro pessoal e não em quem vence quem, para realçar a estupidez das guerras. Feliciano Velasco contrói uma guilhotina que tenta vender ao comandante da revolução Pancho Villa, só que este não está minimamente interessado em pagar pela guilhotina e pelos serviços do advogado, daí que o integra no seu exército libertário e o obriga a zelar pelo bem-estar do instrumento da morte. Com muita ironia e boa disposição e muito humor, Guillermo Arriaga guia-nos pelo México solarengo em tempos de convulsão e injustiça social, retratando um dos seus mais importantes períodos históricos.

Diferente dos filmes que escreve e bem mais alegre, este romance de aproximadamente 200 páginas lê-se muito rápido e proporcionou-me bons minutos de gargalhadas e descontracção. Não sendo um romance excepcional ou impressionante, O Esquadrão Guilhotina é um óptimo livro, ainda mais recomendado pelo baixo preço que a editora Oficina do Livro o está a vender.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Rise and Fall «Faith»


Desconhecida do panorama mundial do hardcore e metal, a cidade de Ghent ofereceu nos últimos anos motivos de sobra para que a coloquem em destaque no mapa. Os Oathbreaker, que editaram muito recentemente o seu primeiro longa duração Mælstrøm, e, claro, os Rise and Fall, que já cá andam há uma década, que editaram muito provavelmente agora em Março o seu melhor álbum, Faith.  

Radicados no hardcore moderno, os belgas não praticam uma sonoridade que possa ser catalogada sucintamente como hardcore punk, pois há aqui uma dose forte de crustcore/d-beat e um groove que remete para os suecos Entombed e Disfear. Referências à parte, o grupo não se cinge a estas referências e explora uma sonoridade suja, sombria e muito sui generis, baseada em riffs ora crus, uma voz atroz muito bem berrada guiada por um baixo e uma bateria com a pujança de uns Trap Them. Gravado por Kurt Ballou (Converge) no seu God Studios, Faith é uma espécie de combinado especial dos três discos anteriores num patamar de maturidade superior e com uma boa ascensão técnica e criativa.

A Hammer and Nails, a primeira faixa do disco, é apenas um empurrão para o ritmo desenfreado e raivoso de Deceiver que, em apenas dois minutos resume muito da essência deste disco: canções objectivas geralmente com a galopada em alta na bateria de Wim, riffs crus, bem trabalhados e simples, ainda que por vezes a melodia marque sua a presença – mais notória nas faixas Burning at Both Ends e Things Are Different Now. Não seriam nunca na vida uma banda tradicional de hardcore se gravassem uma Breathe e muitos menos com a variação rítmica e progressiva da última canção Faith/Fate.

No geral, Faith é um disco de alta qualidade, de boa variação – ainda que obediente às raízes hardcore do grupo -, com os seus momentos mais negros e arrastados, ainda que o ritmo forte seja uma costela importante neste corpo belga. O dedo de Kurt Ballou é tão evidente que para quem conhece bem os seus trabalhos, e especialmente a produção de Converge, este disco vai ter algo de familiar.

8/10

«Em Paris»


Os dias de Inverno fustigados pela chuva e pela neve na cidade de Paris não tiram beleza à cidade do amor, bem pelo contrário. A cidade responsável pelo lendário Maio de 68 e todo o período de prosperidade artística e renovação cultural é palco de mais uma homenagem cinematográfica, desta feita pelo jovem realizador Christophe Honoré.

Depois de ter acabado a relação com Anne (Joana Preiss), Paul (Romain Duris) entre numa depressão profunda e regressa a Paris para viver com o seu pai e o seu irmão Jonathan (Louis Garrel). Guy Marchand, que interpreta o papel do pai, é um homem na casa dos 60/70 anos divorciado de Alice (Alice Butaud) e a âncora de uma família que ainda não recuperou da morte de uma filha. Enquanto Paul passa os dias em casa embrulhado em pensamentos tristes, a relembrar o passado a dois com a ex-namorada, Jonathan sai de casa com frequência e conquista o coração de várias mulheres nas ruas geladas de Paris, nos parques junto ao Sena.

Honoré capta bem a espontaneidade que os franceses têm no seu dia-a-dia, quer na rua, quer numa conversa casual em casa, sempre descontraídos e, mesmo quando se zangam, conseguem manter sempre aquela postura séria, ainda que leve. A narrativa centra-se em torno do pai e filhos, ainda que mais nos filhos e o amor que ambos sentem um pelo outro, na capacidade de despertar o amor fraterno e de união nos momentos mais difíceis, sem esquecer o grande desempenho de Preiss nas recordações de Paul enquanto casal. Este não é um filme linear e, ao mesmo tempo, também não é demasiado invulgar; não é um filme alegre, mas não o é triste, tampouco: é um tipo de filme que roça o drama e o romance, com boas doses de sensualidade e bom desempenho por parte de todos os actores, incidindo no espírito e capacidade mágica de “curar” os males que Paris tem.

