terça-feira, 11 de janeiro de 2011

«Beleza Americana»

     
Um verdadeiro murro na indústria cinematográfica é aquilo que o primeiro filme de Sam Mendes, Beleza Americana, representa para mim. Ainda me recordo de ver este filme há onze anos atrás: mesmo não sabendo sequer a sinopse, havia algo no cartaz (Mena Suvari parcialmente nua, coberta por rosas vermelhas) que se encontrava exposto à entrada do cinema que me "obrigou" a entrar, sentar-me na cadeira e apreciar até ao mais ínfimo detalhe aquele que rapidamente se tornou no meu filme predilecto. Este drama avant-garde é uma verdadeira obra-prima lançada em 1999, vencendo vários Óscares da Academia, calando ao mesmo tempo vários críticos que se estavam cépticos quanto ao valor de Sam Mendes e ao carácter mais "europeu" que marca esta longa-metragem.
             
Começando com "flashbacks" , o filme conta-nos a estória de Lester Burnham (Kevin Spacey), um homem de 42 anos que se encontra no meio de uma “crise de meia-idade”, odiado tanto pela sua esposa Carolyn (Annette Bening), como pela sua filha Jane (Thora Birch), que se sente extremamente sedado e adormecido. A nossa personagem principal conhece os vizinhos Fitts,: Ricky (Wes Bentley), um vendedor de droga que tem de enfrentar e ser como o seu pai, o Coronel Frank Fitts (Chris Cooper), uma pessoa extremamente homofóbica, patriota e que se define por um modo de estar na vida extremamente militar e formal. Ricky é um adolescente estranho, extremamente confiante, que filma obcecadamente Jane (que primeiro o odeia), acabando por se tornarem namorados. Lester tem uma vida miserável, tanto a nível social e conjugal, tendo mesmo uma esposa que o despreza. Carolyn é frígida, insegura e falsa (primeiro está a imagem, só depois vem a felicidade…) acaba por ter um caso amoroso com um dos seus rivais no ramo das imobiliárias: Buddy (Peter Gallagher), destruindo por completo o pouco que ainda restava do seu casamento com Lester.    O renascer deste dá-se quando conhece Angela (Mena Suvari), a melhor amiga da sua filha e uma “cheerleader” que aparenta ser promíscua e confiante.
           
Beleza Americana retrata a vida de um homem que em menos de um ano morrerá, e sem que o saiba, renasce e deixa de parte a costela material da sua vida: os luxos, a vida de aparências, o emprego monótono, e a sua relação conflituosa com a sua esposa e filha. Ao apaixonar-se por Angela, Lester apercebe-se de que quer viver apenas de modo humilde, totalmente anti-materialista, e ser feliz. O filme é uma sátira à sociedade capitalista americana do final dos anos 90 do governo de Bill Clinton: uma crítica ao mundo da concorrência desleal das grandes empresas imobiliárias que caracterizou o segundo mandato de Clinton; uma sociedade consumista que se desliga do real e vive no artificial e que deixou de reparar nas coisas belas da vida (um saco de plástico a dançar no vento é o vídeo preferido de Ricky, um jovem aparentemente “chanfrado”, que ao longo do filme se revela frio e enfrenta o pai severo); os casamentos de aparências, uma sociedade que molda os adolescentes de acordo com o sonho americano… uma sociedade que deixou de viver (Carolyn é o melhor exemplo desta questão). A homofobia presente no Coronel Frank Fitts é outro dos pontos importantes do filme. Frank é um pai obcecado pela educação militar, republicana e severa do filho, e um homem triste que vive dentro de uma carapaça que o impede de ser o que ele realmente é: um homossexual. Este tipo de vivência social material e repressiva dos nossos desejos verdadeiros marcou uma era e curiosamente ainda marca a nossa.

Uma viagem aos subúrbios norte-americanos e sequências de histórias de amor que aborda temas como solidão, beleza, tristeza ou ódio, sem deixar de lado as relações entre homens maduros e jovens raparigas, o consumo casual de drogas, a homossexualidade no Exército, sexualidade entre adolescentes, a obsessão pela vida dos vizinhos, o amor e ternura existentes entre as mais conflituosas famílias e a já mencionada cena do saco de plástico dançante, fazem com que Beleza Americana faça todos aqueles que vivem como Lester questionem se realmente estão mortos ou se ainda vão a tempo de renascer.

Título original: American Beauty.
Realizado por Samuel Mendes. Escrito por Alan Ball. Produzido por Jinks/Cohen Company e DreamWorks SKG.

2 comentários:

  1. Não podia deixar de comentar uma das obras que muito aprecio. Relato este tão tipico de grande parte da sociedade...sociedade esta que não vê ou prefere não ver aquilo em que se tornou. Relativamente a isso...ha que viver segundo o Carpe Diem horaciano para cada momento diário aproveitarmos. N.C.

    ResponderEliminar
  2. O Lester até carpe noctem faz. Depois deste filme, o cinema praticamente deixou de ter importância para mim.

    ResponderEliminar