sábado, 26 de março de 2011

«Lost in Translation – O Amor É um Lugar Estranho»


O que se passa neste filme, muito provavelmente aconteceu a muitos de nós, tenho a certeza disso. Imagine  que vai para um país desconhecido e que não fala o idioma local – sabe apenas dizer “olá” – e os habitantes desse mesmo país também não dominam a sua língua mãe. Imagine também visita esse país por questões profissionais e não por lazer. O mais provável é sentir-se aborrecido e querer voltar a casa o mais rápido possível.

Sophia Coppola (As Virgens Suicidas) decidiu pegar em Bill Murray (Os Caça-Fantasmas, O Feitiço do Tempo) e colocou-o na pele de Bob Harris, um famoso actor norte-americano na casa dos 50 anos. A jovem Scarlett Johansson (Ghost World – Mundo Fantasma) interpreta Charlotte, uma jovem norte-americana de 20 e poucos anos que se casou recentemente com John, um fotógrafo conceituado. Ambos se encontram alojados num hotel luxuosos de Tóquio, completamente desconectados da realidade. Charlotte é constantemente ignorada pelo seu marido, que não se apercebe do estado psicológico e da solidão em que a esposa se encontra. De facto, durante o filme vemos Charlotte a olhar várias vezes pela janela do quarto a tentar perceber o que fazer em relação à situação em que se encontra. Sem amigos, sozinha e desmotivada, Charlotte acaba por sofrer de insónias. Num outro quarto do hotel, e também sem sono, encontra-se Bob que se deslocou até Tóquio para gravar um anúncio publicitário ao “whiskey” Suntori. Pai, casado há 25 anos, tem um relacionamento difícil com a sua esposa e esquece-se mesmo do aniversário do filho. 

Charlotte e Bob acabam por se encontrar e conhecer no bar do hotel durante as madrugadas. A partir dali (e o bar tem um significado especial para ambos) começam a falar das suas vidas, dos seus casamentos complicados e um pouco da solidão. Na ausência do marido, Charlotte convida Bob para saírem juntos e conhecerem um pouco da cidade, com vista a divertirem-se um pouco. Durante essas saídas, há um laço de amizade e simpatia que cresce entre os dois. Ao contrário do que o subtítulo português sugere, os dois amigos não estão necessariamente à procura de amor; estão sim à procura de se encontrarem, de serem encontrados (“Everyone wants to be found” é o slogan/subtítulo da versão original). E isso acontece. Embora haja um certo sentimento de amor entre ambos, explicado pela solidão e aborrecimento, Bob e Charlotte contam segredos da vida de cada um e completam-se um ao outro, sempre com consciência de que têm vidas e casamentos distintos. Quando Bob opta por cometer adultério (ainda que arrependido), fá-lo com uma cantora de Jazz do hotel e Charlotte aceita e perdoa, ainda que triste. A despedida dolorosa e o beijo entre ambos podem ser entendidos como um gesto de amizade - não é perceptível o que Bob sussurra ao ouvido de Charlotte.

O desempenho de ambos é extraordinário. Diria mesmo que este filme, de cariz independente, é até hoje o pico das carreiras cinematográficas de Murray e Johansson. Conseguem transmitir através de uma forma acutilante a solidão humana que podemos eventualmente sentir num local estranho e numa cultura completamente diferente da nossa. No final, e ao contrário do sentimento inicial, a vontade de ficar é mais que muita. Sofia Copolla assinou aqui também o seu melhor trabalho enquanto realizadora, com imagens e diálogos simbólicos (é delicioso ver a calma e boa disposição que Bob emana, mesmo sentindo-se miserável. Tal como os filmes de Ingmar Berman ou a série Sete Palmos de Terra de Alan Ball, Lost in Translation – O Amor É um Lugar Estranho tem obrigatoriamente que ser observado mais que uma vez para que se consiga absorver a complexidade emocional humana de um dos melhores filmes (senão mesmo o melhor) da década passada. 

Título original: Lost in Translation
Escrito e realizado por Sofia Coppola. Produzido por Focus Features, Tohokashinsha Film Company Ltd, American Zoetrope e Elemental Films. 

2 comentários:

  1. escelente review....e de facto este tipo de situação é bastante comum mesmo no país de origem e cuja linguagem a mesma é. Todos precisamos de encontrados ser. Até no meio da multidão...sozinhos nos podemos sentir.
    Gostei, amo o filme e gostei da tua escrita sobre o mesmo. keep the good work. N.C.

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  2. Talvez um dos pouquíssimos filmes pós-american beauty que vejo e lhe tiro o chapéu

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