Não sendo o melhor filme de Romain Duris – e o mesmo se aplica a Louis Garrel -, porque o seu melhor papel ainda é para o Thomas de De Tanto Bater o Meu Coração Parou, o conceituado actor acaba mesmo por deixar Garrel brilhar, ou pelo menos, dar um toque de alegria ao filme. O mesmo Garrel que no início da película avisa que não é um herói, mas um mero narrador. 

Título original: Dans Paris
Argumento: Christophe Honoré
Realização: Christophe Honoré 

terça-feira, 17 de abril de 2012

«Gritos 4»


Dez anos depois do massacre de Woodsboro – como assim ficou conhecido -, Sidney Prescott regressa para promover um livro que ela escreveu sobre os acontecimentos que marcaram a vida dela e reencontra os velhos amigos Gale Weathers (Courteney Cox) e Dewey Riley (David Arquette), que é o novo Sheriff e um dos heróis locais. O assassino conhecido como Ghostface volta para fazer das suas e fazer vida negra a Sidney (Neve Campbell). 

Até aqui, nada de realmente novo no mundo do terror. Uma alcunha extremamente assustadora como o próprio nome Ghostface sugere de imediato, uma década depois do último Gritos e o mesmo Wes Craven de sempre: em trinta anos de cinema, a única coisa boa que o realizador gravou foi mesmo o clássico Pesadelo em Elm Street… que viria a ser penosamente prolongado até perto do Pesadelo nº 10 e que, se tudo correr bem, vai ter um qualquer cruzamento com Sexta-Feira 13 e o Massacre do Texas. Há que estar preparado.

Tudo o que se passa neste quarto capítulo da série é lastimoso, previsível, desajustado, aborrecido, etc, etc. Tentam novamente recriar o primeiro capítulo da saga – que até nem é mau de todo, diga-se de passagem -, mas tanto tempo depois decorrido já não pega. Uma heroína com a força dum super herói, um vilão que também ele é dotado de super poderes, um quase-herói (Dewey), uma quase-heroína (Gale), actrizes bonitas, muito silicone e onde ficou o guião? Tantos milhões de dólares que foram para o lixo e ao mesmo tempo tanta gente que enriqueceu com este filme.

Nem com açúcar, nem com sal, Wes Craven não vai lá e também não deve estar muito preocupado com essa situação. Nem terror, nem terrir: à primeira vez tem alguma piada, à quarta já é suplício. 

Título original: Scream 4
Argumento: Kevin Williamson
Realização: Wes Craven

segunda-feira, 16 de abril de 2012

«A Pele Onde Eu Vivo»


O cinema espanhol é seguramente um dos que mais cresceu nas últimas duas décadas, tal é o número de prémios internacionais que recebe e a quantidade de actores também espanhóis que figuram já nas passerelles de Hollywood. Um dos grandes culpados deste fenómeno é o controverso realizador Pedro Almodóvar, responsável por nada mais, nada menos que Hable Con Ella, Volver e La Mala Educación.

A Pele Onde Eu Vivo estreou no ano passado e, consigo, mais uma vez se voltou a falar castelhano nos grandes festivais de cinema por todo o mundo. A estória, baseada na novela Mygale de Thierry Jonquet, passa-se em torno de Robert Ledgard (Antonio Banderas), um brilhante cirurgião que viu a sua esposa sobreviver a um acidente de viação que a deixou com horríveis queimaduras graves, mas que não conseguiu ultrapassar o desgosto causado pelas mesmas. A sua filha Norma (Blanca Suárez) é tudo o que lhe resta de bom na vida, até ao dia em que a jovem é violada numa festa por Vicente (Jan Cornet) e morre numa insituição psiquiátrica. Estes acontecimentos conduzem o médico a um louco plano da cirurgia moderna: a transformação de Vicente, entretanto raptado, numa bela rapariga para ocupar, ao mesmo tempo, o lugar de filha e esposa na casa do Dr. Robert Ledgard.

Elena Anaya dá vida a Vera, o primeiro ser humano a resistir a uma reconstrução facial, mudança de sexo e de pele, assim como uma lavagem cerebral. Com uns toques de Hitchcock e um ambiente obsessivo, Pedro Almodóvar recria um pouco os filmes de terror psicológico/drama da velha guarda, mas por vezes fica a sensação de que falta algo mais às personagens para tornar todo este ambiente num verdadeiro sufoco – se é que era essa a intenção de Almodóvar. Há ilações a retirar deste filme – como, aliás, sucede com todos os filmes deste realizador: será que, por mais moderna que seja a ciência, conseguiremos emular um ser humano que perdemos? Será a tecnologia capaz de recuperar e/ou criar uma pessoa que pense do zero, como uma máquina? A resposta é, obviamente, não. Elena Anaya, e o seu grande papel, demonstram que por mais moldáveis e evoluídos que possamos ser, no fundo uma cópia nunca substitui o original.

Denso e reflexivo, esta proposta de Pedro Almodóvar marca o regresso de Antonio Banderas à sétima arte pela porta grande e a confirmação da boa carreira de Elena Anaya.

Título original: La Piel Que Habito
Argumento: Pedro Almodóvar, Thierry Jonquet
Realização: Pedro Almodóvar